Wednesday, January 20, 2021

A Voz Suprema do Blues | Dignidade, respeito e independência

A Voz Suprema do Blues. Você é capaz de acompanhar a complexidade destes personagens? É verão na Chicago de 1927. Este filme, baseado em uma peça de August Wilson, tem diversas funções; dentre elas a conscientização. Não pretendo falar dessa obra do ponto de vista daqueles cujos antepassados sofreram, mas na posição de descendente de pessoas que segundo a limitação e contexto moral, ético e religioso de sua época, cometeram atrocidades e violências que devem ser relembradas para que jamais se repitam e para que nos movamos na direção da correção destas injustiças raciais.

Como mulher, posso abordar a força das personagens de Ma Rainey e Dussie Mae, que não só passam pelo teste Bechdel, como criam uma dinâmica pouco usual, até hoje, nos cinemas. Relação de poder, apego, desejo, ambição, controle e sexualidade entre mulheres, longe de serem simplistas.

Presentismo

Aprendi em minha formação que poderia existir uma falácia do presentismo, que consiste em trazer as ações do passado para a moral dos dias de hoje. Sendo assim, tentarei observar a luta destas personas dentro da realidade que viveram, o quanto seja possível.

Objetivo a se alcançar: quando uma população é marginalizada e excluída de partes importantes da formação de uma estrutura social, como atingi-la?

Como fazer chegar até estes informações que talvez os libertem em estado de mente e desenvolvimento, mas que podem não parecer relevantes e atrativas?

A música, as histórias, os alimentos e exemplos entre semelhantes pareceu ser a resposta.

Se assim desejássemos, poderíamos sentar em volta de uma fogueira e contar cada 10 minutos dessa peça como uma lição.

Orgulho

Cheio de riquezas nos detalhes, A Voz Suprema do Blues transporta para uma época, nem tão distante assim, onde a percepção de uma falta de humanidade mostra como o que vivemos hoje tem apenas outra roupagem de velhas atitudes e violações contra o povo negro, sejam eles trabalhadores assalariados ou artistas independentes.

Sua força, seus sonhos e orgulho contrastam com seus traumas, agressividade e impulsividade, advinda de um desejo de mudar aquela realidade como conheciam. Fica muito clara a diferença entre ataque, auto defesa e perda de controle na dinâmica da história.

Aquilo em que se acredita pode ser o motriz das mudanças que tanto anseiam, por isso uma filosofia de dignidade, respeito e independência é tão presente na película.

Aliás, veja o trailer e siga lendo:

Citando Viola ao comentar sobre a produção: “É sobre um dia na vida desses artistas”.

Agora imagine, se um dia já parece pesado, penoso e humilhante, tente viver assim por toda sua vida.

O que causa indignação ou consternação neste filme, não é a tristeza ou violência, mas a massa branca que alimentava um sistema cruel e criminoso. O quanto suas posições e atitudes que causavam dor a essas pessoas não eram questionadas e tiveram que ser modificadas com resistência, resiliência e criatividade.

A música que te levanta todos os dias da cama para trabalhar é o que tornava o ordinário em algo incrível.

Além disso, fica a dica: após o filme, veja os bastidores

Quem foram estas pessoas? Como decidiram ou intuíram enfrentar suas batalhas? Como se colocar e afirmar frente um mundo que tenta negar sua existência?

Direcionado ao povo negro americano e além mar, projeta força e determinação para que não se deixem abater e nem se contentem com o que já conquistaram; que busquem o que merecem, têm direito e ousem sonhar.

A Voz Suprema do Blues é um filme que não amacia para agradar, é como é por um objetivo claro e impõe respeito.

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