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Mélissa Boros em cena de "Alpha"- Divulgação Mubi
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Alpha’ – uma viagem surreal e desconfortável

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 28 de maio de 2026
6 Min Leitura
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Mélissa Boros em cena de "Alpha"- Divulgação Mubi
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Dirigido por Julia Ducournau, Alpha é hermético body horror que une coming of age, discussão sobre luto e muita loucura em uma produção que poderia ser mais focada.

Julia Ducournau não é estranha a traumatizar pessoas. Lembro da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, quando duas sessões terminaram ao mesmo tempo e os públicos se encontraram do lado de fora: Ilha Bergman (2021, Mia Hansen-Løve), e Titane (2021, Julia Ducournau). Enquanto a audiência do primeiro, filme que eu havia assistido, saiu leve, quase abraçada por uma sensação de conforto, o público de Titane ainda estava em choque, carregando uma aura pesada, traumatizado pelo body horror surreal da diretora. Ao sair de Alpha, relembrei imediatamente essa sensação.

Novamente explorando o body horror, Alpha utiliza simbolicamente A Letra Escarlate, clássico romance de Nathaniel Hawthorne, para facilitar uma empatia com Alpha, uma jovem de 13 anos que tatua a letra “A” no braço utilizando uma agulha possivelmente contaminada. O ato desperta preocupação em sua mãe, uma médica já sobrecarregada pelos problemas envolvendo o irmão, Amin, um dependente químico em recuperação, além de um vírus misterioso que transforma pessoas em pedra.

Mélissa Boros e Golshifteh Farahani em cena de "Alpha"- Divulgação Mubi

Mélissa Boros e Golshifteh Farahani em cena de “Alpha”- Divulgação Mubi

Assim como a protagonista do livro de Hawthorne, Alpha é uma pessoa boa que sofre as consequências de seu ato, sendo isolada e tratada como doente. A cinematografia em tons pastéis, dominada por cinzas e brancos, reforça esse sentimento. Os poucos momentos de calor visual acontecem em outra linha temporal, que só se conecta ao presente no terceiro ato.

Em um ritmo lento, com forte ênfase no sofrimento e em situações agonizantes que potencializam o body horror em sua essência mais pura, a produção se arrasta em uma jornada de descoberta não apenas para Alpha, mas também para sua mãe, que precisa aprender a deixar o passado partir.

Acima de tudo, o novo filme de Julia Ducournau é uma experiência para ser sentida. A narrativa, em si, apresenta incongruências e um hermetismo que dificulta até mesmo a compreensão de seus reflexos mais diretos, como o fato de a doença funcionar claramente como uma analogia à AIDS, especialmente considerando o início do surto nos anos 80 e suas consequências nos anos 90. Há ainda paralelos com a menstruação e com a transição de Alpha da infância para a adolescência, lidando com desejos e descobertas naturais dessa fase.

O problema surge quando tudo permanece apenas no campo das ideias e das sensações, deixando poucas situações realmente concretas. O arco de Amin, por exemplo, carrega uma interessante reflexão sobre luto, mas raramente ganha profundidade suficiente. Apesar de não ser difícil compreender os temas propostos, Alpha parece sentir prazer em levar o espectador ao extremo do desconforto sem oferecer qualquer recompensa emocional em troca, apenas empilhando sofrimento sobre sofrimento.

Mélissa Boros e Tahar Rahim em cena de "Alpha"- Divulgação Mubi

Mélissa Boros e Tahar Rahim em cena de “Alpha”- Divulgação Mubi

Cinematograficamente, a produção evita conforto. Não há grandes momentos de beleza visual dentro dessa paleta desconfortável, mas existe uma construção sensorial que se fortalece através dos espelhos familiares que ampliam a jornada emocional dos personagens. Um bom exemplo está em uma música inicialmente cantada pela mãe para Alpha e que, ao final do filme, retorna em um movimento oposto, com a filha confortando a mãe.

O body horror em si nunca é totalmente explorado como linguagem narrativa. O vírus funciona mais como um obstáculo dramático do que como um elemento verdadeiramente desenvolvido. Seu papel é separar os personagens e mantê-los assombrados pela angústia e pela perda, porque o verdadeiro arco da história não está no “A” tatuado no braço de uma garota de 13 anos, mas sim na tentativa de reconstrução da relação entre mãe e filha após uma grande perda, deixando tudo ao redor delas mergulhado na escuridão.

No fim, Alpha se enrola na própria ambição. Menos centrado do que Titane, o filme pesa sobre sua audiência não pela força da história, mas pelo quão cansativo se torna em sua tentativa de estruturar simbolismos e relações que poderiam ter sido trabalhados de maneira muito mais rápida e orgânica.

Distribuído pela O2 Play em parceria com a MUBI, Alpha chega aos cinemas em 4 de junho.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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