Dirigido por Kane Parsons, Backrooms: Um Não Lugar amplia o universo do YouTube com maior aprofundamento psicológico
Em uma época dominada pelo conceito de transmídia, Backrooms surge como um exemplo de como um projeto inicialmente pequeno pode crescer a ponto de se tornar um dos filmes de terror mais aguardados do ano. O problema começa justamente quando essa escala aumenta demais. Na tentativa de transformar o conceito em um estudo psicológico mais ambicioso, o filme se distancia do elemento que tornou os vídeos originais tão marcantes: o terror do desconhecido.
Nos curtas publicados no YouTube, Parsons trabalhava com um fio narrativo simples, mas eficiente. Ainda assim, a narrativa nunca foi o principal atrativo. O que realmente tornava Backrooms perturbador era a imersão: a câmera tremida em primeira pessoa, os corredores vazios e sem propósito aparente, os sons fora de quadro e a constante sensação de isolamento. Existia uma criatura, mas pouco importava sua origem. O medo vinha justamente da ausência de respostas e da imaginação preenchendo os espaços vazios.
Para uma adaptação em longa-metragem, uma narrativa mais estruturada era inevitável. O filme começa exatamente no estilo dos vídeos originais antes de apresentar seus protagonistas: Clark, dono de uma loja de móveis frustrado com a própria vida, e Mary, sua terapeuta, uma mulher que lida com os próprios traumas enquanto utiliza métodos pouco ortodoxos de terapia.

Renate Reinsve em cena de “Backrooms”- Divulgação Imagem Filmes
Após Clark encontrar uma entrada para os famosos corredores amarelos, Mary decide entrar nos Backrooms para resgatá-lo. A partir daí, o longa tenta transformar aquele espaço em algo mais simbólico: uma representação psicológica do trauma, da culpa e do isolamento emocional. A ideia, por si só, não é ruim. O problema está na forma como o filme insiste em transformar o horror em exercício de interpretação.
As melhores cenas acontecem quando Parsons simplesmente abraça o terror. A sequência em que Clark entra nos corredores acompanhado de Bobby e Kat é, facilmente, a mais eficiente do longa. O silêncio desconfortável, os ruídos espalhados pelo ambiente e a presença constante da criatura recriam a sensação sufocante dos vídeos originais. Nestes momentos, Backrooms entende o que sempre foi: horror diante do incompreensível.
O filme perde força quando tenta racionalizar demais sua própria mitologia. Referências visuais, simbolismos psicanalíticos e discussões sobre trauma se acumulam de maneira excessiva, sufocando a experiência. A produção constantemente exige que o espectador analise cada detalhe em busca de significados ocultos, como se complexidade automaticamente resultasse em profundidade.
No fim, a interpretação central sequer é difícil de compreender: os Backrooms representam a deterioração mental causada pelo isolamento e pela incapacidade de enfrentar os próprios erros. Clark encontra naquele espaço um lugar onde pode existir sem mudar, preso em sua lógica narcisista e confortável. A ideia é clara. O excesso de simbolismo ao redor dela não a torna mais poderosa, apenas mais cansativa.
A presença de Osgood Perkins entre os produtores executivos ajuda a entender o caminho adotado pelo longa. Assim como em seus filmes, existe aqui uma tentativa constante de transformar ambiguidade em profundidade intelectual, criando uma narrativa que frequentemente parece mais interessada em ser decifrada do que sentida.

Cena de “Backrooms”- Divulgação Imagem Filmes
Ainda assim, tecnicamente, Backrooms impressiona. Mais de 2.700 metros quadrados de cenários foram construídos do zero, e a direção de arte expande o universo muito além dos corredores amarelos já conhecidos. A cinematografia alterna entre enquadramentos mais tradicionais e momentos de câmera na mão que remetem diretamente ao cinema amador dos vídeos originais, justamente quando o filme funciona melhor.
As atuações de Renate Reinsve e Chiwetel Ejiofor também são sólidas, embora seus personagens nunca alcancem toda a complexidade que o roteiro acredita possuir.
No fim, Backrooms esquece aquilo que o tornou tão fascinante. O terror da franquia nunca esteve nas respostas, mas na ausência delas. Ao tentar iluminar demais seus corredores, o filme dissolve o medo que existia na escuridão, e resta somente o vazio.
Distribuído pela Imagem Filmes, Backrooms: Um Não-Lugar estreia nos cinemas em 28 de maio.
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