Dirigido por Mamoru Oshii, Angel’s Egg é um daqueles filmes que se impõem mais pelo silêncio e pela força imagética do que por qualquer traço de narrativa convencional.
Assim como cineastas como Andrei Tarkovski e Alejandro Jodorowsky demonstraram ao longo de suas obras, o cinema pode ser muito mais do que uma sucessão lógica de eventos: ele pode existir como experiência emocional, sensorial e contemplativa. E, para isso, não são necessários diálogos extensos, explicações detalhadas ou personagens guiados por objetivos claros. Às vezes, basta um espetáculo visual repleto de simbolismos para que o filme adquira significados únicos, variáveis e profundamente pessoais para cada espectador. Angel’s Egg é exatamente esse tipo de obra.
A trama concebida por Oshii se passa em um universo distópico marcado pela decomposição, pela chuva incessante e pela ausência quase absoluta de palavras. Nesse cenário, acompanhamos uma jovem que protege com devoção um ovo misterioso, enquanto tenta sobreviver em meio às ruínas de uma civilização esquecida e a presença enigmática de um homem que carrega uma cruz.

Cena de Angel’s Egg- Divulgação Sato Company
Permeado por alegorias e simbolismos bíblicos, alguns explícitos, outros sutis, Angel’s Egg transmite peso em cada gesto mínimo. A estética é tão presente quanto qualquer personagem: arquitetura monumental, paisagens desoladas e composições que fazem uso recorrente de formas proporcionais, criando uma harmonia inquietante que reforça a sensação de sonho, ou talvez de pesadelo.
Oshii não convida o espectador a decifrar uma história tradicional, ao invés disso o convida a abandonar expectativas, abrir mão da necessidade de explicação e mergulhar na atmosfera construída pela animação 2D fluida e quase monocromática.
Dentro deste universo, os personagens parecem pequenos e frágeis diante do mundo colossal que os cerca, um mundo no qual não há controle possível sobre a natureza nem sobre as ameaças que surgem a cada esquina, sendo o único caminho, o de manter a esperança e seguir adiante, mesmo que o horizonte pareça sempre distante. A relação entre a jovem e o ovo pode ser vista como resistência, fé, obstinação ou ingenuidade, mas ao final não importa pois o próprioo filme não oferece respostas, e essa liberdade interpretativa é uma de suas maiores forças.
Esse labirinto de significados, ora poéticos, ora angustiante, é um dos motivos pelos quais Angel’s Egg mantém relevância mesmo após quatro décadas. Lançado em 1985, o filme recebeu boas recepções críticas e frequentemente é comparado a Beladona da Tristeza (1973, Eiichi Yamamoto), tanto por sua beleza estilizada quanto por sua atmosfera opressora e perturbadora, sendo uma experiência cinematográfica experimental que abraça uma poesia lírica e não precisa de mais nada além disso para permanecer viva no imaginário dos espectadores, que guardarão com si o monólogo existencialista sobre a pomba da arca de Noé, ou o fóssil do anjo.

Cena de Angel’s Egg- Divulgação Sato Company
Mais do que um filme, Angel’s Egg é um convite à desaceleração, à introspecção e à contemplação, sendo uma obra madura, singular, e que ocupa um espaço raro dentro da animação voltada ao público adulto.
Distribuído pela SATO COMPANY, Angel’s Egg terá no dia 19 de novembro uma pré-estreia especial no Shopping Frei Caneca, em São Paulo, seguida de debate com a jornalista e criadora de conteúdo Miriam Castro, conhecida na internet como Mikannn. Em seguida, a remasterização estreia em circuito nacional no dia 20 de novembro.
Ingressos para a pré estreia podem ser encontradas no seguinte link.
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