Tuesday, December 1, 2020

Crítica – Antártica por um ano – Brasilidade no gelo

Já se imaginou na Antártica? E trabalhar naquele gelo por um ano rodeado por outros conterrâneos brasileiros?

O documentário idealizado e dirigido com capricho por Júlia Martins mostra um pouco dessa experiência neste local tão inóspito que povoa o imaginário de tantas pessoas.

O filme é dotado de muito simbolismo e importância. Começou a ser rodado no final de 2015, e foi até novembro de 2016. Era para ter sido em 2012. Uma equipe se preparava para embarcar visando realizar o documentário quando ocorreu um incêndio na base brasileira Comandante Ferraz localizada na Ilha do Rei George. 75% da estação foi destruída, e dois militares brasileiros morreram.

Foi adiado, mas a missão precisava seguir. Assim foi, com emoção, ao mostrar as famílias se despedindo dos quinze brasileiros da Marinha. Abraços, beijos, olhos marejados. A medida que vão caminhando até o avião, que os deixará no Chile, onde embarcarão, seus familiares assistem com imensa apatia. Será um longo ano distante.

No navio, são surpreendidos por uma situação que atrasa a chegada em duas semanas. O mar está com temperatura três graus abaixo do normal; tem muito gelo para época, diferente dos anos anteriores. Ficam esse tempo vivendo na embarcação em Puerto Willians, com a ansiedade tomando conta. O atraso atrapalhará a transição de uma equipe para outra. Haverá menos tempo para treinamento.

Interessante o foco do filme no que importa: o ser humano. E não um ser humano qualquer, contudo uma espécie rara e única: o brasileiro. São entrevistados e falam como aquela viagem é um sonho, uma realização profissional. Ou algo inimaginável para outros. Um deles conta sua história, como foi entregue pela mãe, empregada doméstica, aos patrões, para ser criado. Não demonstra tristeza ou revolta com o ocorrido, mas sim uma sabedoria incrível ao dizer que o amor, muitas vezes, faz com que você se sacrifique por quem ama. E é isso que está fazendo ali, sacrificando-se pelos familiares que ficaram no Brasil.

Temos outra figura humana que se destaca, a primeira mulher, negra, médica, na Antártica, e a única em meio a outros quatorze homens. Seu relato de como foi necessário apagar a própria feminilidade durante aquele tempo realmente faz pensar. Seus questionamentos e reflexões. O chefe da missão cujo pai estava doente, e torcia para que não morresse, enquanto com seriedade fazia sua parte para que toda a equipe pudesse retornar ao lar.

Após assistir a pré-estreia pude conversar com a diretora Júlia Martins, que fez questão de falar sobre o Fundo Setorial Audiovisual. A Ancine financiou completamente. Júlia frisa isso porque agora é um momento de desvalorização do audiovisual e do cinema brasileiro, alvo de críticas e provações. Além disso, o longa mostra a importância das pesquisas feitas na Antártida, as quais também sofrem nesse momento. Vemos pesquisadores de diversas Universidades públicas que tem como porto seguro o trabalho da Marinha, proporcionando – de forma primorosa – as condições para que a ciência se sobressaia. Mantendo a presença do país naquele local. O Brasil é membro signatário do Tratado da Antártida, acordo firmado em 1959, que determina o uso do continente para fins pacíficos, estabelecendo o intercâmbio de informações científicas e proibindo reivindicações territoriais.

Desde 1982 a Marinha está por lá. Em 1984 começa o serviço com a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) possibilitando pesquisas sobre a distribuição de espécies, diversidade genética, clima, etc. Entendendo a Antártida, compreendemos melhor o Brasil. As mudanças que lá ocorrem afetam o país diretamente.

Emocionante ver a comemoração da equipe quando passa o avião da Força Aérea Brasileira (FAB) e lança com precisão os suprimentos e os presentes enviados pela família. A rotina é complicada, de um dia para o outro, por exemplo, o mar congela. É uma visão que influencia emocionalmente aqueles heróis, pois é o caminho de volta. Citam o valor de comer um pão ao acordar, como se tivesse saído direto da padaria. É um estímulo para um novo dia. Quando chega o inverno rigoroso, a sensação de isolamento é pesada. São quatorze graus negativos. Ah, mas isso aqui é Brasil! Nas primeiras oportunidades, rola aquele churrasco, e é impressionante ver os militares jogando futebol em cima do mar congelado. As virtudes da nossa cultura saltam. A irreverência, a alegria, a resistência, a resiliência. No ano novo, entram na água gelada. No carnaval, tem o bloco Suvaco da Foca. “A gente sai do Brasil, mas o Brasil não sai da gente”.

O documentário mexe com a emoção e é uma ode à brasilidade. Senti orgulho da Marinha, senti orgulho daqueles pesquisadores, senti orgulho do Cinema brasileiro, com “C” maiúsculo. Será lançado dia 16 de maio de 2019 em nove cidades (Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Belo Horizonte, Aracaju e Teresina). É pouco para o valor do filme, contudo é uma conquista louvada pela equipe.

Acima de tudo, essa obra cinematográfica Antártica por um ano traz o orgulho de fazer parte dessa espécie, a brazuca. Sim, o brasileiro tem que ser estudado, porque igual não há: a gente é especial demais.

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