Dirigido por Gregorio Gananian e Negro Leo, Aquele Que Viu o Abismo é uma produção experimental que tenta dizer muito, mas acaba gritando para o vazio.
Com menos de 70 minutos de duração, Aquele Que Viu o Abismo foi o vencedor do prêmio de Melhor Filme da Mostra Olhos Livres na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Apostando em uma estética que rejeita narrativas convencionais e privilegia a experiência sensorial, o longa desperta uma pergunta inevitável: afinal, sobre o que ele realmente fala?
A sinopse oficial apresenta uma trama de assassinatos na qual X, interpretado por Negro Leo, utiliza suas visões para sobreviver em um sistema opressor. Na prática, porém, o filme é composto por uma sucessão de cenas desconexas. Não surpreende descobrir que a obra foi realizada sem roteiro ou plano de filmagem, sendo construída de forma espontânea durante as gravações e organizada apenas na montagem. O problema é que essa liberdade criativa raramente se transforma em uma narrativa minimamente envolvente.
É inevitável refletir sobre o impacto que obras como essa causam na aproximação do público com o cinema brasileiro. Em um momento em que a produção nacional busca ampliar sua audiência, premiar um filme que praticamente abdica da comunicação com o espectador parece uma decisão difícil de compreender. Aquele Que Viu o Abismo apresenta uma narrativa quase inexistente, longas sequências que pouco acrescentam, como a extensa cena de Negro Leo chorando, e transmite constantemente a sensação de tempo desperdiçado.

Cena de “Aquele Que Viu o Abismo”- Divulgação Embaúba Filmes
Diversos momentos reforçam essa impressão. A sequência de luzes, por exemplo, pouco dialoga com a arma apresentada no início do filme; o letreiro sobre um fundo vermelho-sangue parece buscar apenas um impacto visual imediato; e a trama de assassinatos, anunciada como elemento central, jamais ganha força dramática. É possível interpretar a obra como uma homenagem ao artista independente brasileiro e ao cinema de resistência, mas a execução raramente transforma essas intenções em algo memorável.
Ao observar a ficha técnica, chama atenção o fato de Gregorio Gananian acumular sete funções diferentes, incluindo direção, fotografia, direção de arte, som e montagem. Embora essa multifuncionalidade seja comum em produções independentes de baixo orçamento, ela também evidencia a ausência de um olhar externo capaz de questionar escolhas narrativas e de apontar excessos. O resultado é um filme que parece nunca confrontar suas próprias limitações.
Em alguns momentos, há ecos de O Bandido da Luz Vermelha (1968, Rogério Sganzerla), especialmente nas sobreposições de voz e nas sequências de luzes. Entretanto, a inspiração jamais alcança a potência formal ou política daquele clássico.

Cena de “Aquele Que Viu o Abismo”- Divulgação Embaúba Filmes
Iniciado durante uma residência artística na China, em 2019, e concluído com filmagens complementares em São Paulo, o longa tenta estruturar a jornada de um homem contra um sistema opressor por meio de cortes abruptos, imagens fragmentadas e cenas aparentemente aleatórias. Contudo, a falta de coesão faz com que essa proposta nunca se consolide.
Existe uma diferença importante entre utilizar uma linguagem experimental para desafiar convenções narrativas e recorrer à fragmentação sem construir um discurso consistente. O experimentalismo, por si só, não justifica a ausência de desenvolvimento dramático. Em Aquele Que Viu o Abismo, a sensação predominante é a de que a aleatoriedade substitui a construção cinematográfica, tornando a experiência mais exaustiva do que provocadora.
Distribuído pela Embaúba Filmes, Aquele Que Viu o Abismo estreia nos cinemas no dia 30 de julho.
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