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Suzanne Lindon em cena de "As Cores do Tempo"- Divulgação Imovision
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘As Cores do Tempo’ é drama francês bonito, delicado e difícil de esquecer… ou de lembrar?

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 23 de julho de 2026
6 Min Leitura
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Suzanne Lindon em cena de "As Cores do Tempo"- Divulgação Imovision
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Dirigido por Cédric Klapisch, As Cores do Tempo é delicado mergulho francês sobre pertencimento, memória e família.

Há filmes que permanecem conosco por anos e outros que desaparecem da memória assim que as luzes da sala se acendem. As Cores do Tempo ocupa um curioso espaço entre esses extremos: é um filme agradável, sensível e constantemente simpático, mas incapaz de transformar sua delicadeza em uma experiência verdadeiramente marcante.

Logo na sequência de abertura, acompanhamos o jovem Seb indignado ao ouvir durante um ensaio fotográfico, a sugestão de alterar digitalmente a cor de um quadro histórico apenas para destacar o vestido de sua namorada. É um momento simples, mas que sintetiza o principal conflito do filme: o constante embate entre tradição e progresso.

Essa oposição se manifesta de diversas maneiras ao longo da narrativa. Está presente na discussão sobre demolir uma casa centenária para construir um estacionamento, no confronto entre pintura e fotografia, na diferença entre a tranquilidade do interior e a agitação da cidade e, principalmente, na estrutura que alterna duas histórias separadas por mais de um século.

Suzanne Lindon e Sara Giraudeau em cena de "As Cores do Tempo"- Divulgação Imovision

Suzanne Lindon e Sara Giraudeau em cena de “As Cores do Tempo”- Divulgação Imovision

De um lado, acompanhamos quatro primos distantes que descobrem ser descendentes de Adèle Meunier e, aos poucos, constroem uma inesperada relação familiar. Do outro, conhecemos a trajetória da própria Adèle na Paris do fim do século XIX, em uma jornada marcada pela busca de sua identidade e pelo desejo de compreender suas origens. Embora pertençam a épocas distintas, ambas as narrativas dialogam sobre a construção da família para além dos laços biológicos.

Esse diálogo entre passado e presente rende alguns dos momentos mais inspirados do longa. A discussão sobre a possível morte da pintura diante do surgimento da fotografia encontra eco, décadas depois, em uma cerimônia de Ayahuasca que conecta simbolicamente as duas linhas temporais. É uma sequência inventiva, sensível e uma das melhores ideias da direção de Klapisch.

Visualmente, As Cores do Tempo é um filme elegante. A direção de arte recria o século XIX com riqueza de detalhes, enquanto a fotografia diferencia com personalidade as duas épocas sem recorrer a contrastes exagerados. A montagem também merece destaque ao realizar transições orgânicas entre os períodos históricos, permitindo que ambas as narrativas fluam naturalmente. O problema surge quando o roteiro tenta distribuir seu tempo entre muitos personagens sem oferecer a eles desenvolvimento suficiente.

Entre os quatro primos, Seb acaba sendo o único personagem realmente aprofundado, principalmente por seu envolvimento amoroso e pela maneira como sua trajetória dialoga diretamente com a história de Adèle. Já Celine, Abdelkrim e Guy são definidos por características bastante reconhecíveis, mas recebem conflitos superficiais. Há momentos afetuosos como a despedida de Abdelkrim ou sua relação com a ex-aluna, agora curadora de arte, porém falta complexidade para que essas histórias deixem uma impressão duradoura.

Abraham Wapler, Julia Piaton, Zinedine Soualem e Vincent Macaigne em cena de "As Cores do Tempo"- Divulgação Imovision

Abraham Wapler, Julia Piaton, Zinedine Soualem e Vincent Macaigne em cena de “As Cores do Tempo”- Divulgação Imovision

O mesmo acontece com Celine, reduzida a uma crise decorrente de um relacionamento fracassado, e com Guy, cuja personalidade introspectiva e bondosa jamais ultrapassa o arquétipo. São personagens que despertam empatia quase imediata, mas dificilmente surpreendem ou encontram momentos capazes de marcar o espectador.

Curiosamente, é justamente a narrativa de Adèle que entrega as situações dramaticamente mais interessantes. Sua relação conturbada com a mãe, o envolvimento afetivo que ela tem com um pintor e um fotógrafo e a busca pela identidade de seu pai oferecem conflitos mais consistentes, embora o filme também escolha resolvê-los de forma bastante confortável. O resultado continua sendo delicado e emocionalmente agradável, mas raramente ultrapassa essa sensação.

Essa talvez seja a maior limitação de As Cores do Tempo. Klapisch constrói um universo caloroso, povoado por personagens genuinamente simpáticos e por reflexões pertinentes sobre memória, arte e pertencimento. No entanto, evita conflitos mais contundentes ou escolhas narrativas que desafiem seu próprio equilíbrio. Tudo funciona, tudo é agradável, mas quase nada permanece.

Para os apreciadores do cinema francês mais leve e humanista, o filme certamente encontrará seu público. Ainda assim, ao optar por dividir sua atenção entre muitas histórias sem aprofundar suficientemente nenhuma delas, As Cores do Tempo entrega uma experiência acolhedora, porém discreta, daquelas que arrancam um sorriso durante a sessão, mas que lentamente desaparecem da memória conforme o tempo passa.

Distribuído pela Imovision, As Cores do Tempo estreia nos cinemas no dia 30 de julho.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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