Dirigido por Ugo Bienvenu e Gilles Cazaux, Arco impressiona antes de tudo pela forma e pelo retrato humano de seus personagens.
Em um cenário dominado por animações em 3D hipertexturizadas, muitas delas marcadas por um virtuosismo técnico que por vezes se sobrepõe à sensibilidade, a opção de uma estética delicada 2D, em um filme tão íntimo quanto Arco, soa como uma proposital decisão nostálgica que remete diretamente aos grandes que vieram anteriormente, e que apresentam nova luz dentro de jornada tão única.
Produzida por Natalie Portman, a animação francesa parte de uma premissa conhecida: um menino-arco-íris cai na Terra e estabelece laços com uma garota solitária. A estrutura inevitavelmente evoca outros relatos de encontros entre o extraordinário e o cotidiano. A criatura deslocada que transforma a vida de uma criança remete a E.T. – O Extraterrestre (1982, Steven Spielberg); o ser incompreendido perseguido por forças maiores ecoa O Gigante de Ferro (1999, Brad Bird); a amizade que reorganiza dinâmicas familiares dialoga com Lilo & Stitch (2002, Chris Sanders e Dean Deblois).

Cena de “Arco”- Divulgação Mubi
Mas Arco não tenta negar esses ecos, ele os assume. O interesse do filme não está em reinventar a fábula do “forasteiro mágico”, e sim em reorganizá-la sob outra textura emocional. O diferencial surge na maneira como a narrativa trabalha seus próprios clichês com delicadeza, apoiando-se numa direção de arte que sugere forte influência do Studio Ghibli: cenários amplos, o uso tanto do silêncio quanto da trilha grandiosa, paletas que alternam entre o branco rarefeito e cores densas, e uma atenção quase tátil à luz.
Desde o primeiro plano, percebe-se um rigor cromático que estrutura o discurso do filme. O contraste entre áreas vazias e explosões de cor não é apenas ornamental; ele traduz o conflito central entre isolamento e pertencimento que é recorrente nos personagens. A imagem não ilustra o roteiro, ela o complementa. Planos gerais que expandem o mundo convivem com enquadramentos íntimos que privilegiam silêncios.
Quando o humor entra em cena, especialmente nos três irmãos que evocam uma tradição burlesca próxima aos Três Patetas, o filme encontra respiro sem romper o tom. A galhofa não diminui o drama; ela o humaniza e nos lembra que somos falhos e atrapalhados por natureza. Quando a narrativa assume seu eixo mais sombrio, o antagonismo não se materializa em um vilão caricatural, mas em um sistema, em um contexto que ameaça a missão dos protagonistas.
A construção de mundo, que projeta um futuro simultaneamente distante e reconhecível, reforça esse aspecto. Arco se sustenta mais pelo carisma de seus personagens do que pela inovação de seu roteiro. Mesmo imperfeitos, eles permanecem solidários e empático entre si, não apresentando nenhum personagem antipático em todo o filme. Mikki, o androide de coração expansivo, sintetiza essa proposta: uma figura tecnológica cuja humanidade supera a dos humanos ao redor, e se sacrifica por aquele que deveria ser somente a sua “programação”.

Cena de “Arco”- Divulgação Mubi
No fim, Arco não busca subverter radicalmente a tradição da animação fantástica. Sua ambição é mais sutil. Ao abraçar a simplicidade, encontra beleza em interações mínimas e constrói um espetáculo visual que não depende do excesso. Trata-se menos de inovação estrutural e mais de refinamento sensível. Mais do que reinventar a roda, Arco lembra que, às vezes, basta girá-la com cuidado e alma, que o resultado vêm de modo gritante e extremamente colorido.
Vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival de Annecy e indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar, o longa chega aos cinemas brasileiros em 26 de fevereiro com distribuição da Mubi e Mares Filmes.
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