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Crítica ‘Argentina, 1985’ | Um filme essencial

Por Livia Brazil
Última Atualização 21 de fevereiro de 2023
7 Min Leitura
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Dia 12 de outubro de 2022. O Cine Odeon estava lotado, os dois andares. Era exibição única do filme Argentina, 1985 no Festival do Rio. Antes de começar, Peter Lanzani e Alejandra Flechner, atores do longa, disseram algumas palavras para a plateia presente. Eles deram uma ideia do que todos veriam a seguir. Foram aplaudidos. As luzes se apagaram. Com um título como esse e com o prelúdio dos atores, as pessoas sabiam o que esperar do filme. Mas, mesmo assim, não puderam deixar de ser arrebatadas por ele.

Já quase no final, após uma fala de Julio Strassera, personagem real interpretado por Ricardo Darín, os aplausos e gritos começaram. Cessaram por um período para poderem ver as últimas cenas, mas voltaram, com ainda mais força, ao fim do longa. Foi ovacionado pelo público presente. Não tinha uma pessoa ali que não estivesse emocionada pela força contida na produção. Muitos olhos e faces molhados (inclusive os da jornalista aqui). Ouso dizer que quem não se sentiu tocado por Argentina, 1985 o assistiu de forma errada.

História real

Em 1985, terminou o julgamento iniciado em 1983 que declarou culpados 5 dos 9 acusados pelos crimes da Ditadura na Argentina. Conhecido como “Juicio a las Juntas”, esse julgamento tornou-se histórico e muito importante por condenar militares que torturaram e mataram milhares de pessoas. O julgamento foi encabeçado pelo advogado Julio Strassera, tendo Luis Moreno Ocampo como promotor assistente.

O filme foca no promotor Strassera sendo convocado para tal julgamento e em todos seus esforços em montar uma equipe para juntar informações, a fim de ter provas suficientes para a acusação. Como a democracia havia sido recuperada há pouco tempo, em 1982, o medo ainda imperava na sociedade argentina. Os militares ainda tinham força. E as pessoas ainda sofriam com tudo o que tinha acontecido. Por conta disso, a equipe reunida por Strassera foi toda de pessoas jovens, que tinham gana para ir atrás das informações e recolher depoimentos de pessoas que sofreram torturas e perderam pessoas.

Forte e importante

Não á fácil ver e ouvir os depoimentos na tela, claro. Ainda mais sabendo que tudo realmente aconteceu. Mas é importante para novas gerações, que não viveram o terror da Ditadura e a veem somente como uma parte da História, como algo longe delas, entenderem a dura realidade do que aconteceu.

Como disse Peter Lanzani, intérprete de Ocampo, em entrevista coletiva dada antes da sessão do filme, “Esse filme ajuda a não esquecer o passado. Não somente a Argentina, mas é para o mundo. Ajuda pela memória. Ajuda porque ensina, porque, de uma maneira ou outra, demonstra o que está mal, o sucesso da violência”.

Indicação ao Oscar

O filme é a grande aposta de indicação ao Oscar da Argentina. Além de ter uma temática muito relevante, é, também, uma grande produção. Dirigida por Santiago Mitre e roteirizada por ele e Mariano Llinás, seu colaborador de longa data, fez parte da Competição Oficial da 79ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza. Ganhou na categoria Competição nos prêmios paralelos à competição, concedido pela Federação Internacional de Críticos de Cinema. Não será surpresa se for escolhido para ser um dos indicados ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar. Até porque o tema é tratado de forma muito natural e respeitosa, sem fazer sensacionalismos.

Seria interessante, também, ver Ricardo Darín indicado ao prêmio de melhor ator, pois, mais uma vez, cumpre brilhantemente seu papel. Peter Lanzani e Alejandra Flechner, como Silvia, a esposa de Strassera, também estão ótimos. Veio dela, aliás, uma das falas mais importantes da passagem dos atores pelo Brasil: “Com certeza um filme que fala de memória, verdade e justiça, é um filme que traz uma mensagem importante. Quem dera os filmes pudessem mudar o mundo. Seria lindo. Mas, sim, nos faz perguntar como não cometer novamente os erros do passado.”

Outros aspectos

O filme manteve-se fiel a todos aspectos dos anos 80. Do figurino aos enquadramentos, o espectador se sente realmente em 1985. A excelência da fotografia e da iluminação se fazem mais presentes nas cenas onde há relatos sobre as torturas, seja na Corte os nas salinhas de depoimentos para a equipe de Strassera. A iluminação mais fria leva quem está assistindo a sentir-se tão desconfortável quanto quem está recebendo os depoimentos. Porque é impossível sentir-se tão desconfortável quanto quem foi torturado. Quando Almudena González, intérprete de Judith, chora, sob a luz azulada, após a leitura de um depoimento, é impossível não chorar junto.

Apesar do tema sensível, o filme não foge, talvez para equilibrar um pouco, de algumas cenas de humor. Elas não parecem estranhas no contexto geral e cumprem perfeitamente seu papel, fazendo rir de verdade e permitindo que, quem assiste, possa dar um respiro entre tanto terror. E, finalmente, é preciso falar de Santiago Armas Estevarena, intérprete de Javier. O jovem já demonstra uma ótima atuação como o filho curioso e politizado de Strassera. Se continuar na profissão, em breve ouviremos falar mais dele, porque o menino promete!

Argentina, 1985 está disponível na Amazon Prime Video desde o dia 21 de outubro. Por fim, fique com o trailer do filme.

Ademais, veja mais:

Argentina, 1985 | ‘A mensagem é de respeito, memória, justiça’, diz Lanzani

Crítica | Bem-vinda, Violeta

Crítica | Mais do que uma biografia, ‘Otto: de trás p/ diante’ fala de amor por Literatura

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PorLivia Brazil
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Escritora, autora dos livros Queria tanto, Coisas não ditas e O semitom das coisas, amante de cinema e de gatos (cachorros também, e também ratos, e todos os animais, na verdade), viciada em café.
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