Dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, Ato Noturno se destaca por tentar construir uma narrativa política sem abandonar a exploração da sexualidade.
No dia seguinte à vitória de O Agente Secreto (2025, Kleber Mendonça Filho) em dois Globos de Ouro, incluindo o de melhor filme internacional, torna-se ainda mais relevante ressaltar a diversidade temática do cinema brasileiro contemporâneo. A produção nacional transita de animações infantis como Tainá e os Guardiões da Amazônia – Em Busca da Flecha Azul (2025, Alê Camargo e Jordan Nugem), à dramas políticos densos como o filme de Mendonça, sem deixar de lado gêneros como a comédia, o suspense e até o erotismo. Mesmo quando tropeçam, essas obras ainda cumprem uma das funções primordiais do cinema: o entretenimento aliado à provocação.
Com inspirações evidentes em clássicos do suspense da segunda metade do século XX, passando por Alfred Hitchcock e chegando a Instinto Selvagem (1992, Paul Verhoeven), Ato Noturno acompanha Matias, Gabriel Faryas, um ator iniciante que sonha com seu primeiro grande papel. Em meio a conflitos com Fabio, Henrique Barrera, seu colega de apartamento, Matias inicia um relacionamento com Rafael, Cirillo Luna, um político que constrói cuidadosamente sua imagem pública, mergulhando em um universo de erotismo e fetiches enquanto tentam conciliar desejo, ambição e exposição.

Henrique Barreira e Gabriel Faryas em cena de “Ato Noturno”- Divulgação Vitrine Filmes
Ato Noturno estabelece um paradoxo claro para seus protagonistas: ambos ocupam posições públicas de destaque. Matias como protagonista de uma grande produção audiovisual, enquanto Rafael é candidato a vereador em Porto Alegre, cidade marcada por um conservadorismo histórico. Em contrapartida, seus desejos privados, especialmente o dogging, fetiche que envolve sexo em locais públicos e sob risco constante de flagrante, ampliam exponencialmente o perigo que ronda suas trajetórias. O prazer surge, assim, diretamente ligado à possibilidade da ruína.
À medida que o público acompanha essa jornada, é colocado deliberadamente na posição de voyeur. As cenas de sexo são filmadas com extrema proximidade, privilegiando planos fechados e uma intensa química entre os atores. No entanto, essa força não se sustenta ao longo de toda a narrativa. Grandes trechos do segundo ato carecem de tensão dramática, resultando em um marasmo que dilui o impacto da proposta. Apenas no clímax, quando o filme finalmente abraça de forma mais direta o risco político e social de seus personagens, a narrativa recupera parte da intensidade prometida.
Na articulação entre teatro, política e intimidade, Ato Noturno revela qualidades formais inegáveis. A fotografia se destaca especialmente no jogo de claro e escuro, refletindo a dualidade entre o que é mostrado e o que deve permanecer oculto. Ao mesmo tempo que transita por diferentes formas de relação, do erotismo proibido às amizades mediadas por interesse e conveniência, com uma estrutura aparentemente sólida.
Apesar de seu valor, Ato Noturno se perde principalmente em sua indefinição de foco. Ao tentar abordar muitas questões simultaneamente, a obra raramente aprofunda qualquer uma delas de maneira satisfatória, levando a uma perda de potencial grande demais para ser relevada, e que nem a forte estética da produção consegue fazer com que esqueçamos isso.

Henrique Barreira e Gabriel Faryas em cena de “Ato Noturno”- Divulgação Vitrine Filmes
Esteticamente, há uma harmonia consistente entre direção de arte, figurino e fotografia. A saturação das cores cria uma atmosfera quase onírica, reforçando o sentimento de voyeurismo imposto ao espectador. Contudo, apesar das cenas de sexo intensas, o filme hesita em levar suas próprias provocações às últimas consequências.
Ao final, Ato Noturno é covarde em não radicalizar sua proposta, tendo o potencial de transformar o amor proibido entre dois homens gays, ambos com tudo a perder, em algo verdadeiramente inesquecível. Dentro de um cinema brasileiro em constante crescimento e valorização internacional, cada vez mais é necessário perder o medo de seu público e apostar plenamente na arte como risco, podendo levar a novos patamares que poderiam ter sido alcançados pela produção, caso tivesse ousado um pouquinho mais.
Distribuído pela Vitrine Filmes, Ato Noturno estreia nos cinemas no dia 15 de janeiro.
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