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Cidade de Deus: A Luta Não Para cresce em ambição e prepara terreno para uma temporada ainda mais intensa

Exibido no Festival do Rio, o episódio de estreia amplia as disputas políticas e territoriais e prepara uma nova etapa para a série da HBO.

Por Alvaro Tallarico
Última Atualização 9 de outubro de 2026
10 Min Leitura
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A guerra pelo território continua, mas o tabuleiro ficou maior. O primeiro episódio da segunda temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para mostra que a série da HBO tem espaço para avançar além da sombra do filme de 2002. A nova fase amplia os conflitos e aproxima ainda mais a violência cotidiana dos interesses políticos e econômicos que se alimentam dela.

Exibido em primeira mão no Festival do Rio, em 9 de outubro, no Cine Odeon, o episódio de estreia funciona como uma porta de entrada para esse novo momento. A história retoma personagens conhecidos, apresenta uma configuração diferente de poder na comunidade e prepara o terreno para disputas que não se resolvem apenas com armas.

A produção mantém a tensão que caracteriza esse universo, mas aponta para uma dimensão mais ampla. O poder não está concentrado somente nas mãos de quem controla o território. Ele também circula pelas instituições, pelas relações políticas e pelos interesses que transformam a insegurança em instrumento de domínio.

Essa ampliação é um dos caminhos mais interessantes para a série. Em vez de depender exclusivamente da memória afetiva do público em relação ao longa de Fernando Meirelles e Kátia Lund, a produção procura desenvolver uma narrativa própria, conectada às contradições brasileiras.

A primeira temporada abriu caminho para novas histórias

Lançada em 2024, a primeira temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para enfrentou um desafio considerável. Dar continuidade a um filme tão marcante exige encontrar uma identidade própria sem ignorar o legado que tornou aquele universo conhecido internacionalmente.

A série escolheu avançar aproximadamente duas décadas na história. Alexandre Rodrigues voltou a interpretar Buscapé, agora fotógrafo, cuja perspectiva ajuda a acompanhar as transformações da comunidade. A libertação de Bradock, vivido por Thiago Martins, desencadeou uma disputa pelo controle do território, colocando os moradores entre traficantes, milicianos e agentes públicos.

O formato seriado ofereceu espaço para desenvolver personagens e conflitos que não caberiam com a mesma profundidade em um único filme. Berenice, interpretada por Roberta Rodrigues, e Jerusa, vivida por Andréia Horta, ganharam relevância ao longo da narrativa. Suas trajetórias ajudaram a ampliar o olhar sobre as diferentes formas de enfrentar a violência e buscar algum controle sobre o próprio destino.

A primeira temporada também encontrou força ao relacionar os conflitos da comunidade aos interesses de quem ocupa posições de poder fora dela. A corrupção e as conexões entre agentes públicos e grupos criminosos mostraram que a violência não pode ser compreendida apenas como um problema restrito às favelas.

O primeiro ano teve momentos de ritmo irregular, especialmente quando a trama dividiu sua atenção entre diferentes núcleos. Ainda assim, a ampliação das histórias e o desenvolvimento dos personagens apontaram caminhos promissores. A série começou a demonstrar que poderia sustentar sua existência para além da referência ao filme original.

É justamente essa possibilidade que torna a chegada da segunda temporada relevante.

Novo episódio amplia o jogo de poder

A nova fase começa após a morte de Curió e apresenta uma comunidade diante de outra reorganização de forças. A disputa territorial continua importante, mas a narrativa promete aprofundar as conexões entre crime, política, milícia, polícia e segurança privada. A cultura também ganha espaço como instrumento de resistência e articulação entre os moradores.

O episódio de estreia estabelece as bases desse cenário e prepara o público para uma temporada em que as consequências das decisões individuais podem alcançar muito mais gente. O conflito deixa de ser apenas uma disputa entre personagens que querem controlar a região. Passa a envolver estruturas capazes de influenciar a vida de toda a comunidade.

Esse movimento favorece a série porque amplia o significado de suas disputas. A violência não surge isolada das condições sociais, dos interesses econômicos ou das relações institucionais. Ela integra uma rede de poder que se reorganiza conforme os personagens encontram novas oportunidades e enfrentam ameaças.

A série também preserva um elemento essencial de sua identidade: a comunidade não se resume ao cenário da ação. Os moradores têm interesses, afetos, projetos e maneiras diferentes de reagir à realidade que os cerca. A cultura, especialmente o funk e os bailes, aparece como uma possibilidade de encontro e resistência em meio aos conflitos.

Esse olhar ajuda a equilibrar a narrativa. Em uma história marcada por confrontos e disputas, é importante que a vida cotidiana não desapareça atrás da violência. A comunidade precisa continuar existindo como espaço de relações humanas, e não apenas como território a ser conquistado.

A série encontra força quando olha além do crime

Um dos méritos de Cidade de Deus: A Luta Não Para está em reconhecer que a violência não explica sozinha a realidade que apresenta. A disputa pelo território é apenas uma parte de uma estrutura mais complexa, na qual diferentes agentes tentam controlar recursos, decisões e pessoas.

A segunda temporada tem a oportunidade de aprofundar essa abordagem. Ao ampliar o tabuleiro, a série pode explorar com mais clareza as relações entre os grupos criminosos e as estruturas que permitem sua permanência. Essa perspectiva evita que o drama fique restrito à sucessão de confrontos e oferece mais densidade às trajetórias dos personagens.

A presença de nomes que ajudaram a construir a memória do filme também estabelece uma ligação entre diferentes momentos dessa história. O retorno de Matheus Nachtergaele como Cenoura, por exemplo, recupera uma figura conhecida do longa de 2002 e a coloca diante de uma nova configuração de poder.

Mas a força da continuação depende justamente de não viver apenas dessa memória. O passado oferece referências importantes, enquanto o presente da série precisa justificar seus próprios conflitos e personagens.

O primeiro episódio da nova temporada aponta nessa direção. Seu papel não é resolver todas as disputas imediatamente, mas estabelecer as condições para que elas se desenvolvam. Ao preparar uma narrativa mais conectada aos mecanismos de poder que atravessam a comunidade, a produção cria expectativas para os capítulos seguintes.

Um retorno que desperta interesse pelo restante da temporada

A sessão especial no Festival do Rio marcou a oportunidade de acompanhar esse novo capítulo antes da estreia oficial. A escolha do Cine Odeon para a exibição também colocou a série em contato com o público de um dos principais eventos do calendário audiovisual brasileiro.

Produzida pela O2 Filmes, a segunda temporada tem direção geral de Aly Muritiba. Bruno Costa dirige os episódios, com Thatiane Almeida na codireção. A sala de roteiro é liderada por Maíra Oliveira e Paulo Lins, com supervisão de Patrícia Andrade.

A nova fase tem seis episódios e estreia em 8 de novembro de 2026, na HBO e na HBO Max.

O saldo inicial é positivo. A série preserva a identidade construída no primeiro ano e amplia as possibilidades de sua narrativa. O conflito territorial continua no centro da história, mas a aproximação com a política, a corrupção e as formas de resistência cultural oferece novas camadas ao universo apresentado em 2002.

Mais do que recuperar personagens conhecidos, Cidade de Deus: A Luta Não Para procura entender como as disputas de poder se transformam e continuam afetando a vida dos moradores. O episódio de estreia prepara esse caminho e deixa uma questão importante para a temporada: quem realmente controla o território quando os interesses em jogo ultrapassam os limites da comunidade?

É uma perspectiva que mantém o interesse pela série e reforça seu potencial para desenvolver uma história própria. A segunda temporada começa com ambição e abre espaço para que esse universo continue crescendo.

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Jornalista especializado em Jornalismo Cultural pela UERJ com experiência em Jornalismo Esportivo. Autor dos livros "O que é Arte? Com a palavra, o artista", "A Paulistana de Ganesha", e outros.

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