Dirigido por Michael Vaynberg, Coração Partido estrutura comédia romântica russa dentro de atmosfera de novela mexicana.
Dentro de praticamente todo gênero cinematográfico existem algumas vertentes recorrentes: aquela que leva suas convenções a sério e busca construir algo com profundidade, simbolismos e alguma novidade; aquela que simplesmente copia o que já deu certo, alterando uma coisa ou outra; e, por fim, aquela que pega tudo o que já foi feito e exagera à décima potência, abraçando seus próprios clichês. Os resultados podem variar bastante, e Coração Partido pertence definitivamente ao último grupo.
Baseada no romance jovem de Anna Jane, a produção adapta duas famosas mecânicas adoradas pelos amantes do gênero: enemies to lovers e fake dating. Ao mesmo tempo, não deixa de lado discussões mais pesadas, como o abuso sofrido por Polina dentro de casa e o bullying enfrentado pela protagonista. O problema é que nenhuma dessas questões é realmente aprofundada, funcionando muito mais como elementos dramáticos de uma história adolescente do que como conflitos desenvolvidos de fato.
Com uma paleta de cores extremamente plástica e, em certos momentos, quase onírica, incluindo finais de tarde completamente alaranjados que envolvem seus personagens, a produção deve ser compreendida principalmente como entretenimento barato e divertido para uma noite entre amigos. É aquele filme para quem pretende assistir a algo leve e não se incomoda em comentar e rir em voz alta dos absurdos que acontecem na tela.

Veronika Zhuravleva em cena de “Coração Partido”- Divulgação Paris Filmes
Afinal, no atual momento cinematográfico, muitas das convenções utilizadas por Coração Partido já se tornaram bregas, exageradas e praticamente um pastiche de si mesmas. Curiosamente, o filme parece ter plena consciência disso, sensação que se torna ainda mais evidente quando assistimos à versão dublada da produção russa.
Graças à dublagem disponibilizada pela distribuição da Paris Filmes, as atuações exageradas e as trocas de diálogos absurdas são ampliadas em todos os sentidos, criando momentos com enorme potencial para se eternizarem como memes. Em determinados instantes, cheguei até mesmo a me lembrar das piadas de um gibi da Turma da Mônica, como na maravilhosa troca: “meninas não enchem o bucho”, imediatamente respondida pelo namorado com: “então você janta e eu encho o bucho”.
E o romance em si?
A relação entre Polina e Bars segue uma premissa extremamente direta e simples, colocando frente a frente suas respectivas personas: a menina loira e aparentemente inocente e o misterioso bad boy. Não compreendemos exatamente em que momento esse amor surgiu ou por que ele se tornou tão intenso, mas simplesmente aceitamos que ele existe. Dependendo do gosto pessoal da audiência, é possível até ansiar por viver algo parecido, por mais problemática que seja a relação dos dois. Ainda assim, são justamente as rápidas e absurdas trocas entre eles que tornam Coração Partido mais memorável.
Dentro desse universo, também acompanhamos o romance de Dilara, que pouco acrescenta à narrativa como um todo. Sua presença parece existir principalmente para demonstrar que há outras formas de relacionamento para além da problemática dinâmica entre Polina e Bars, mas o arco nunca se torna forte o suficiente para ganhar relevância própria.

Veronika Zhuravleva em cena de “Coração Partido”- Divulgação Paris Filmes
Se a narrativa não é exatamente o ponto forte, o que sobra é a atmosfera estética.
Utilizando, em alguns momentos, vídeos gravados pelos celulares dos próprios protagonistas, recurso praticamente obrigatório para uma história protagonizada pela geração Z, e uma direção de arte que constrói quartos e ambientes simples, mas capazes de transmitir a personalidade de seus personagens sem tomar completamente o destaque, o longa carrega uma leveza que denuncia constantemente sua origem na literatura jovem.
E, se profundidade nunca parece ter sido exatamente a intenção da produção, não adianta procurá-la em Coração Partido. Resta aceitar que estamos diante de um filme feito para um público bastante específico e que não pretende competir, narrativa ou esteticamente, com as grandes produções norte-americanas do gênero. O melhor é relaxar e desfrutar suas mais de duas horas, ainda que elas pudessem facilmente ter sido condensadas.
Esse excesso de duração se torna ainda mais evidente porque o romance, que deveria funcionar como premissa central, frequentemente parece ser apenas um entre os inúmeros conflitos que o roteiro pretende abordar: o relacionamento tóxico da mãe de Polina, o pai mafioso de Bars, o bullying sofrido gratuitamente pela protagonista e diversas outras subtramas que disputam espaço sem receber desenvolvimento suficiente.
Com uma sequência já anunciada, fica evidente que ainda existe bastante história para contar. O problema é que Coração Partido parece tão preocupado em preparar e apresentar diferentes conflitos que esquece justamente de fortalecer aquilo que deveria sustentar suas mais de duas horas: o próprio romance.
No fim, Coração Partido não reinventa absolutamente nada dentro da comédia romântica adolescente, e talvez nem queira. Sua maior diversão está justamente em transformar clichês, diálogos improváveis, romances problemáticos e exageros melodramáticos em um grande novelão juvenil russo. É brega, absurdo e previsível, mas existe certo charme justamente na consciência de ser tudo isso ao mesmo tempo.
Distribuído pela Paris Filmes, Coração Partido chega aos cinemas no dia 20 de agosto.
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