Dirigido por Gabriela Luíza e Tiago Mata Machado, Deuses da Peste é um retrato experimental de um difícil período nacional
Entre 2018 e 2022, durante a presidência de Jair Bolsonaro, o Brasil atravessou um período político e social turbulento. O avanço da extrema direita, decisões como a extinção do Ministério da Cultura e pronunciamentos oficiais marcados por hostilidade fizeram com que muitos brasileiros vivessem sob medo constante, precisando lutar diariamente pelo direito de existir, até mesmo dentro de suas próprias casas. Nesse cenário, a arte, especialmente as artes cênicas, tornou-se uma das maiores formas de resistência.
Em 2022, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, a incerteza sobre a continuidade do “governo de terror” intensificava o sentimento de angústia coletiva. Foi nesse contexto que surgiu Deuses da Peste, vencedor do Prêmio Carlos Reichenbach na 28ª edição do Festival de Cinema de Tiradentes, produção gravada justamente entre o primeiro e o segundo turno, sem qualquer apoio estatal, o filme assume a forma de um grito de socorro, uma homenagem à resistência do teatro e dos artistas que se viram acuados.

Cena de Deuses da Peste- Divulgação Oficial
De caráter experimental e de difícil categorização narrativa, a obra transmite com intensidade a dor e o medo daquele momento, construindo uma atmosfera sufocante e reforçada por cenas oníricas, agonizantes e marcadas pela presença recorrente da cor vermelha, além de referências diretas ao período da Inquisição Europeia, que acentuam o tom de agonia e desespero.
Embora seja um filme voltado para um público específico, Deuses da Peste se insere como um filho do cinema marginal, inclusive pela participação especial de Helena Ignez e pelas referências diretas a Glauber Rocha, em especial a Terra em Transe (1967). Tal como Glauber, os diretores colocam o espectador em posição de ataque, quase como se ele fosse responsável pelo medo e pela perseguição vividos pelos artistas, a questão porém, é a nítida egotrip que é percebida no filme, na medida que ambos os diretores sentirem que estão construindo uma arte transgressora e eterna, quando na verdade ela só cansa o espectador.
Com duas horas e dez minutos de duração, tempo que poderia ser facilmente reduzido sem comprometer o efeito de desconforto, o longa estrutura-se em três partes: A Tempestade, A Peste Branca e O Capital. Essas divisões evocam um épico particular, ao mesmo tempo em que abordam questões como o eurocentrismo brasileiro e o sentimento de não pertencimento nacional, com momentos de ironia, como no debate sobre Portugal, mas que acabam diluídos pela estética hermética da obra e pelo objetivo da equipe de expurgar seus demônios que foram tão presentes durante o regime de Bolsonaro.

Cena de Deuses da Peste- Divulgação Oficial
A presença de cartas de tarô, como menção à Inquisição Espanhola, reforça a sensação de perseguição. Ainda assim, o filme corre o risco de soar mais como um exorcismo pessoal dos diretores Gabriela Luíza e Tiago Mata Machado do que como um retrato coletivo, tornando-se exaustivo e excessivamente autocentrado. Essa característica pode afastar o público, que dificilmente consegue acompanhar a intensidade da obra, e facilmente se desliga a partir de uma estrutura nem um pouco pensada para a audiência padrão.
Deuses da Peste é simultaneamente um retrato necessário da resistência artística e um registro de um trauma político específico, mas que tende a se datar com o tempo. Daqui a vinte anos, talvez seja visto apenas como a materialização de um medo pessoal, um sentimento de “olhe as dificuldades que eu, artista, passo cotidianamente”, que com o tempo, é superado, mas que, à época em que a produção foi idealizada, representava a urgência de artistas em se expressar diante de um governo que os atacava sistematicamente.
Distribuído pela Zeta Filmes, Deuses da Peste estreia nos cinemas nacionais no dia 11.
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