Dirigido por Allan Deberton, Feito Pipa aposta na ternura e no conforto para cativar o público, mas será o suficiente para conquistar uma vaga no Oscar?
Existe uma brincadeira conhecida na internet chamada “Teoria Saneamento Básico”. Como o longa-metragem de Jorge Furtado reuniu grandes nomes do cinema nacional em seu elenco, surgiu uma espécie de mito de que o filme dá sorte no Oscar. Afinal, Fernanda Torres foi indicada por Ainda Estou Aqui (2024, Walter Salles), Wagner Moura por O Agente Secreto (2025, Kleber Mendonça Filho) e, desta vez, o representante brasileiro na disputa conta com Lázaro Ramos.
Diferentemente dos trabalhos de Salles e Kleber, Feito Pipa não aborda a ditadura militar nem apresenta uma narrativa de dimensões tão universais ou complexas. Em vez disso, opta por uma história íntima, agradável e aparentemente pequena demais para conquistar uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027.
Embora seja uma produção extremamente acolhedora, capaz de deixar aquele conhecido quentinho no coração, o longa permanece em uma espécie de zona de conforto, sem grandes rupturas dramáticas ou transformações capazes de alterar significativamente o direcionamento da narrativa. Tudo é construído a partir de acontecimentos diminutos, que privilegiam a delicadeza em detrimento do confronto.
Yuri Gomes é um verdadeiro estouro como Gugu, um jovem homossexual que vive com a avó, Dilma. Quando os primeiros sinais do Alzheimer começam a comprometer sua memória, o garoto tenta esconder a condição da avó para evitar que seja obrigado a morar com o pai homofóbico, interpretado por Lázaro Ramos.

Lázaro Ramos e Yuri Gomes em cena de “Feito Pipa”- Divulgação Paris Filmes
A produção constantemente direciona seus personagens para a ternura e o afeto. Mesmo diante dos momentos mais explícitos de violência, existe uma preocupação em preservar o acolhimento e a possibilidade de reconciliação. Entretanto, quando poderia desenvolver confrontos mais contundentes, seja entre Gugu e os valentões do colégio ou em sua relação com o próprio pai, Feito Pipa recua, preferindo contornar os conflitos em vez de explorá-los até suas últimas consequências.
Até mesmo a doença de Dilma nunca é nomeada diretamente. Sua progressiva degradação é apresentada de maneira indireta e silenciosa, distanciando-se de abordagens mais explícitas, como a de Para Sempre Alice (2014, Richard Glatzer e Wash Westmoreland). Aqui, o mais importante não é necessariamente compreender a dimensão clínica da doença, mas acompanhar a perspectiva de Gugu diante da possibilidade de perder um dos poucos pilares afetivos que possui.
Quando Dilma já está profundamente afetada e deixa de reconhecer o próprio neto, embora ainda consiga elogiá-lo como um bom garoto, a sequência encontra uma força emocional genuína. É justamente nesses pequenos gestos que o filme demonstra sua maior capacidade de sensibilização.
O sertão cearense também desempenha um papel fundamental nessa construção. A paisagem proporciona uma imersão em um universo aparentemente isolado, árido e sem muitas possibilidades de fuga, mas que, contraditoriamente, também encontra espaço para a esperança e a ternura. A fotografia valoriza esse ambiente, transformando o cenário em parte essencial da experiência dos personagens.

Yuri Gomes e Teca Pereira em cena de “Feito Pipa”- Divulgação Paris Filmes
Feito Pipa está longe de ser um filme ruim. Pelo contrário, apresenta uma identidade visual própria, uma história envolvente e um elenco poderoso. Entretanto, sua dimensão dramática parece pequena demais, e sua abordagem excessivamente particular talvez não consiga alcançar a força necessária para se destacar na disputa internacional.
Choramos e rimos com Gugu, acompanhamos sua busca por liberdade e encontramos pequenos momentos de felicidade na relação entre Dilma e Valmir. Da mesma forma, sentimos uma pontada no coração quando ela deixa de reconhecê-lo por conta da doença.
Feito Pipa avança por meio da contemplação, dos silêncios e de simbolismos, como nas conversas em inglês entre Gugu e Dilma, cuja importância está diretamente relacionada ao passado da avó e à sua própria história. São elementos que enriquecem a construção dos personagens, ainda que nem sempre encontrem um desenvolvimento narrativo à altura de suas possibilidades.
É justamente nessa escolha estética que reside a maior qualidade e, simultaneamente, a principal limitação de Feito Pipa. Os pequenos acontecimentos ganham proporções maiores por meio do silêncio, da fotografia e das interpretações, mas essa mesma contemplação acaba tornando a experiência repetitiva em determinados momentos.
O longa avança de sequência em sequência, sustentado pela sensibilidade de seu elenco e pela beleza de suas imagens, mas raramente encontra algo verdadeiramente surpreendente para acrescentar à própria narrativa. Existe competência, existe emoção e existe uma identidade cinematográfica, mas falta um elemento capaz de transformar essa delicadeza em algo memorável.
Distribuído pela Paris Filmes, Feito Pipa conquistou diversos reconhecimentos nacionais e internacionais. Entre eles estão o Prêmio do Público do Festival de Gramado, o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus, no Festival de Berlim, além do Prêmio do Público da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Todas esta conquistas demonstram a capacidade de comunicação da obra com diferentes públicos. Entretanto, conquistar espectadores e prêmios em festivais não significa necessariamente possuir força suficiente para chegar à principal premiação da indústria cinematográfica. Feito Pipa tem coração, sensibilidade e boas intenções, mas talvez necesitasse de um pouco mais de ousadia para realmente levantar a estatueta.
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