Dirigido por Mario Martone, Fuori perde força à medida que sua narrativa abandona o foco central para se transformar em uma sucessão de episódios desconectados.
O mundo está repleto de boas narrativas, seja por meio da imaginação ou da própria história do mundo. Quando se escolhe adaptar a vida de uma pessoa real, duas questões se tornam fundamentais: qual recorte dessa trajetória merece ser transformado em um longa-metragem e de que forma ele será abordado.
Em Fuori, a figura escolhida é a escritora italiana Goliarda Sapienza, retratada em um momento decisivo de sua vida: o período posterior ao seu encarceramento por roubo de joias. A produção acompanha não apenas Goliarda (Valeria Golino), mas também diversas mulheres que cruzam seu caminho dentro e fora da prisão.
Prostitutas, revolucionárias, mulheres em crise, cada uma delas possui conflitos e personalidades suficientemente ricos para sustentar uma narrativa própria. No entanto, Martone opta por utilizá-las como peças de um mosaico maior, sem que esse conjunto encontre uma unidade dramática convincente.

Matilda De Angelis, Elodie, Valeria Golino em cena de “Fuori”- Copyright Le pacte
O que inicialmente se apresenta como a história de uma escritora tentando reconstruir sua vida acaba se dispersando em diferentes direções. Questões importantes introduzidas nos primeiros atos, como as dificuldades financeiras de Goliarda e sua busca por estabilidade, desaparecem sem desenvolvimento satisfatório. Em seu lugar, o filme passa a privilegiar momentos isolados que variam entre o leve e o dramático, mas raramente produzem consequências significativas para a jornada da protagonista.
As cenas de Goliarda com suas antigas companheiras de prisão possuem charme e humanidade. O jantar entre as três ex-presidiárias, os encontros casuais pelas ruas e os momentos de confraternização demonstram sensibilidade na observação dessas personagens. Individualmente, muitas dessas sequências funcionam. O problema surge quando elas são reunidas em uma narrativa que parece incapaz de construir um objetivo claro para sua protagonista.
Essa fragmentação não chega a ser um problema por si só. Diversos filmes adotam estruturas episódicas para retratar personagens em momentos de transição. Entretanto, Fuori raramente estabelece conexões entre seus episódios. Em vez de aprofundar os conflitos apresentados ou utilizá-los para impulsionar transformações significativas, o roteiro frequentemente abandona determinadas linhas dramáticas para seguir novos caminhos.
Um exemplo disso é a famosa sequência do banho compartilhado pelas ex-detentas. Visualmente elegante e coerente com a atmosfera de intimidade construída entre as personagens, a cena pouco acrescenta ao desenvolvimento dramático da narrativa. Trata-se de um momento agradável de acompanhar, mas que reforça uma sensação recorrente ao longo de Fuori: a de que a obra privilegia a contemplação de determinados instantes sem necessariamente integrá-los a uma construção maior.

Valeria Golino em cena de “Fuori”-Copyright Le pacte
A fotografia vibrante contribui para essa proposta ao destacar uma Itália ensolarada e acolhedora, quase em contraste com o ambiente opressivo da prisão. Existe uma ideia interessante nesse contraste entre liberdade física e aprisionamentos emocionais que persistem após a libertação. Contudo, Fuori raramente explora essa dimensão com a profundidade necessária para transformá-la em um eixo temático sólido.
É justamente na relação entre Goliarda e Roberta que Fuori encontra seus momentos mais fortes. A dinâmica entre ambas sugere uma relação de dependência emocional que frequentemente assume contornos maternos. O roteiro não apenas apresenta essa conexão como também a discute explicitamente. Quando Roberta desaparece da vida de Goliarda para permitir que ambas sigam caminhos independentes, o filme alcança sua sequência mais poderosa. Há um genuíno sentimento de despedida, encerramento e transformação que, por alguns instantes, revela o potencial dramático que a obra poderia ter explorado com maior consistência.
Por isso, a principal sensação ao final da sessão é a de uma oportunidade parcialmente desperdiçada. Havia diversos caminhos possíveis para essa história: um retrato mais aprofundado da reconstrução criativa de Goliarda, uma estrutura dividida entre diferentes mulheres marcadas pela experiência da prisão ou até mesmo uma abordagem assumidamente episódica, mas organizada em arcos dramáticos mais definidos. Em vez disso, o filme permanece preso entre diferentes propostas sem abraçar completamente nenhuma delas.
O resultado é uma obra composta por momentos interessantes, boas atuações e ideias relevantes, mas que carece de um direcionamento narrativo capaz de transformar essas qualidades em algo verdadeiramente marcante. O que poderia ser um poderoso estudo de personagem ou um retrato coletivo da experiência feminina acaba se tornando um filme que, apesar de seus méritos pontuais, deixa uma persistente sensação de vazio.
Fuori foi o filme de pré-abertura da 8½ Festa do Cinema Italiano. A programação completa pode ser encontrada no site oficial do festival, que ocorre entre os dias 25 de junho e 1º de julho em diversos estados do Brasil.
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