Dirigido por Sepideh Farsi, Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe faz retrato da crise de Gaza por meio de depoimentos diretamente da linha de fogo
Quando se vive em uma bolha, é muito fácil esquecer os horrores inimagináveis que ocorrem ao redor do mundo, sejam crianças morrendo de fome na África, mulheres sendo assassinadas por seus companheiros ou a vida de pessoas que se encontram em zonas de guerra como Gaza, local que sofre abalos diários por conta da guerra entre Israel e Palestina, na qual manter a esperança é necessário, porém cada vez mais difícil, e percebemos isso claramente no documentário Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe.
“Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe é minha resposta, como cineasta, ao massacre contínuo dos palestinos. Um milagre aconteceu quando conheci Fatem Hassona. Ela se tornou meus olhos em Gaza, onde resistiu enquanto documentava a guerra, e eu me tornei o elo entre ela e o mundo, de sua ‘prisão de Gaza’, como ela a chamava. Mantivemos essa linha de vida por quase um ano. Os fragmentos de som e pixels que trocamos se tornaram o filme que você vê. A morte de Fatem, em 16 de abril de 2025, devido a um ataque israelense à sua casa, muda para sempre o significado do filme.” — depoimento de Sepideh Farsi.

Cena de “Guarde o Coração na Palma da Mão”- Divulgação Filmes do Estação
Como explorado acima, a produção de Farsi retrata a vida dos moradores da Faixa de Gaza por meio de conversas gravadas com Fatem, uma jovem que havia acabado de completar 25 anos quando foi morta por soldados israelenses, juntamente com toda a família. O filme, que inicialmente caminhava para mostrar essa jovem realizando seu maior sonho, o de deixar o país, ganhou agora um significado completamente distinto.
Ao longo de quase duas horas de depoimentos, conversas que variam do leve ao filosófico, fotografias e notícias de jornais, Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe cumpre a difícil tarefa de abrir a mente da audiência para uma realidade que, para muitos, só existe distante e na televisão, criando empatia pela jornada de uma jovem mulher isolada naquele território, e, neste sentido, a escolha de Fatem como foco do documentário foi um acerto absoluto.
Desde sua primeira aparição, com um sorriso branco e inocente, inteligência aguçada e pontos de vista que por vezes contradizem os de Farsi, Fatem faz a produção crescer de modo estratosférico, facilitando a empatia desde o início. Acompanhamos, pouco a pouco, seus ideais sendo corroídos pelo peso da guerra e pela presença constante da morte, inclusive por fome. Ao final, o impacto é devastador ao percebermos que estivemos o tempo todo conhecendo, rindo, chorando e nos emocionando com uma espécie de “fantasma”, tragicamente levada cedo demais.

Cena de “Guarde o Coração na Palma da Mão”- Divulgação Filmes do Estação
Com uma aproximação do cinema-verdade, marcada pela participação constante da diretora, que conduz Fatem em seu retrato da vida na Faixa de Gaza, a produção se torna maçante e pesada após certo tempo, não por conta de seu ritmo ou construção, mas por seu tema. Farsi não demonstra receio em expor a realidade terrível vivida pela população local. E, diferente da primeira parte de Yes (2025, Navad Lapid), não há festa alguma: apenas um clima opressivo, amplificado pelas falhas constantes da internet de Fatem, que interrompem frases e causam estranhamento e agonia na audiência.
Ao final, Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe é um documentário forte, potente e necessário, que deve ser visto como forma de honrar a determinação e o sonho não apenas de Fatem, mas de todas as pessoas que desejam deixar essa zona de guerra e não conseguem, pessoas que, acima de tudo, precisam ser ouvidas.
Distribuído pela Filmes do Estação, Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe estreia nos cinemas no dia 27 de novembro.
Siga-nos e confira outras dicas em @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!



