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Jeanne Dielman
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Jeanne Dielman’ continua tão relevante quanto em 1975

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 9 de setembro de 2025
6 Min Leitura
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Delphine Seyrig em cena de Jeanne Dielman
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Dirigido por Chantal Akerman, Jeanne Dielman utiliza o tédio como uma forma de ocasionar tensão em um espectador que de uma hora para outra, é pego desprevenido

Mesmo após 50 anos, Jeanne Dielman, ou no original: Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles, continua sendo um marco incontornável na história do cinema. Ao transformar o tédio e a monotonia em instrumento narrativo, a obra tensiona o espectador até o limite, levando a audiência a prestar atenção em cada pequeno detalhe que está presente na tela. O que em um primeiro momento parece repetição banal, revela-se gradualmente como prenúncio de um desajuste profundo, instaurando uma inquietação que cresce em silêncio até se converter em um clímax que não apresenta mais retorno.

Eleito em 2022 pela revista Sight and Sound como o melhor filme de todos os tempos, o longa de Akerman demonstra uma potência única ao expandir as possibilidades da linguagem cinematográfica. Em suas quase três horas e meia, a diretora rejeita os mecanismos tradicionais de “entretenimento”, e desafia frontalmente a expectativa do público, oferecendo um cinema que é antes de tudo uma experiência sensorial e política.

Jeanne Dielman

Delphine Seyrig em cena de Jeanne Dielman

Acompanhamos três dias da vida de Jeanne Dielman, viúva e mãe, interpretada magistralmente por Delphine Seyrig. Entre preparar o jantar, costurar um botão e receber clientes em casa como prostituta, Jeanne se move em uma rotina repetitiva, filmada em planos longos e estáticos que ampliam a sensação de aprisionamento e monotonia. Após um estado de choque, começamos a perceber pequenas fissuras nesta vida tão orquestrada: batatas cozidas demais, gestos repetidos sem propósito, idas e vindas sem objetivo, coisas banais, mas que começam a nos assustar cada vez mais. Esses desvios mínimos são captados pela mise-en-scène com a força de um grito, revelando um mundo interno prestes a colapsar, como se a todo momento fosse acontecer algo grandioso.

O impacto feminista de Jeanne Dielman não está apenas em sua protagonista, mas no gesto radical de Akerman: filmar a vida de uma “mulher comum”, com a mesma gravidade que o cinema tradicionalmente reservava à grandes heróis masculinos. Aos 25 anos, a diretora subverteu a lógica de representação feminina, recusando tanto a figura da vítima passiva quanto a da mulher hipersexualizada, sendo simbolizado por meio da reação de Jeanne perante a camisola pink que recebe de presente.

Jeanne é muito mais do que um mero símbolo, ela representa o corpo e cotidiano de diversas mulheres, sua dor emerge da opressão invisível de um mundo patriarcal e capitalista que a reduz a funções utilitárias, por mais que ela deseje gritar e acabar com tudo, sua posição a mantém presa, até se tornar grande demais para não ser solta, levando a uma das catarses mais satisfatórias do cinema.

Jeanne Dielman

Jan Decorte e Delphine Seyrig em cena de Jeanne Dielman

A linguagem de Akerman reforça esse gesto político. A ausência de closes mantém distância e transforma o espectador em observador da rotina, negando qualquer conforto dramático para uma audiência ansiosa. A ausência de trilha não diegética nos deixa expostos ao silêncio e aos ruídos hiper sensoriais da casa, obrigando-nos a compartilhar a repetição, o peso do tempo e a alienação da protagonista, na medida que os ruídos gritam cada vez mais. O cinema aqui se aproxima do real, mas não como mera reprodução, mas como uma reconstrução estética que denuncia, pela insistência, a violência estrutural do cotidiano doméstico.

O legado de Jeanne Dielman ecoa amplamente. Sua recusa em se curvar às convenções narrativas, e seu olhar profundamente humano de uma mulher tão complexa, abriram espaço para novas gerações de cineastas explorarem intimidade, rotina e opressão sob perspectivas igualmente políticas e sensíveis, de Céline Sciamma à Greta Gerwig, entre tantas outras vozes marcantes da atualidade.

Mais do que um filme, Jeanne Dielman é um gesto de resistência estética e feminista, uma obra que não apenas representa uma mulher, mas reconfigura a forma como o cinema pode olhar para elas, e que continua vivo e significante até os dias de hoje.

Com distribuição da FILMICCA, Jeanne Dielman, de Chantal Akerman, estreia em 11 de setembro nos cinemas nacionais, em versão restaurada.

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Tags:BélgicaCinemade Chantal AkermanDelphine SeyrigfilmiccaFrancêsJeanne DielmanMaternidadeSight & Sound
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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.
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