Dirigido por Mamoru Hosoda, Mirai viaja dentro de um inusitado universo lúdico
Quando meu irmão nasceu, eu tinha um ano e meio de idade. Segundo a fábula familiar contada por minha mãe, entrei no quarto do hospital para visitá-los, recusei-me a me aproximar e fiquei olhando feio para aquele pequeno ser que estava ganhando toda a atenção que antes era minha. Este é um processo natural para muitos irmãos mais velhos, afinal, perceber que precisamos dividir o amor daqueles que nos cercam é uma consciência que assombra a todos nós. Poucos filmes conseguem transmitir essa sensação com tanta honestidade quanto Mirai.
A história gira em torno de Kun, um menino com uma infância feliz que se desestabiliza com a chegada de Mirai, sua irmã mais nova. Tomado pelo ciúme, Kun se retrai pouco a pouco. Em meio à raiva e ao isolamento, ele embarca em um mundo fantástico onde passado e futuro se misturam. Ao conhecer sua irmã no futuro, seu bisavô na juventude e até sua mãe quando criança, Kun passa a compreender o verdadeiro significado de família.

Cena de “Mirai”- Copyright 2018 STUDIO CHIZU
Semelhante a A Viagem de Chihiro (2001, Hayao Miyazaki), a obra de Hosoda utiliza o olhar infantil como estrutura para um coming of age didático e lúdico. Por meio da fantasia, e de situações que, sob uma análise lógica, só fazem sentido dentro da imaginação fértil de uma criança, Mirai constrói interações inusitadas, como o “príncipe” que representa o cachorro da família ou as viagens de Kun pelo tempo. Tudo isso aconteceu de fato ou é fruto da imaginação? No fim, isso pouco importa; o essencial são os impactos dessas experiências no protagonista.
Assim como nos melhores filmes do Studio Ghibli, a narrativa se desenvolve com calma. Seus simbolismos são apresentados com delicadeza, permitindo que tanto adultos quanto crianças extraiam seus próprios significados. Ainda assim, a jornada pelo mundo fantástico é relativamente breve quando comparada a momentos de contextualização que nem sempre dialogam diretamente com o arco principal, como ocorre com o pai de Kun.
Ao analisarmos o protagonista, encontramos uma das crianças mais irritantes e mimadas da animação recente, o que é, paradoxalmente, essencial para o contraste com sua evolução emocional ao final. Esse amadurecimento culmina na sequência da estação de trem, que mistura diferentes estilos de animação, 2D, 3D, stop-motion, de forma caótica e, ao mesmo tempo, extremamente expressiva.

Cena de “Mirai”- Copyright 2018 STUDIO CHIZU
Indicado ao Oscar de Melhor Animação, Mirai acabou perdendo para Homem-Aranha no Aranhaverso (2019, Peter Ramsey, Rodney Rothman e Bob Persichetti). Embora ambos tratem de família, o vencedor se destacou por uma proposta estética muito mais inovadora e marcante, enquanto Hosoda opta por uma abordagem mais tradicional e simples, buscando maior proximidade emocional com o público.
Confortável e emocionalmente potente, Mirai se destaca pela franqueza. Em um cenário idílico, o filme funciona como um espelho, conduzindo o espectador a uma jornada de empatia e memória sobre a própria infância e suas relações familiares. Seu universo onírico poderia ter sido melhor explorado de forma alegórica? Sim, Miyazaki está aí para provar como é possível. Porém, a simplicidade da produção é algo mais marcante neste caso.
Mirai integra uma retrospectiva dedicada à obra de Hosoda, com estreia em 12 de março na plataforma Filmelier+. Outros títulos marcantes do diretor, como A Garota que Conquistou o Tempo (2006), Guerras de Verão (2009) e Crianças Lobo (2012) também fazem parte do catálogo.
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