Dirigido por Dandara Ferreira, Anatomia do Caos retrata não apenas a CPI da Covid-19, mas também o impacto político e social da pandemia no Brasil, restando ao espectador refletir sobre aquele período e, em determinados momentos, rir do absurdo.
Seis anos se passaram desde que a pandemia de Covid-19 assolou o mundo. No Brasil, a condução da crise sanitária foi marcada pela negligência do governo federal, pela defesa de tratamentos sem eficácia comprovada, como a cloroquina, e por declarações que minimizaram a gravidade da doença. O resultado foi um dos períodos mais sombrios da história recente do país, cujas consequências permanecem vivas na memória de milhares de famílias.
Anos depois, é curioso perceber como parte daqueles acontecimentos pode ser observada sob uma ótica quase cômica. Não por conta das mortes, uma cicatriz que jamais desaparecerá para muitos brasileiros, mas pelo caráter absurdo de diversas falas e decisões de figuras públicas. Sabendo o desfecho daqueles acontecimentos, o espectador presencia uma sucessão de declarações tão equivocadas que acabam produzindo um humor involuntário, fruto da ironia dramática.
Sem recorrer à narração em off ou ao tradicional formato de entrevistas, Anatomia do Caos constrói sua narrativa exclusivamente por meio de reportagens, transmissões da TV Senado e imagens registradas pela própria cineasta Dandara Ferreira. A montagem acompanha os acontecimentos que culminaram na CPI da Covid, seus desdobramentos e suas consequências políticas, deixando que o próprio material de arquivo conduza o filme.

Cena de “Anatomia do Caos”- Divulgação Descoloniza Filmes
Como o título sugere, a sensação de desordem domina praticamente toda a projeção. Entre discussões acaloradas, confrontos e pronunciamentos de nomes como Nise Yamaguchi, Eduardo Pazuello e Jair Bolsonaro, o documentário evidencia como diversas autoridades foram confrontadas por informações falsas, contradições e discursos que, vistos hoje, beiram o surreal. Em diversos momentos, a sucessão desses episódios desperta um riso desconfortável, imediatamente substituído pela lembrança do impacto real que aquelas decisões tiveram sobre a população.
Com um ritmo bastante dinâmico, o documentário alterna momentos de maior contemplação com sequências de intensa tensão política, mantendo o espectador preso por uma espécie de fascínio mórbido. Afinal, todos conhecem o desfecho dessa história: milhares de mortos, uma gestão amplamente questionada e uma sensação de impunidade que marcou o encerramento daquele período.
Hoje, Jair Bolsonaro encontra-se encarcerado, não pelos atos de negligência durante a pandemia, mas por sua tentativa de golpe de Estado. Essa talvez seja a maior ironia ressaltada pelo documentário: o principal personagem daquela crise acabou responsabilizado por acontecimentos posteriores, enquanto sua atuação durante a pandemia permanece como uma ferida histórica ainda cercada por debates.

Eduardo Pazuello em cena de “Anatomia do Caos”- Divulgação Descoloniza Filmes
Entretanto, é justamente aí que Anatomia do Caos encontra sua principal limitação. Dandara Ferreira insiste diversas vezes nas mesmas imagens, discursos e denúncias, tornando a experiência redundante. O público a quem o documentário parece se dirigir já possui consciência da gravidade daqueles acontecimentos, enquanto aqueles que negam ou relativizam esse período dificilmente serão convencidos a assistir ao filme. Com isso, a repetição enfraquece o impacto da obra e transforma o humor do absurdo em uma espécie de voyeurismo da tragédia.
Ao final, fica a sensação de que Anatomia do Caos perdeu o timing. Em uma época marcada por crises sucessivas e pelo fluxo constante de notícias, o documentário funciona sobretudo como um importante registro histórico, mas oferece poucas novas perspectivas sobre um período que já foi amplamente debatido.
Dandara Ferreira preserva a memória de uma das páginas mais dolorosas da história recente do Brasil, porém raramente ultrapassa a reconstituição dos fatos para propor uma reflexão verdadeiramente inédita.
Distribuído pela Descoloniza Filmes, Anatomia do Caos chega aos cinemas no dia 2 de julho.
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