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Kim Min-hee em cena de "Nowhere to Lay My Eyes"- Divulgação Mostra SP
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Nowhere to Lay My Eyes’ é confortável Déjà vu

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 11 de outubro de 2026
6 Min Leitura
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Kim Min-hee em cena de "Nowhere to Lay My Eyes"- Divulgação Mostra SP
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Dirigido por Hong Sang-soo, Nowhere to Lay My Eyes entrega exatamente o que se espera de uma produção do diretor, e talvez esse seja justamente o seu maior problema

A autoralidade de Hong Sang-soo é inquestionável. Poucos cineastas contemporâneos possuem uma assinatura tão imediatamente reconhecível, abraçando um realismo doméstico que remete ao que Éric Rohmer fazia com maestria. Seus filmes se constroem a partir de produções econômicas, relações familiares conturbadas, encontros aparentemente banais e diálogos que encontram, no cotidiano, uma espécie de dramaturgia própria. É um cinema baseado sobretudo na química entre os personagens, no naturalismo das interpretações e na observação paciente das pequenas contradições humanas.

O problema é que, quando essa fórmula se repete tantas vezes, a autoralidade começa a se transformar em previsibilidade. Nowhere to Lay My Eyes segue praticamente todas as regras do manual de Hong Sang-soo. Até mesmo a protagonista, envolvida com a indústria audiovisual, parece pertencer a um arquétipo recorrente dentro de sua filmografia.

Sang-hee retorna para a casa dos pais e, ao reencontrar a família, volta a lidar com antigas tensões, uma mãe possessiva, a relação com o irmão, um padrasto recém-chegado e a filha depressiva dele. Em pouco tempo, o quinteto central está estabelecido, e junto dele, aquela familiar sensação de que já estivemos exatamente naquele lugar antes.

Kim Min-hee em cena de "Nowhere to Lay My Eyes"- Divulgação Mostra SP

Kim Min-hee em cena de “Nowhere to Lay My Eyes”- Divulgação Mostra SP

Na medida em que Sang-hee se reaproxima da mãe, retoma a conexão com o irmão e conhece melhor o padrasto e sua filha, Hong Sang-soo conduz essas relações com a segurança de quem conhece profundamente o próprio território. O cineasta dirige, produz, faz a trilha, roteiriza e opera a câmera, imprimindo em cada escolha a sensação inequívoca de que estamos diante de “um filme de Hong Sang-soo”. E, para seus admiradores, isso provavelmente é motivo suficiente para celebração. Afinal, Nowhere to Lay My Eyes chegou a conquistar três prêmios no 79º Festival de Cinema de Locarno, incluindo Melhor Direção e o Prêmio do Júri.

Estão todos lá: a comicidade discreta, o drama cotidiano, os longos planos, os passeios pela cidade e pelos cais, os conflitos familiares, as conversas aparentemente banais que escondem desconfortos profundos e a imagem propositalmente despojada, com aquela câmera na mão que parece registrar os acontecimentos quase por acaso. Hong Sang-soo domina tão bem esse vocabulário que consegue reproduzi-lo com enorme precisão. O problema é justamente esse: Nowhere to Lay My Eyes parece menos uma nova investigação dentro de sua obra e mais uma nova variação de algo que já conhecemos muito bem.

Em nenhum momento seria razoável esperar que Hong Sang-soo subitamente fizesse um terror de ação como Zona Zero (2026, Yeon Sang-ho). Não é essa a questão. Um cineasta não precisa abandonar sua identidade para se reinventar. Mas existe uma diferença entre preservar uma assinatura e permanecer confortavelmente preso a ela. E Nowhere to Lay My Eyes parece interessado muito mais na primeira opção do que em descobrir até onde sua própria linguagem pode chegar.

Cena de "Nowhere to Lay My Eyes"- Divulgação Mostra SP

Cena de “Nowhere to Lay My Eyes”- Divulgação Mostra SP

O silêncio, as conversas honestas sem grandes explosões emocionais, as trocas ao redor da mesa de jantar carregadas de subtexto, os acidentes e improvisos que provocam momentos de humor: tudo funciona. E talvez esse seja o aspecto mais curioso da experiência. O filme não é ruim; pelo contrário, é frequentemente delicado, engraçado e extremamente bem construído dentro dos parâmetros estabelecidos pelo diretor. O que pesa é a sensação persistente de déjà vu. Não estamos diante de uma obra incapaz de provocar interesse, mas de uma obra que raramente nos faz pensar: “nossa, isso é diferente”.

É possível que os admiradores mais puristas de Hong Sang-soo vejam justamente nessa fidelidade a essência de sua filmografia. E eles não estão necessariamente errados. Há algo admirável em um artista que permanece tão fiel à própria linguagem e continua encontrando pequenas variações dentro dela. Mas fica a pergunta inevitável: em que momento a consistência deixa de ser autoralidade e passa a ser repetição?

Nowhere to Lay My Eyes é um filme que Hong Sang-soo sabe fazer como poucos. Talvez esse seja, simultaneamente, seu maior elogio e sua principal limitação. Para quem procura mais uma dose do universo do diretor, há muito a apreciar. Para quem esperava que sua filmografia ainda pudesse surpreender, entretanto, fica a impressão de que já vimos este filme, talvez até mais de uma vez.

Participando da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Nowhere to Lay My Eyes terá sessões durante o evento, que acontece entre 15 e 29 de outubro de 2026.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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