Dirigido por Wim Wenders, Paris,Texas volta aos cinemas em 4k, de forma a ampliar sua poesia visual sobre solidão, amor e reconexão
No instante em que ouvimos o primeiro acorde de violão e vemos a imensidão de um deserto, por onde um homem perdido caminha sem rumo, percebemos que algo singular está por vir, porém, longe de uma epopeia grandiosa, Wim Wenders iniciou a regência de um retrato contido, contemplativo, e extremamente emocionante que seria Paris, Texas, muito mais do que somente uma homenagem ao Oeste norte-americano, a produção é permeada por poesia, solidão e pelo desejo de reconexão: não apenas com os outros, mas sobretudo consigo mesmo.
Onde Travis esteve nos últimos quatro anos? Por que se mantinha alheio a tudo? O que o fez atravessar a jornada que o leva da violência e do abuso a um gesto de cuidado? São perguntas que permanecem em aberto. O essencial em Paris, Texas não são as respostas, mas as sensações que cada plano meticuloso transmite, desde um enquadramento amplo e sufocante do deserto, até a iluminação intimista que transforma um encontro em confissão com uma estonteante Nastassja Kinski, unindo as confissões de um espectador, com o personagem de Travis.

Nastassja Kinski em cena de Paris, Texas- Copyright Tamasa Distribution
Paris, Texas equilibra silêncio, diálogos naturalistas e ruídos com rara maestria. No vazio sonoro, nos resta apenas observar e sentir cada fala esparsa, reforçada pela trilha de Ry Cooder, que carrega um lirismo onírico, principalmente nas interações de Travis e Jane. Somente descobrimos o passado dos personagens por meio de fragmentos, através de falas cruciais e pequenos desvios narrativos que revelam mais sobre suas defesas emocionais do que sobre fatos concretos, afinal, são figuras que habitam um microcosmo isolado, cercado por um deserto tanto exterior quanto interior, a todo momento querendo se proteger de sentir, quando ele é o único caminho para crescer.
Walt e Anne, ainda que pouco explorados, são fundamentais na trajetória de Travis. A adoção de Hunter lhes trouxe conforto durante anos, mas sua perda ao final do filme deixa uma sensação amarga, e a cena em que recebem a ligação do garoto, já ao lado do pai, demonstra um casal devastado, que talvez merecesse um desfecho mais justo, sendo esta uma das pouquíssimas contestações que tenho para com o filme, afinal, o foco sempre foi a jornada íntima de Travis.
Muito já se disse sobre o monólogo final, mas é inevitável retornar a ele. Harry Dean Stanton entrega uma das grandes atuações do cinema, revelando o passado de Travis com brutal honestidade. A cena, construída como um confessionário, alia iluminação, direção de arte, silêncio e trilha de forma magistral. Inicialmente acompanhando Travis em primeira pessoa, após um tempo, sua voz somente ecoa, enquanto a câmera repousa sobre o rosto de Jane, enquanto Nastassja Kinski expressa, sem palavras, um misto de alívio, epifania e dor. É um dos grandes momentos da história do cinema, onde a exposição narrativa se transforma em pura emoção.
Em Paris, Texas, Wim Wenders atinge a essência do que o cinema deve provocar: sentimento. Seja na caminhada paralela de pai e filho por lados opostos da rodovia, seja na família reunida diante de vídeos caseiros, seja no emblemático suéter rosa, cada imagem nos confronta com uma necessidade humana de reconexão com o nosso core, e o peso que a memória tem nesta jornada.

Nastassja Kinski e Harry Dean Stanton em cena de Paris, Texas- Copyright Tamasa Distribution
A missão de Travis não é retomar seu amor por Jane, mas unir novamente mãe e filho. Cumprida essa tarefa, resta-lhe o deserto, não como fuga, mas como busca de perdão e talvez, algum dia, de reencontro. Mais do que a resposta a esse destino, importa a intensidade da experiência que o filme nos oferece, e uma conclusão que não poderia ser mais grandiosa dentro da proposta da produção.
Distribuído pela O2 Play, a versão restaurada em 4K de Paris, Texas estreia nos cinemas brasileiros em 25 de setembro.
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