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Reginaldo Faria em cena de "Perto do Sol é Mais Claro"- Divulgação O2 Play
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Perto do Sol é Mais Claro’ é retrato tão íntimo que não sabe como se encerrar

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 5 de maio de 2026
6 Min Leitura
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Reginaldo Faria em cena de "Perto do Sol é Mais Claro"- Divulgação O2 Play
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Dirigido por Regis Faria, Perto do Sol é Mais Claro nasce de um núcleo criativo extremamente restrito e, por isso, se torna uma obra íntima em excesso, densa e pouco acessível para quem está fora desse círculo afetivo.

Ao observar a ficha técnica de Perto do Sol é Mais Claro, saltam aos olhos alguns aspectos curiosos. O principal deles é o acúmulo de funções concentradas em Regis Faria, que assina direção, roteiro, montagem, produção, direção de fotografia e direção de arte, entre outras atribuições. Esse controle criativo total poderia resultar em uma obra coesa, mas também levanta um alerta: o risco de um projeto excessivamente autocentrado.

Essa impressão se intensifica ao notarmos a presença massiva de familiares no elenco: irmãos, filhos e até a ex-esposa do diretor, que interpreta a namorada do protagonista. No centro de tudo está Reginaldo Faria, pai do cineasta, cuja vida pessoal e trajetória artística servem como base para a narrativa. Quando esse viés biográfico se expande além da medida, o filme passa a correr o risco de se fechar em si mesmo.

Como primeiro longa de ficção de Regis Faria, o projeto teve início durante a pandemia, com registros do próprio pai. Aos poucos, a proposta evoluiu para um retrato mais amplo sobre memória, envelhecimento e relações familiares. A narrativa se constrói a partir de elementos claramente autobiográficos, incluindo referências diretas à carreira de Reginaldo Faria, o que reforça o tom de homenagem, mas também limita o alcance dramático da obra.

Vanessa Gerbelli em cena de "Perto do Sol é Mais Claro"- Divulgação O2 Play

Vanessa Gerbelli em cena de “Perto do Sol é Mais Claro”- Divulgação O2 Play

A escolha pelo preto e branco contribui para criar uma atmosfera melancólica e nostálgica, que dialoga com o estado emocional do protagonista, Rêgi, um engenheiro carioca que enfrenta o luto e, gradualmente, tenta se reconectar com a vida e com as pessoas ao seu redor. Trata-se de uma jornada clássica, com potencial para emocionar e marcar o espectador. No entanto, esse potencial não se concretiza plenamente.

À medida que Perto do Sol é Mais Claro avança e a empatia por Rêgi cresce, a narrativa perde força ao se estender além do necessário. Há um ponto claro em que a história poderia se encerrar de forma impactante, mas, em vez disso, opta por um epílogo prolongado e dispensável que dura cerca de 20 minutos, diluindo o efeito emocional construído até então.

Se a direção de arte se mantém discreta, é na fotografia que o filme encontra seus momentos mais inspirados. Aliada ao roteiro de caráter pseudoautobiográfico, ela contribui para reflexões interessantes sobre envelhecer e seguir em frente. Ainda assim, o longa se apoia fortemente em clichês já conhecidos do gênero: conflitos familiares envolvendo um novo relacionamento, resistência às mudanças geracionais e dificuldades com tecnologia. Esses elementos são tratados de forma competente, mas sem inovação ou acréscimo realmente eficiente na narrativa.

Reginaldo Faria em cena de "Perto do Sol é Mais Claro"- Divulgação O2 Play

Reginaldo Faria em cena de “Perto do Sol é Mais Claro”- Divulgação O2 Play

A trajetória de Rêgi é, sem dúvida, envolvente em diversos momentos. Sua resiliência diante das dificuldades gera identificação, mas isso não é suficiente para sustentar o filme como um todo. O foco quase exclusivo em sua figura impede que a narrativa explore novos caminhos ou desenvolva melhor os personagens ao redor. Quando finalmente atinge um ponto de maior intensidade emocional, Perto do Sol é Mais Claro falha ao não saber encerrar sua história, comprometendo o impacto final.

No fundo, Perto do Sol é Mais Claro funciona mais como uma homenagem à carreira de Reginaldo Faria do que como uma obra autônoma e plenamente estruturada. Embora o personagem Rêgi seja um engenheiro, e não um ator, a sensação de desgaste e de substituição por uma geração mais jovem permeia toda a narrativa, criando paralelos evidentes com a vida real.

Há momentos em que o filme equilibra bem o cômico e o dramático, especialmente nas interações mais íntimas, seja nas dificuldades com tecnologia ou na relação com Vanessa. No entanto, quando se inclina para um tom excessivamente filosófico e autocentrado, a narrativa perde o rumo.

Ao final, o que permanece são imagens e situações pontuais mais memoráveis do que a história em si, um paradoxo curioso para um filme que discute justamente a memória e o esquecimento.

Distribuído pela O2 Play, Perto do Sol é Mais Claro estreia em 14 de maio.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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