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Gerson Conrad, Paulo Mendonça e Ney Matogrosso em cena de "Primavera nos Dentes: A história do Secos e Molhados"- Divulgação Canal Brasil
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Crítica: Mesmo limitada, ‘Primavera nos Dentes’ é presente para os fãs

Por
André Quental Sanchez
Última Atualização 30 de outubro de 2025
6 Min Leitura
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Gerson Conrad, Paulo Mendonça e Ney Matogrosso em cena de "Primavera nos Dentes: A história do Secos e Molhados"- Divulgação Canal Brasil
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Dirigido por Miguel de Almeida, Primavera nos Dentes: A História dos Secos e Molhados usa entrevistas e imagens de arquivo para contar a história do grupo que marcou a época

Nenhum documentário é completamente neutro, e Primavera nos Dentes: A História dos Secos e Molhados ilustra bem esta tensão entre a busca pela objetividade e o olhar pessoal de quem narra, na medida que a obra se propõe a contar a trajetória de uma das bandas mais icônicas da música brasileira, Secos e Molhados, mas se torna um reflexo dos limites e ausências que envolvem sua produção.

Adaptação do livro homônimo do próprio Miguel de Almeida, o documentário se utiliza entrevistas com os membros fundadores Ney Matogrosso e Gerson Conrad, depoimentos de nomes relevantes da música brasileira, como Charles Gavin, imagens de arquivo e trechos de filmes de época, como O Rei da Vela (1968, Noilton Nunes e José Celso Martinez Corrêa), para reconstruir o contexto artístico e político dos anos 1970, período em que o Secos e Molhados surgiu e rapidamente se tornou um fenômeno cultural.

Emílio Carrera, Willy Verdaguer e Gerson Conrad em cena de "Primavera nos Dentes: A história do Secos e Molhados"- Divulgação Canal Brasil

Emílio Carrera, Willy Verdaguer e Gerson Conrad em cena de “Primavera nos Dentes: A história do Secos e Molhados”- Divulgação Canal Brasil

Entretanto, a ausência de João Ricardo, também fundador e principal compositor do grupo, impõe uma limitação decisiva à produção. Sua recusa em participar não apenas restringe o uso de músicas fundamentais, como Sangue Latino (1973), mas também cria um desequilíbrio narrativo. Sem sua voz e sem as canções que definiram o som do grupo, o documentário é forçado a se apoiar quase exclusivamente nas memórias e perspectivas de Ney Matogrosso e Gerson Conrad, resultando em uma visão parcial e, em certos momentos, enviesada da história.

Essa ausência não passa despercebida. A falta de contraponto leva a narrativa a se concentrar em comentários pessoais e episódios de bastidores que, embora curiosos, nem sempre acrescentam profundidade à compreensão do fenômeno que foi a banda. Em coletiva, Ney Matogrosso, afirmou que no documentário “ninguém fala mal de ninguém”, mas o tom de algumas falas sugere o contrário, um tipo de informalidade que enfraquece o rigor histórico da produção e reforça o caráter de “lado” que o documentário acaba assumindo.

A direção de Primavera nos Dentes tenta compensar essas lacunas por meio de uma linguagem visual que busca ser tão ousada quanto o grupo retratado, experimentando com planos inusitados, variações de enquadramento e movimentos de câmera que pretendem dar dinamismo às entrevistas. Contudo, o resultado é irregular: em alguns momentos, a tentativa de ser “subversivo” compromete a clareza e a imersão do espectador, levando a entrevistas mal enquadradas, com rostos cortados ou mãos fora de foco, que prejudicam a fluidez das cenas.

Com quatro episódios, sendo o último dedicado à dissolução da banda, Primavera nos Dentes acompanha a ascensão meteórica e a queda repentina do grupo que marcou gerações. Ainda que a estrutura episódica permita abordar diferentes fases do grupo, há uma perceptível redundância entre as entrevistas, com depoimentos que se repetem e reforçam ideias já apresentadas, demorando a ganhar ritmo e, em alguns trechos, se contentando com o fascínio que a figura de Ney Matogrosso naturalmente desperta, sem aprofundar questões musicais ou estéticas mais amplas.

Por outro lado, a trilha sonora original composta por Willy Verdaguer e Emilio Carrera é um dos acertos da série. Inspirada no estilo do grupo, ajuda a preencher o vazio deixado pela ausência das músicas originais, porém, a sensação predominante é de que algo essencial ficou de fora, não apenas as canções, mas também a complexidade de uma convivência artística marcada por tensões criativas e disputas de autoria.

No fim, Primavera nos Dentes: A História dos Secos e Molhados é um retrato afetivo, porém incompleto, de uma das bandas mais revolucionárias da música brasileira, sendo um documentário que tenta, mas não consegue, abarcar a totalidade do fenômeno que descreve.

Cartaz Oficial de "Primavera nos Dentes: A história do Secos e Molhados"- Divulgação  Canal Brasil

Cartaz Oficial de “Primavera nos Dentes: A história do Secos e Molhados”- Divulgação Canal Brasil

Entre ausências legais, escolhas estéticas duvidosas e repetições narrativas, o filme se sustenta no carisma de seus entrevistados e na força da memória coletiva, mas deixa no ar a inevitável pergunta: como seria essa história se todos os lados tivessem, de fato, voz?

Produzida pela Santa Rita Filmes, Primavera nos Dentes – A História do Secos & Molhados estreia no dia 31 de outubro no Canal Brasil, com exibições semanais dos episódios, toda 6º Feira às 21:30 da noite, com reexibições aos Domingos, às 19h, e sábados, às 17h.

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Tags:canal brasilCinemaEmílio CarreraGerson ConradMiguel De AlmeidaNey MatogrossoPrimavera Nos DentesSangue LatinoSecos e MolhadosWilly Verdaguer
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