Dirigido por Alicia MacDonald, Procurando Emily estrutura uma comédia romântica tradicional dentro dos moldes contemporâneos, o que resulta tanto em soluções interessantes quanto em alguns problemas
Se tem algo que não falta em Procurando Emily é charme. O sentimento de que estamos diante de uma produção pertencente ao mesmo grupo de comédias românticas dos anos 1990, como Um Lugar Chamado Notting Hill (1999, Roger Michell), é constante. Apesar de a contemporaneidade estar presente ao longo de todo o filme, com redes sociais, podcasts, militância política, e-mails e outras ferramentas, a paleta de cores e, principalmente, a maneira como seus personagens se comportam parecem pertencer a uma época que já passou.
Assim, a produção de MacDonald constrói uma sensação de nostalgia e afeto, mesmo sendo uma obra inédita. Acompanhamos Owen, um romântico incurável, em sua busca por uma garota que conheceu em uma festa, mas cujo número de telefone acabou faltando um dígito. Paralelamente, temos sua relação com Emily Raine, uma cínica estudante de psicologia que encontra no colega a resposta para seu projeto de conclusão de curso sobre as loucuras do amor. A partir daí, somos apresentados a um leque de personagens que surge enquanto o caos aumenta progressivamente.
A primeira coisa que pensei ao assistir ao filme foi: “Se o problema é um número faltando, existem apenas dez possibilidades para encontrar o número certo”. Porém, obviamente, essa ideia sequer poderia ser considerada, pois destruiria toda a premissa da produção e encerraria a história em aproximadamente dez minutos. Assim, somos levados por uma hora e cinquenta minutos de uma sátira social que tenta discutir as complexidades do amor na contemporaneidade.

Angourie Rice e Spike Fearn em cena de “Procurando Emily”- Divulgação Universal Pictures
Mesmo sem saber praticamente nada sobre essa misteriosa garota, e com a própria narrativa brincando com isso ao classificá-la como uma “manic pixie fairy girl”, Owen acredita piamente que ela é o amor de sua vida. Com o incentivo de Emily Raine, que não pode se dar ao luxo de perder seu objeto de estudo, ele passa a realizar grande gesto atrás de grande gesto para provar seus sentimentos.
Espalha cartazes pelo campus, envia e-mails para todas as Emilys da faculdade, participa de um podcast para limpar seu nome e até escreve uma música para uma garota cujo sobrenome ele sequer conhece. Aos poucos, o comportamento de Owen começa a flertar com uma fronteira curiosa entre o romântico e o obsessivo, e o filme sabe brincar com essa linha, ainda que nem sempre consiga explorá-la até o fim.
Alguns dos melhores momentos cômicos de Procurando Emily surgem justamente quando acompanhamos reels de pessoas comentando sobre Owen. O humor, porém, é muito mais amplo, apoiando-se em tiradas pontuais, clichês de personagens e situações absurdas. Nós já sabemos qual será o destino dessa história desde o começo; resta ao espectador descobrir como ela chegará até lá.
E, por mais que a produção tente ser original, não consegue escapar completamente das mesmas questões e situações dignas de Shakespeare que acompanham as comédias românticas há décadas. É justamente aí que surge uma comparação interessante com Só Uma Noite (2026, Will Gluck).
Também seguindo uma estrutura tradicional, Só Uma Noite me pareceu mais disposto a sair da zona de segurança e construir um universo próprio. Mesmo que algumas dessas escolhas não funcionem completamente, existe uma tentativa mais evidente de experimentar dentro do gênero. Já Procurando Emily permanece mais confortável no território do “fofo” e do “caótico”, sem necessariamente transformar essa escolha em algo marcante.

Angourie Rice e Spike Fearn em cena de “Procurando Emily”- Divulgação Universal Pictures
Isso se torna ainda mais perceptível diante das discussões que o filme poderia desenvolver. A produção flerta com questões bastante contemporâneas sobre relacionamentos, idealização amorosa e a própria construção da figura da “manic pixie dream girl”, mas, no fim, a fórmula tradicional acaba vencendo.
Há, inclusive, acenos metalinguísticos interessantes, como o letreiro final que questiona justamente a ideia da “manic pixie dream girl” e lembra que essa personagem também possui sonhos e ambições próprias. Um videoclipe inspirado em Bitter Sweet Symphony (1997, The Verve), acompanhado pela trilha sonora, reforça ainda mais esse sentimento de nostalgia e esse olhar para um passado que o filme parece querer recuperar, mas que não constrói em algo realmente seu.
No fim, Procurando Emily pode funcionar como uma excelente dobradinha com A Hipótese do Amor (2026, Claire Scanlon). Ambos partem de discussões sobre a viabilidade do amor nos dias de hoje, mas, conforme avançam, acabam justamente desconstruindo parte desse argumento para retornar à estrutura clássica da comédia romântica.
E talvez esse seja o maior mérito e, ao mesmo tempo, o principal limite de Procurando Emily: é uma produção eficiente, charmosa e confortável, que sabe exatamente o tipo de filme que quer ser. Porém, mesmo cercada por ferramentas e discussões contemporâneas, ela raramente consegue transcender a fórmula que outras produções estabeleceram décadas atrás.
Distribuído pela Universal Pictures Brasil, Procurando Emily está em cartaz nos cinemas desde 17 de setembro.
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