Crítica | ‘Regra 34’ traz reflexões impactantes sobre liberdade e moralidade

Regra 34 mostra a trajetória de Simone (interpretada por Sol Miranda), uma jovem negra que acabou de ser aprovada no cargo principal da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. É, sem sombra de dúvidas, uma grande conquista, já que o concurso para esse cargo é um dos mais difíceis do Brasil, equiparado ao nível da Magistratura (para ser juiz) e ao Ministério Público (promotor). Obviamente, junto com a sua determinação e foco nos estudos, era necessário também custear esse período acadêmico, e aí entra a grande surpresa: Simone pagou os estudos fazendo performance on-line de sexo como camgirl.

A princípio, em diversos momentos do filme surgem questões de como poderia haver uma sociedade mais justa. São questionamentos de como gerar mais inclusão para pessoas negras, e ainda resguardar a dignidade e integridade física de mulheres que sofrem diversos tipos de abuso, e se a prostituição deveria ou não ser erradicada. A pelíluca ainda aborda como certas situações de vida, como rompimento de ciclos familiares, orgulho ferido, medo, culpa, geram certos interesses distintos.

Esses gostos não são temas abordados tão espontaneamente, muito pelo contrário, geralmente são vistos como tabu. A busca de como sentir prazer, de como se divertir, corpos normais (se pensar como a mídia, por favor, leia como “corpos fora do padrão”) buscando segurança e liberdade para ser quem se deseja se contrapõem em boa parte do longa.

Agressões e abusos

Outro fator que se pode notar é a abordagem sobre ensinar algumas formas de abuso numa relação amorosa. Simone, em sua atuação como defensora pública, ampara as personagens que desabafam não apenas das agressões físicas, mas também daquelas agressões veladas que parecem excesso de zelo. E com isso o filme deixa a mensagem de como a educação é importante, principalmente para se libertar das aflições. Desaprender certos conceitos, ressignificar outros.

Uma reflexão final, e a que mais me marcou, é que não importa a profissão de alguém, ninguém deve ser julgado pelos seus gostos pessoais. Os seus interesses merecem respeito por todos. Não só por ser uma questão moral, mas de empatia – não faço com o outro porque não quero que façam comigo – e aceitar que o outro possui livre arbítrio para escolher aquilo que é atraente para si. Liberdade e respeito.

Prêmios

Vale mencionar que o filme Regra 34, com boa direção de Julia Murat, com distribuição no Brasil pela Imovision ganhou, em 2022, o Leopardo de Ouro, prêmio máximo do Festival de Locarno, na Suíça; além do prêmio de Melhor Direção de Ficção da Première Brasil, no Festival do Rio, e o Prêmio Especial do Júri na 43ª edição do Festival do Novo Cinema Latino-Americano de Havana. O longa ainda recebeu, no Panorama Coisa de Cinema, a Menção Honrosa Longa e Prêmio Especial do Júri APC, e no Festival de Cinema Iberoamericano Huelva, na Espanha, o Prêmio AAMMA.

Por fim, a protagonista brilhante de Regra 34 , Sol Miranda, levou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema Iberoamericano Huelva, na Espanha, o prêmio de Melhor Interpretação Festival Mix Brasil, além de uma menção especial no Festival des 3 Continents, realizado na França. O filme fez uma trajetória em mais de 30 festivais internacionais.

Aflorou a curiosidade? Então aproveite essa oportunidade de reflexão com cultura da melhor qualidade, afinal, Regra 34 estreia no dia 19 de janeiro de 2023 nos melhores cinemas.

Ademais, veja mais:

Avatar – O Caminho da Água | Filme traz reflexões sobre família e o trato com os animais

Um Pequeno Grande Plano | Crítica

Crítica | ‘Guia Romântico Para Lugares Perdidos’ tem poesia e catarse

1 Comment

Escreve o que achou!