Dirigido por Will Gluck, Só Por Uma Noite cria uma comédia romântica tradicional em um universo distópico que poderia ter sido muito melhor explorado
A ideia de fazer Uma Noite de Crime (2013, James DeMonaco), com uma premissa distópica na qual, em vez de violência, o sexo é permitido somente entre solteiros durante um período de 12 horas permitiria muita criatividade para uma análise sobre intimidade, amor, sexo e relacionamentos líquidos, entre tantas outras questões. Porém, em vez de realmente explorar esse universo ficcional, Só Por Uma Noite opta por um caminho muito mais romântico e tradicional, para o bem e para o mal.
Os pontos positivos acabam falando mais alto do que os negativos se considerarmos uma questão simples: não esperar nada subversivo e apenas curtir este divertido “e se?”. Monica Barbaro e Callum Turner estão confortáveis em seus respectivos papéis, a fotografia é limpa e elegante e as piadas funcionam em sua maioria. Elas surgem tanto de situações irônicas e relacionais quanto do próprio absurdo da premissa, como o fato de somente ter uma única noite do ano em que solteiros podem fazer sexo e, aparentemente, ninguém pensou em comprar uma camisinha.
Por outro lado, quem espera um verdadeiro mergulho nesse universo, debatendo suas nuances e conflitos, certamente se decepcionará. De certa forma, trata-se de uma premissa perdida, já que uma análise política e social desse mundo seria bastante interessante. Porém, Só Por Uma Noite provavelmente não seria tão divertido caso abraçasse esse caminho e se transformasse em um drama pesado, algo que nunca parece ter sido o objetivo de Will Gluck. A ausência de cenas de nudez e sexo parece justamente fazer parte dessa escolha: o diretor quer preservar o caráter confortável e acessível da experiência.

Monica Barbaro em cena de “Só Por Uma Noite”- Divulgação Universal Pictures
Esta crítica não é o lugar ou a hora para discutir o uso ou não de cenas de sexo, nem como a geração Z é impactada por isso. O fato é que, em um filme que discute justamente desejo e ânsias libidinosas, a exclusão de cenas capazes de reforçar essa sensação diz mais sobre os receios do próprio diretor, que permanece em cima do muro, do que sobre uma suposta incapacidade da audiência de assistir, em um filme para maiores de 16 anos, a adultos fazendo coisas de adultos.
Por seu contexto, suas piadas e seu tema, Só Por Uma Noite pode ser considerado uma “comédia picante”, mas poderia ter levado sua proposta a extremos muito mais interessantes, que, infelizmente, não são alcançados. O que resta é comparar a produção com o projeto anterior de Will Gluck: Todos Menos Você (2023).
Neste novo filme, novamente temos uma estrutura tradicional na qual dois estranhos se conhecem, inicialmente se odeiam e, com o tempo e encontros inesperados organizados pelo destino, percebem que se amam. Com a diferença que desta vez isso ocorre enquanto tentam encontrar intimidade justamente durante a noite menos romântica do ano.

Callum Turner e Monica Barbaro em cena de “Só Por Uma Noite”- Divulgação Universal Pictures
E o que nos resta, então? O carisma dos atores, uma espécie de versão da geração Z de Depois de Horas (1985, Martin Scorsese), uma trilha sonora pop que carrega o filme nas costas e se torna praticamente uma personagem própria, além de um roteiro tradicional e confortável que conquista os românticos de plantão. No caminho, surgem situações inusitadas, como o roubo de uma estátua para recuperar uma camisinha presa, e uma discussão sobre sexo e intimidade que permanece sempre no limiar, mas encontra, ao final, seu satisfatório desejo.
Na crítica de Literalmente Nu (2026, Muriel d’Ansembourg), debati sobre as diferentes formas de retratar intimidade e erotismo. Em Só Por Uma Noite, o sexo é apresentado como um desejo carnal compartilhado por muitos, mas, apesar de interações que podem parecer distantes ou desconfortáveis, o verdadeiro “sex appeal” encontra-se nas entrelinhas e nos delírios. Não é necessário muito para perceber o quanto essas pessoas se amam: basta um olhar ou um delírio ao som de Only You.
Daqui a dez anos, Só Por Uma Noite será tão icônico e memorável quanto Superbad: É Hoje (2007, Greg Mottola)? Provavelmente não. Para alcançar esse feito, a produção precisaria abraçar muito mais o próprio universo e construir algo consideravelmente mais original. Ainda assim, é inegável que o filme aquece o coração, oferece conforto para aqueles que ainda acreditam no amor e proporciona algumas boas risadas para espectadores de mente aberta.
Distribuído pela Universal Pictures, Só Por Uma Noite estreia nos cinemas no dia 20 de agosto.
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