Sociedade do Medo, de Adriana L. Dutra, é um documentário relevante e necessário ao investigar como o medo pode ser transformado em instrumento de manipulação política e controle social. Ao reunir especialistas de diferentes áreas e perspectivas, o filme constrói uma reflexão abrangente sobre o fascismo, a intolerância e a fabricação de inimigos. Os depoimentos de nomes como Ailton Krenak, padre Júlio Lancellotti e Flávia Oliveira enriquecem a narrativa, conectando questões políticas a dilemas éticos, ambientais e humanos. A obra ganha força ao relacionar acontecimentos históricos a crises contemporâneas, incluindo a pandemia e a guerra, sem perder de vista o impacto dessas experiências sobre a vida cotidiana.
Um dos méritos do longa está em estimular o pensamento crítico sem reduzir um tema complexo a respostas fáceis. A diretora parte de uma inquietação pessoal e a transforma em uma investigação coletiva sobre os mecanismos que exploram a insegurança para conquistar ou preservar poder. Nesse percurso, o filme também questiona a visão antropocêntrica e a dificuldade de conviver com as diferenças, ampliando seu alcance para além da política.
A participação de vozes diversas dá densidade ao debate, enquanto a reflexão final de Krenak aponta para uma alternativa à paralisia provocada pelo medo: afirmar a vida em toda a sua potência. Sociedade do Medo conclui a Trilogia da Catarse com um convite oportuno à reflexão e à resistência diante de discursos que se alimentam do pânico.
Como o medo pode ser usado para influenciar sociedades e sustentar governos autoritários? Essa é uma das questões centrais de Sociedade do Medo, o qual está com sua exibição liberada gratuitamente na plataforma Inffinito Plus. Disponível pela internet em qualquer lugar do mundo, o longa investiga como o pânico e a insegurança podem ser explorados como instrumentos de poder.
Produzido pela Inffinito em coprodução com Globo Filmes, GloboNews, Canal Brasil e GNT, o filme encerra a chamada Trilogia da Catarse. A série de documentários começou com Fumando Espero (2009) e continuou com Quanto Tempo o Tempo Tem (2015), obras nas quais a diretora aborda questões pessoais e coletivas para refletir sobre comportamentos e dilemas contemporâneos.
A decisão de disponibilizar Sociedade do Medo gratuitamente busca ampliar o alcance da discussão. Segundo Adriana L. Dutra, o lançamento acontece em um momento político delicado, no qual considera importante compreender os mecanismos de manipulação associados a governos fascistas e totalitários.
Para construir o documentário, Adriana entrevistou especialistas de diferentes áreas e contextos socioculturais. As conversas ocorreram em cidades como Tóquio, Nova York, Los Angeles, Londres, Paris e Amsterdã.
Entre os participantes estão o filósofo indígena Ailton Krenak, o padre Júlio Lancellotti, a jornalista Flávia Oliveira, o historiador Marcelo Jasmin, a pesquisadora Ivana Bentes e a vereadora Benny Briolly. Também participam a deputada federal Talíria Petrone, os sociólogos Frank Furedi e Barry Glassner, além de pesquisadores e professores internacionais.
Os depoimentos exploram diferentes dimensões do medo: da insegurança individual à construção de ameaças coletivas. O filme investiga como esse sentimento pode ser mobilizado por lideranças políticas, instituições e discursos que apresentam um inimigo como justificativa para concentrar poder.
Um dos pontos discutidos é a instrumentalização da religião para provocar temor e reforçar relações de autoridade. O padre Júlio Lancellotti critica essa prática e afirma: “Isso é a anti-religião, isso é a manipulação ideológica da religião para manter o poder”.
A jornalista Flávia Oliveira, por sua vez, relaciona o medo à dificuldade de reconhecer a diversidade e as diferenças sociais. Para ela, quando alguém interpreta o outro como uma ameaça por ser diferente, o medo se torna um instrumento eficiente de confronto.
As reflexões mostram como a percepção de perigo pode ultrapassar situações concretas de risco. O documentário procura distinguir o medo que protege diante de uma ameaça real daquele que pode ser produzido e disseminado para influenciar comportamentos.
Pandemia e guerra atravessaram a produção
O desenvolvimento de Sociedade do Medo foi marcado por acontecimentos que alteraram a percepção coletiva de segurança. As filmagens começaram presencialmente antes da pandemia de Covid-19, em 2020, e continuaram remotamente após a disseminação do coronavírus.
Durante a finalização, a invasão russa da Ucrânia, em 2022, acrescentou outro contexto de tensão internacional à produção. Esses acontecimentos atravessaram a pesquisa e reforçaram a discussão sobre a presença do medo na vida cotidiana.
Na narração do filme, Adriana questiona a origem de uma sensação de insegurança que considera diferente do receio natural diante de perigos concretos. A diretora descreve essa experiência como um medo que parece fabricado e institucionalizado.
O documentário também aborda a relação entre o temor da morte e as contradições do comportamento humano. Embora a mortalidade seja uma preocupação universal, a sociedade nem sempre demonstra a mesma urgência diante de problemas ambientais provocados pelo consumo desenfreado.
Entre as reflexões presentes no longa, Ailton Krenak questiona a ideia de que os seres humanos ocupam uma posição superior à das demais espécies. O filósofo indígena relaciona essa visão à exploração do planeta e à dificuldade de reconhecer os limites da ação humana.
Krenak argumenta que a Terra continuaria existindo sem a humanidade. Para ele, a convicção de que a espécie humana tem importância absoluta alimenta uma lógica de dominação sobre o planeta, que também se manifesta na relação com a natureza.
Ao final de sua reflexão, o pensador apresenta uma alternativa ao medo: “A gente tem que ser radicalmente vivo. Esse é o melhor antídoto contra o medo”.
A fala amplia o alcance do documentário para além da política. A obra relaciona o medo às escolhas individuais, às relações sociais, às crises ambientais e à maneira como a humanidade interpreta sua própria existência.
Trilogia da Catarse aborda dependência, tempo e insegurança
A trajetória de Sociedade do Medo está ligada aos dois documentários anteriores de Adriana L. Dutra. Em Fumando Espero, lançado em 2009, a cineasta transformou a própria luta contra o cigarro no ponto de partida de uma investigação sobre a dependência química e psicológica da nicotina.
O filme foi exibido na 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e inaugurou uma pesquisa sobre comportamentos e mecanismos que afetam a autonomia individual.
Em Quanto Tempo o Tempo Tem, de 2015, Adriana investigou a sensação de aceleração da vida contemporânea. A diretora percorreu diferentes cidades e analisou como as novas tecnologias, a globalização e a produção contínua de informações alteraram a percepção do tempo.
Com Sociedade do Medo, a cineasta desloca o foco para a insegurança e sua utilização como ferramenta de influência. Os três filmes compartilham o interesse por questões que atravessam a experiência humana e ajudam a compreender os comportamentos individuais e coletivos.
A liberação gratuita do longa permite que o debate alcance espectadores de diferentes países. Ao reunir depoimentos de especialistas de várias áreas, o documentário propõe uma reflexão sobre os mecanismos que transformam o medo em força política e social.
Onde assistir a Sociedade do Medo
O documentário está disponível gratuitamente na plataforma Inffinito Plus, acessível pela internet em qualquer lugar do mundo.
Serviço
- Filme: Sociedade do Medo.
- Direção e roteiro: Adriana L. Dutra.
- Produção: Inffinito.
- Coprodução: Globo Filmes, GloboNews, Canal Brasil e GNT.
- Onde assistir: Inffinito Plus.
- Acesso: gratuito.
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