Saturday, December 3, 2022

Crítica | Sra Harris vai a Paris

Sra Harris vai a Paris, é um filme dirigido por Anthony Fabian, adaptação do livro “Mrs Harris goes to Paris” por Paul Gallico. Nele acompanhamos uma faxineira na meia idade que, ao ver o vestido da marca Dior que uma de suas chefes têm, resolve economizar seu dinheiro para conseguir um também. É esse sonho de consumo que, embora possa-se dizer simples, irá levar Ada Harris (interpretada por Lesley Manville) em uma aventura digna de contos de fada.

Apesar de sua trama parecer bem boba e simples, o filme nos traz temas importantes para serem discutidos, principalmente em relação ao lugar social dos trabalhadores em uma sociedade de consumo. Ada Harris, é uma mulher que trabalha muito, fazendo também bicos e trabalhos extras para tentar alcançar seu sonho e, mesmo assim, ainda é uma pessoa “invisível”. Ninguém liga para ela, seus sonhos para a sociedade são a mesma coisa que nada, ou risíveis.

Além disso, vemos como ela está ali para servir os outros, sempre não podendo “esperar nada em troca”, o que faz com que, de forma consciente ou não, várias pessoas abusem de sua bondade de formas diferentes. Como um Patrão que vai enrolar para não pagar, um outro que simplesmente não liga para nenhum dos sentimentos dela e dá mais trabalho ao bagunçar tudo novamente, amigos que às vezes pedem pequenos favores inconvenientes ou que inicialmente não darão o apoio que ela precisa para realizar os seus sonhos.

Aliás, veja o trailer, e siga lendo:

Isso tudo é mostrado não só em relação a vida da protagonista, mas também daqueles que estão ao seu redor. Os trabalhadores são tratados e vistos, na maior parte do tempo, como substituíveis, descartáveis ou como se fossem lixo. Pessoas invisíveis que estão ali só para servir os mais ricos ou seus chefes. Os sonhos e desejos das classes pobres são a mesma coisa que nada. Isso fica claro no filme: Ada Harris, por ser de classe mais baixa o tempo todo, tem sua vida e sonhos sendo motivo de piada para os mais abastados. Como se ela, e todos os outros como ela, devessem só fazer seus trabalhos e aceitar tudo.

Apesar do longa demonstrar temas como esse, como exploração do trabalho, como a classe pobre é vista, e que, apesar de vários trabalhadores trabalharem para uma marca rica e famosa, ainda assim vivem como lixo; no máximo apenas com uma vida um pouco melhor do que uma “simples faxineira”. O filmes não se aprofunda nos seus temas propostos fazendo, na maior parte do tempo, uma caricatura superficial e dando a trama aquele ar de contos de fada. O que faz com que todos os problemas e conflitos, alguns até interessantes de se explorar, sejam resolvidos como mágica, o que acaba sendo bem bobo.

Não que isso seja de todo ruim; podemos inclusive discutir como essa visão de contos de fadas se realiza e de como o sonho dessa viúva se baseia em conseguir um vestido caro e como isso mostra o fetiche do consumo que se tem hoje em dia. De que o que somos é a partir do que consumimos, daí a necessidade de consumir e almejar consumos que muitas das vezes não são propositalmente planejados para os mais pobres; porém mesmo assim, ainda sentimos a necessidade de ter simplesmente por ter, sendo algo como um desejo vazio. Entretanto, já que o filme não parece querer se aprofundar ou mesmo realmente discutir tudo isso, o longa acaba meramente parecendo um conto de fadas de meia idade, o tipo versão açucarada que é feita para se aproveitar sem parar por um momento para pensar melhor na história; uma versão talvez fofa e engraçadinha da história de uma senhor viúva, faxineira, que ao conseguir comprar um vestido super caro, por esse motivo, de alguma forma milagrosa, consegue tocar o coração de várias pessoas e as transforma, sem nenhum motivo aparente, só porque o roteiro quer.

O filme não é de todo mau, mas também não é nada impressionante. Vale ressaltar que apesar desses problemas, o longa de certa forma consegue tocar para uma discussão, nem que seja rasa, sobre trabalho e fetiche do consumo, podendo ao menos ser um filme divertido de se assistir, que talvez divirta adoradores de contos de fadas e, talvez, sirva como combustível para gerar discussões futuras.

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