Dirigido por Jeremiah Kipp, The Mortuary Assistant é adaptação marcada por exposição, desconforto visual e uma sucessão de sequências que raramente atingem o impacto esperado de um bom terror.
Existe uma sensação recorrente ao longo da experiência: a de déjà vu. À medida que consumimos mais filmes, certos vícios tornam-se evidentes, e em certas produções como The Mortuary Assistant, eles aparecem sem qualquer sutileza. Em seus enxutos, mas arrastados 90 minutos, o longa acumula decisões equivocadas que comprometem ritmo, atmosfera e envolvimento emocional.
A protagonista, Rebecca, segue o já desgastado arquétipo da personagem traumatizada, cujo passado é constantemente sugerido, mas nunca devidamente construído. O espectador é convidado a aceitar sua dor sem realmente compreendê-la, o que enfraquece o impacto de seus conflitos. Esse problema se agrava em um ambiente que, embora visualmente promissor, carece de regras claras, tornando sua lógica interna confusa e, por vezes, arbitrária.

Cena de “The Mortuary Assistant”- Divulgação A2 Filmes
Baseado no jogo The Mortuary Assistant, o filme evidencia uma dificuldade comum em adaptações: compreender o que torna sua obra de origem eficaz. No videogame, a perspectiva em primeira pessoa e a interatividade criam uma imersão genuína: o jogador não apenas observa, mas participa ativamente da tensão crescente. Já no cinema, essa experiência se dilui. O que antes era envolvente se torna mecânico, preso a diálogos explicativos e a uma estrutura que prioriza o “dizer” em detrimento do “mostrar”, algo que prejudica todo o arco de possessão e demonologia.
Kipp tenta inserir temas como luto, vício e redenção, mas tais elementos acabam soterrados sob uma verborragia constante e pouco inspirada. Em vez de permitir que o espectador absorva e interprete, o filme opta por explicar excessivamente, quebrando o ritmo e esvaziando o impacto dramático.
No campo do terror, a produção opta por um caminho que merece distinção: o desconforto. Há uma diferença fundamental entre provocar medo e provocar repulsa, e The Mortuary Assistant se apoia majoritariamente na segunda opção. As cenas envolvendo tanatopraxia, corpos mutilados e detalhes gráficos são, sem dúvida, perturbadoras no momento em que acontecem, mas carecem de permanência. São imagens que chocam, mas não assombram.
Quando a narrativa avança para a possessão de Rebecca e seus conflitos internos ganham destaque, surge outro obstáculo: a ausência de conexão emocional. As visões de seu passado, que deveriam aprofundar a personagem, soam vagas e pouco desenvolvidas. Sem um contexto sólido, esses momentos tornam-se mais incômodos do que verdadeiramente impactantes.

Cena de “The Mortuary Assistant”- Divulgação A2 Filmes
Tecnicamente, o filme apresenta uma fotografia dominada por tons acinzentados e dourados, criando uma atmosfera coerente com o ambiente fúnebre. No entanto, a estética não compensa a falta de inventividade nas sequências. A constante troca de diálogos entre Rebecca e Raymond, este último com uma entonação quase monótona, reforça a sensação de que The Mortuary Assistant está mais preocupado em reproduzir mecânicas do jogo do que em traduzir sua essência para outra linguagem.
O resultado é uma experiência que parece mais longa do que realmente é. A sobrecarga de informações, somada à ausência de construção dramática eficiente, transforma o que deveria ser um terror ágil em uma narrativa cansativa.
No fim, The Mortuary Assistant deixa a impressão de uma oportunidade desperdiçada. Há elementos interessantes em sua premissa, mas a execução carece de identidade e compreensão do meio em que se insere. Diferente de adaptações que souberam reinterpretar seu material de origem, como Sonic, aqui a fidelidade superficial substitui a criatividade, e o resultado é um filme que pouco assusta, menos ainda permanece, e rapidamente se dissolve na memória.
Distribuído pela A2 Filmes, The Mortuary Assistant estreia nos cinemas em 09 de abril.
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