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Cena de "Toy Story 5"- Divulgação Walt Disney Studios Motion Pictures
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Toy Story 5’ é magia emocionante com gosto de epílogo

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 16 de junho de 2026
8 Min Leitura
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Cena de "Toy Story 5"- Divulgação Walt Disney Studios Motion Pictures
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Dirigido por Andrew Stanton, Toy Story 5 traz novo protagonismo e um olhar maduro sobre o futuro dos brinquedos. Mas, após tantos finais definitivos, ainda existe espaço para uma nova história?

Apesar de tropeços recentes da Pixar, se existe uma propriedade à qual o estúdio sempre pode recorrer para reconquistar o público e garantir uma forte bilheteria, essa é Toy Story. Embora a saga tenha encontrado um encerramento brilhante em Toy Story 3 (2010, Lee Unkrich), a franquia se expandiu com um quarto capítulo que ampliou seu universo e, agora, retorna para discutir uma questão inevitável: em uma era dominada pela tecnologia, ainda existe lugar para os brinquedos tradicionais?

A resposta vem através de Jessie. A escolha da vaqueira como protagonista é particularmente acertada, afinal, poucos personagens compreendem tão bem o medo do abandono quanto aquela que protagonizou uma das histórias mais emocionantes de Toy Story 2 (1999, John Lasseter). Em um mundo cada vez mais conectado por telas, Jessie se torna a personagem ideal para explorar sentimentos de obsolescência, pertencimento e mudança.

Seu arco é, sem dúvidas, o coração do filme. O problema está no tratamento dispensado aos demais personagens. Embora praticamente todo o elenco clássico esteja presente, muitos dos brinquedos acabam limitados a comentários pontuais e momentos de alívio cômico, distantes da relevância individual que demonstraram em produções anteriores.

Cena de "Toy Story 5"- Divulgação Walt Disney Studios Motion Pictures

Cena de “Toy Story 5”- Divulgação Walt Disney Studios Motion Pictures

Essa dificuldade também afeta parte do trio principal. O retorno de Woody, por exemplo, levanta questionamentos sobre sua real necessidade dentro da narrativa. Seu arco já havia alcançado uma conclusão satisfatória, e sua participação aqui parece existir mais por obrigação do que por demanda dramática.

Buzz Lightyear enfrenta um problema semelhante. Desde o filme anterior já existiam indícios de que os roteiristas tinham dificuldades para encontrar novos caminhos para o personagem, algo que Toy Story 5 evidencia ainda mais. O patrulheiro espacial, antes definido por sua determinação e senso de propósito, passa grande parte da trama reagindo aos acontecimentos e desenvolvendo um arco ligado principalmente aos seus sentimentos por Jessie.

Ainda assim, o filme demonstra que Buzz permanece um dos personagens mais ricos da franquia quando recebe material à altura. A trama envolvendo diversos bonecos Buzz em busca do Comando Estelar e descobrindo por conta própria o que significa ser um brinquedo está entre os maiores acertos do roteiro, retomando de forma criativa e emocional os temas centrais do primeiro filme.

É justamente nesse contexto que somos apresentados aos “antagonistas” da produção: os brinquedos tecnológicos.

Aqui reside uma das decisões mais inteligentes de Andrew Stanton. Ao contrário do que o material promocional sugeria, Toy Story 5 se recusa a transformar a tecnologia em vilã. Lily Pad, o tablet que inicialmente parece representar uma ameaça ao grupo, deseja exatamente o mesmo que Jessie e os demais brinquedos: ajudar Bonnie a superar sua solidão e encontrar felicidade.

Cena de "Toy Story 5"- Divulgação Walt Disney Studios Motion Pictures

Cena de “Toy Story 5”- Divulgação Walt Disney Studios Motion Pictures

Na prática, Toy Story 5 não apresenta um vilão. A tecnologia não é encarada como uma força destrutiva, mas como uma evolução inevitável. O conflito nasce da dificuldade dos personagens em encontrar seu lugar dentro desse novo cenário, e não da existência da tecnologia em si.

Essa percepção conduz a jornada de Jessie. Sua grande descoberta não é como combater as mudanças, mas como aceitá-las. A ideia de que tudo eventualmente se transforma não é inédita dentro da franquia, mas raramente foi trabalhada com tanta sensibilidade. Quando a personagem admite o medo de continuar amando alguém apenas para ser abandonada novamente, o filme alcança alguns de seus momentos mais emocionantes.

Entre os novos personagens, Rolinho e Lily Pad se destacam. Na versão brasileira, Rafael Infante entrega uma performance carismática e bem-humorada, capturando perfeitamente a leveza do personagem. Já Maisa Silva enfrenta mais dificuldades ao interpretar Lily Pad. Embora a personagem possua um arco interessante, sua voz carece de nuances emocionais em momentos fundamentais da narrativa, reduzindo parte do impacto dramático que a história busca construir.

Tecnicamente, Toy Story 5 representa mais um avanço impressionante da Pixar. O nível de detalhamento alcançado pela animação é extraordinário: texturas, iluminação e desgaste dos brinquedos conferem uma sensação de realismo raramente vista no gênero.

Paradoxalmente, os momentos visualmente mais marcantes não surgem desse hiper-realismo, mas das sequências ambientadas na imaginação de Bonnie. Utilizando uma estética inspirada em aquarela e giz de cera, o filme recupera uma sensação de fantasia que contrasta com a busca cada vez maior do estúdio por uma representação realista do mundo.

Essas cenas funcionam como um lembrete do potencial artístico ainda pouco explorado pela Pixar. Mais do que impressionar tecnicamente, elas encantam pela capacidade de traduzir visualmente a criatividade infantil que sempre esteve no centro da franquia.

Cena de "Toy Story 5"- Divulgação Walt Disney Studios Motion Pictures

Cena de “Toy Story 5”- Divulgação Walt Disney Studios Motion Pictures

Ao final, Toy Story 5 deixa uma sensação curiosa. Parte de suas reflexões sobre tecnologia e propósito já havia sido explorada no curta Toy Story: Esquecidos pelo Tempo (2014, Steve Purcell), e é impossível ignorar que tudo produzido após Toy Story 3 inevitavelmente carrega o peso de existir depois de um encerramento perfeito.

Ainda assim, seria injusto reduzir o filme a uma continuação desnecessária. Existe um cuidado genuíno na construção de sua narrativa, especialmente na jornada de Jessie, que assume uma das histórias mais pessoais e emocionalmente complexas de toda a série.

Talvez a pergunta correta não seja se Toy Story 5 precisava existir. A própria franquia oferece a resposta: algumas histórias não retornam porque precisam, mas porque ainda possuem algo a dizer. Felizmente, este é um dos casos em que a continuação encontra um propósito.

O verdadeiro desafio surge após os créditos. Um filme sobre aceitar mudanças e compreender quando um ciclo chega ao fim acaba reforçando uma questão que a própria Pixar parece evitar responder. Se os brinquedos aprenderam que crescer significa seguir em frente, talvez esteja chegando o momento de a franquia aprender a mesma lição.

Distribuído pela Walt Disney Pictures, Toy Story 5 chega aos cinemas em 18 de junho.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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