Dirigido por Pia Marais, Transamazônia estrutura retrato anticolonial da Amazônia, mas permanece apenas no limiar de seu verdadeiro potencial como retrato social
Mark Twain dizia que a história nunca se repete, mas rima. Os temas permanecem os mesmos, ainda que os detalhes mudem, e é exatamente por essa lógica que podemos enxergar Transamazônia, sobretudo quando observada por meio de um olhar colonialista.
Sob a perspectiva da diretora sul-africana Pia Marais, revisitamos um costume com o qual o Brasil convive desde os primeiros anos da colonização: a aculturação religiosa. Desta vez, ela surge na figura do missionário Lawrence Byrne e de sua filha Rebecca, uma jovem que sobrevive a uma queda de avião na floresta amazônica e, por isso, passa a ser vista como um milagre vivo, capaz de fazer pessoas voltarem a andar e até despertar pacientes em coma.

Helena Zengel e Hamã Sateré em cena de “Transamazônia”- Divulgação Filmes do Estação
À medida que pai e filha se envolvem em um conflito entre indígenas e madeireiros ilegais, a fama e o poder que os cercam começam a ser ameaçados, levando Lawrence a tomar atitudes que impactam diretamente sua relação com Rebecca.
A premissa de Transamazônia é rica e abre um amplo leque de possibilidades narrativas, especialmente quando consideramos sua envolvente fotografia, além das atuações sólidas que vão da jovem Helena Zengel ao brasileiro Rômulo Braga. No entanto, ao final, o filme apenas tangencia o que poderia ser uma discussão potente sobre moral, ética e o novo colonialismo que se estabelece em determinadas regiões do mundo, onde o lucro se torna a regra máxima e todo o resto, família, cultura ou o próprio planeta, passa a ser tratado como obstáculo.
Quando acompanhamos a ascensão de Rebecca como figura milagrosa e a maneira como Lawrence a utiliza como símbolo de sua igreja, somos levados a acreditar que esse será o eixo central da narrativa. Contudo, com a introdução do conflito envolvendo madeireiros e a tribo indígena que protege suas terras, o foco se desloca para fora. O embate interno entre a jovem “salvadora” e seu pai, sustentado por mentiras e segredos, poderia funcionar como espelho das ruínas causadas pela ganância humana, mas acaba sendo relegado a segundo plano.
Em entrevista durante o Festival do Rio, Pia Marais definiu a Amazônia como uma espécie de western contemporâneo, marcado por intrigas e relações conflituosas, onde uma árvore derrubada por um madeireiro pode sustentar uma família por meses. Essa lógica moral em tons de cinza está presente no filme, mas, ao evitar o aprofundamento em dicotomias clássicas do cinema, Transamazônia perde força dramática. Não se trata de transformar um lado em vilão absoluto, mas a hesitação excessiva faz com que a obra pareça vazia, como se permanecesse em cima do muro por tempo demais, afastando o envolvimento do espectador.

Helena Zengel em cena de “Transamazônia”- Divulgação Filmes do Estação
A fotografia imersiva de Mathieu de Montgrand, privilegiando luz natural e uma paleta de cores suaves, com destaque para o branco e o verde, transforma o filme em uma ode visual à floresta. Ainda assim, por trás dessa superfície esteticamente poderosa, encontra-se uma narrativa excessivamente dispersa. A história poderia ter se concentrado no trauma, nas perdas afetivas e na reconstrução do amor dentro das relações humanas, integrando com mais coesão temas como religião e anticolonialismo, porém, a disputa entre madeireiros e indígenas ocupa um espaço que dilui essas questões centrais, sem explorá-las em profundidade.
Ao final, Transamazônia deixa diversas pontas soltas, incluindo personagens secundários que aparecem e desaparecem rapidamente, e encerra sua narrativa de forma abrupta, oferecendo reflexões sobre identidade e família que apenas roçam seu verdadeiro potencial, levando a uma obra que apresenta um olhar crítico sobre o colonialismo, mas que não consegue sustentá-lo plenamente dentro do universo que constrói.
Distribuído pela Filmes do Estação, Transamazônia é uma coprodução entre França, Alemanha, Suíça, Taiwan e Brasil e estreia nos cinemas em 8 de janeiro de 2026.
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