Dudamel e a Ópera de Paris | Entenda a trajetória do maestro venezuelano

No dia 16 de abril, a Ópera de Paris anunciou que Gustavo Dudamel será o novo Diretor Musical da casa. A notícia é recebida com uma certa surpresa e com grande entusiasmo. A casa de ópera parisiense é uma das mais importantes e tradicionais do mundo e traz o jovem maestro venezuelano, que é considerado um dos mais importantes da atualidade. Apesar da enorme badalação em torno de sua obra, a experiência de Dudamel com óperas é relativamente pequena, por isso a ponta de surpresa na nomeação. Mas por que é relevante para nós Dudamel como Diretor da casa de ópera de Paris?

Gustavo Dudamel nasceu em 1981 na Venezuela e desde cedo foi introduzido à música por seus pais que eram músicos e, principalmente, pelo aclamado e vitorioso programa de educação musical “El Sistema”. Em 1999, aos 18 anos, assume a direção musical da Orquestra Sinfônica Símon Bolívar, posto que mantém até hoje. Na direção da orquestra obteve visibilidade ao excursionar por diversos países. Juntamente com a visibilidade recebeu elogios e prêmios, que o catapultaram para o estrelato e reconhecimento mundial.

Início da fama

Em 2005, sua carreira toma uma guinada meteórica. Nesse ano debuta em diversas orquestras importantíssimas como  Orquestra Philharmonia, Orquestra Filarmônica de Israel, Orquestra Filarmônica de Los Angeles e Orquestra Sinfônica de Gotemburgo, nessas duas últimas Dudamel manteria um trabalho longínquo nos anos seguintes.  Ainda em 2005 Dudamel assina com a  Deutsche Grammophon, uma das principais gravadoras do gênero. Em 2009 assume a direção musical da Orquestra Filarmônica de Los Angeles, onde mantêm o cargo e possui contrato atá a temporada de 2026.

Além de tudo isso nesse meio tempo alçou vôos para uma integração da dita música clássica com o grande público. Por exemplo: regeu a composição de John Williams  na trilha sonora de “Star Wars: O Despertar da Força” e tocou em eventos como o Super Bowl acompanhando músicos pop como Coldplay, Beyoncé e Bruno Mars.

Dudamel e a Ópera

Dudamel é considerado um dos principais nomes da música sinfônica mundial, contudo não é conhecido por apresentações de óperas. Sua estréia no prestigiado La Scala de Milão foi em 2007, com Don Giovannni. Na própria Ópera de Paris debutou em 2017 com La Boheme. Em 2018 foi a vez de estrear no Metropolitan Opera House com Otello, de Verdi. Em geral suas performances não sofreram críticas negativas nem se destacaram positivamente, como acontece com suas performances sinfônicas.

Contudo, a empolgação é grande com as possibilidades de sua direção. Grandes maestros cresceram muito com a experiência à frente de casas de óperas. Dudamel já é um maestro impressionante e amado, a experiência nos palcos de ópera tende a aumentar ainda mais sua qualidade, e ainda nos apresentar mais profundamente sua visão da música dramática. Outra expectativa é que o regente traga obras mais recentes e diferentes do usual. Finalmente, é também interessante ver um diretor sul-americano nas mais tradicionais casas de ópera da Europa.

El Sistema

Dudamel é advindo da Venezuela, onde desde 1975 José Antonio Abreu mantém “El Sistema”, um programa de educação musical para jovens que é responsável por revelar muitos talentos da música clássica, sendo Gustavo Dudamel o mais bem sucedido deles. Já são mais de 45 anos de investimentos no programa de formação musical que abrange crianças de todas as classes sociais, principalmente as menos favorecidas. Durante todos esses anos, passando por diversos governos de ideologias diferentes, o projeto obteve apoio. Contudo, durante o governo de Hugo Chavéz o apoio fora especialmente enfatizado. Não por acaso Gustavo Dudamel tocou no funeral de Chavéz, mas também não poupou o governo da Venezuela de críticas em 2017, quando julgou necessário.

O modelo “El Sistema” mostrou-se extremamente eficaz para a criação de grandes músicos e profissionais da música, e igualmente eficaz como formação de seres humanos. Foi amplamente incentivado para afastar crianças de mazelas sociais, crimes e problemas com abuso de substâncias, sendo elogiado amplamente em escala mundial e reproduzido por uma infinidade de países, incluindo Portugal. Dudamel mostra seu apreço pelo Sistema, lamentou profundamente a morte de José Antonio Abreu em 2018 e mantém-se até hoje na direção da Orquestra Sinfônica Símon Bolívar, que reúne 220 orquestras jovens da Vanezuela. Dudamel considera a Orquestra Símon Bolívar sua família.

Lição

Assim o mundo da ópera espera grandes novidades sob direção de Dudamel. Os amantes de música sinfônica podem esperar um maestro ainda mais desenvolvido ao reger sinfonias. E finalmente o mundo deve perceber o sucesso de um sistema de ensino público de música, que tem benefícios em diversos campos. Benefícios principalmente culturais e sociais. O sucesso do “El Sistema” é espetacular e é  um exemplo a ser seguido. É um projeto longínquo e duradouro, que demorou a colher frutos, mas que mostrou-se um dos projetos sociais e educativos mais eficientes do mundo. A relevância da nomeação de Dudamel vem do fato que isso mostra o sucesso do investimento público em projetos sociais e educacionais. Essa é a lição que deve ser levada à frente.

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