Thursday, September 24, 2020

Philip Glass e “The Portrait Trilogy” | Einstein na praia e a revolução da ópera no século XX

INTRODUÇÃO –  Philip Glass e os retratos

Philip Glass é um dos meus compositores preferidos há algum tempo. Na verdade desde que comecei a me interessar pelo universo da música e da arte contemporânea. Suas estruturas sonoras minimalistas e repetitivas me chamaram atenção de cara. Aos poucos fui entendendo suas inspirações e referências.  É fortíssima a influência do Budismo e da música oriental em suas composições, principalmente da indiana e tibetana. Suas estruturas surgem como mantras, e muitas vezes o são de fato, crescem, se misturam e movimentam-se de forma estonteante. Ao mesmo tempo que a música segue um conceito simples, aos ouvidos atentos se percebe uma grandiosidade e complexidade gigantesca, as mudanças de tempo, as transições que acontecem lentamente, transmitindo uma mudança continuada. Ou seja, a mudança acontece aos poucos, pacientemente, ao ponto de não se percebê-la.

A música é sinestésica, como se fosse capaz de conduzir à pensamentos, seguindo uma funcionalidade meditativa. É fácil perceber formas, texturas e sensações em suas obras. E essa musicalidade é experimentada nessas composições operísticas tão singulares da chamada “Portrait Trilogy” que pretende trazer um retrato da ideia que Glass tem de algumas personalidades históricas. As Óperas são as três primeiras de seu vasto currículo operístico, chamam-se Einstein on the beach, Satyagraha e Akhnaten.

Primeiramente, a linha na qual essas obras se unem é que são óperas que pretendem traçar retratos de personalidades que, segundo Glass, revolucionaram áreas do pensamento, da humanidade e de seu tempo, pelo poder das ideias e não das armas. Concentrou-se em três áreas, a ciência, a política e a religião, respectivamente Albert Einstein, Mahatma Gandhi, e Akehnatem. Contudo, não são biografias, mas sim retratos, fragmentos da vida e da obra de algumas personalidades históricas.

Personalidades

A primeira personalidade retratada por Glass é o físico Albert Einstein, na experimental Einstein on the beach. O físico era uma figura importante da ciência, e que gozava de fama durante os anos da infância do compositor. Einstein criou a teoria da relatividade, um dos pilares da física moderna, e teve grande importância na filosofia da ciência. Talvez por isso um tema querido para Glass, afinal, o compositor graduou-se em matemática e filosofia no fim dos anos 50. Einstein possui uma biografia conhecida, portanto Glass e Robert Wilson (coautor de Einstein on the beach) não se preocuparam muito em explicar sua vida, mas sim em incluir elementos de seus pensamentos na obra, características de sua vida, metáforas queridas do físico.

Gandhi é o tema da segunda obra. Indubitavelmente, uma personalidade muito admirada pelo compositor. Aliás, foi para Glass uma inspiração política por conta de sua luta por liberdade e contra injustiças. Especialmente por conta do método de resistência pacífica por ele criado e nomeado Satyagraha (não por acaso o nome da ópera). Tal método esse que embasou toda sua luta e acompanhou-o em sua vida tanto na Índia, como antes quando ainda estava na África do Sul, onde se passa a ópera, e desenvolveu esse pensamento. Justamente por ser um tema muito querido do compositor, a obra traz uma sensibilidade enorme, uma preocupação em transmitir o que teria sido o pacifismo como “arma” de revolução política.

Akehnatem

Akhnaten é a terceira e última obra. Faz o retrato “glassiano” do Faraó Akehnatem, da XVIII dinastia do Egito e reinou por 17 anos. Primeiramente conhecido como Amenotepe IV, mudou seu nome quando intensificou o culto ao deus Aten. Akehnatem, juntamente com sua esposa Nefertiti, teria sido responsável por impor uma espécie de “monoteísmo” no império egípcio. Na realidade, nunca houve um real monoteísmo, mas sim uma crença de Superioridade do “Deus Sol” em culto praticado por parte da família real do império como resposta política ao culto de Amun que crescia e se tornava muito forte.[i] A visão de Glass sobre Akehnaten é mais romântica do que a realidade, até um pouco fantasiosa. Enfatiza uma “revolução” religiosa, que teria trazido um pensamento pioneiro com o suposto monoteísmo. Independentemente da profundidade da revolução religiosa de Akehnaten, Glass traça uma bonita história em sua obra.

Aliás, conheça um pouco mais de samba também:

RETRATO I : Einstein on the beach

A primeira obra da trilogia é Einstein on the beach. Definitivamente essa obra não é unanime.  Há quem ame, quem odeie, e até quem não a reconheça como uma ópera. Sem dúvidas é – de longe – a mais experimental das três, a que quebrou mais paradigmas e preparou terreno para uma nova geração artística. Por isso é tão difícil e fascinante falar sobre ela. Enstein on the beach surgiu do encontro de Philip Glass com o diretor e produtor teatral Robert Wilson. Foi composta entre 1974 e 1975, estreando em 1976 e desde o início mostra-se diferente do que é habitual numa ópera. É uma obra conjunta, desde o início da ideia, Glass e Wilson trabalharam juntos na escolha do tema que iriam retratar.

Era consenso que fariam uma obra inspirada em uma personalidade, porém as visões eram conflitantes. Enquanto Wilson queria retratar personalidades militares e propôs Adolf Hitler; Glass buscava exatamente o contrário, queria enfatizar personalidades que promoveram revoluções sem utilizar-se de força militar, e propôs Mahatma Gandhi. Enfim, chegaram num consenso: Albert Einstein, figura excêntrica, instigante e que possibilitava a experimentação que os dois buscavam.

Desenhos conceituais

O que acontece normalmente em uma ópera é o libretista preparar o texto, e o compositor debruçar-se sobre esse texto e criar a música, musicá-lo. Existe exceções, como o grandioso Richard Wagner, que escrevia os libretos, que chamava de poemas, e musicava-os. Mas Glass e Wilson não trabalhavam de forma convencional. Wilson preparava desenhos conceituais dos cenários e do rumo visual que pretendia dar à obra. Então, passava esses desenhos à Glass que por sua vez sentava-se ao piano e compunha a música para seguir os desenhos e conceitos. Apesar de ser a primeira experiência na criação de uma ópera, Glass já trabalhara com teatro, e interessava-se muito por artes plásticas. Sua música sempre conversou com as imagens, mostrando-se visual.

Trio Criativo

Posteriormente entra uma terceira personagem que passa a ser protagonista na composição da obra, Lucinda Childs. Einstein on the beach foi a primeira obra da coreógrafa em teatros convencionais e em parceria com um compositor, anteriormente costumava trabalhar sem música e em palcos alternativos, muito envolvida com movimentos de vanguarda na dança. Childs foi fundamental para a ópera, sua complexa coreografia minimalista encaixou-se perfeitamente com a música de Philip e com a direção de Wilson, que previa movimentos em “slow motion”. A união criativa dos três teve resultado nessa obra tão singular e revolucionária.

É interessante ressaltar que Philip, Robert e Lucinda eram todos artistas extremamente interessados em arte contemporânea, experimental, e principalmente em arte que não se limitasse à um único meio, mas que conversasse com vários. Os três eram, e continuaram sendo, artistas multimídias, interessados em assuntos diversos e formas de expressão que não fossem limitadas. Todos tinham visões políticas e um certo ativismo artístico, preocupavam-se em transmitir toda essa pluralidade em suas artes.

Além disso, os três pensavam a estrutura e forma de maneira similar. A ópera é o resultado real de uma colaboração bem sucedida. Eram fãs dos trabalhos um dos outros e encontravam-se em um mesmo momento da carreira. Todos três trabalhavam com arte desde muito cedo e estavam atingindo a maturidade em suas áreas profissionais. Podemos ver Einstein on the beach como resultado desse trabalho anterior , porém podemos ver também como início do período de maturidade artística deles, uma obra seminal para suas carreiras e que revolucionou a ópera em si, abrindo caminhos diversos a serem trilhados.

Enredo

Uma das questões que mais incomoda os críticos de Einstein on the beach é a famigerada pergunta: “Mas qual é a história? Do que se trata?” A resposta é um tanto frustrante para quem procura tópicos objetivos ou para quem não está disposto à mergulhar na abstração. Na verdade, a peça não se propõe a criar uma narrativa fechada. Trata-se de um passeio pelo espaço tempo, transita pela obra de Einstein, inspirando-se livremente em suas teorias para posicionamentos de palco, conceito de imagem e estrutura de movimentos. Cria metáforas que conversam a todo tempo com a obra científica e biográfica de Einstein[ii]. Faz alusão à desdobramentos e usos das teorias do físico, possíveis consequências, como a bomba atômica e todo o pavor que a cerca.

Apocalíptico

O título faz referência ao romance pós apocalíptico “On the beach” escrito em 1957 por Nevil Shute, autor britânico radicado na Austrália, onde se passa o romance que ilustra a chegada de um apocalipse causado por uma guerra nuclear. Não devemos esquecer que na década de 1970 o mundo vivenciava a Guerra Fria, o medo de um conflito nuclear entre EUA e URSS era real. Os temas abordados são muitos, e os criadores esperam que o espectador seja também responsável por dizer do que se trata a ópera, essa participação do espectador tem também influência de John Cage, que já experimentava com a participação do expectador em suas obras, e de quem todos três eram admiradores[iii].

Em momento nenhum tentam biografar o cientista de maneira convencional, a ópera propõe uma visão sobre Einstein e suas teorias, não uma biografia. Em uma palestra na Universidade de Berkeley, Robert Wilson comenta sobre a questão de entender o que foi dito; ele afirma que diferentemente da maior parte das peças teatrais, tudo bem ficar perdido em Einstein on the beach, não há a “obrigação” de entender tudo a todo momento. Continua afirmando que se você sabe o que está fazendo, não há razão para fazer, que é importante que ao sair do teatro o espectador possa continuar a pensar no que ele viu, e possa tirar suas próprias conclusões[iv].

Música e Libreto

Em 1974 Glass estava com 37 anos, nesse momento já não era um novato, havia tido muitas experiências nos EUA, na Europa e Índia , estudou com grandes nomes da música e compôs grandes obras, que em sua maioria seguiam um caminho diferente tanto da música ocidental tradicional como das vanguardas que predominavam nos anos 1950 e 1960 como as experimentações eletrônicas de Karlheinz Stockhausenou da música concreta de Pierre Schaeffer. Mas a influência da música de Schoenberg e John Cage era explícita em sua obra, assim como a música oriental. Junto de Steve Reich, seu colega de classe na Julliard School of Music, foi o nome mais importante do que ficou conhecido como minimalismo. Assim, estava com um caminho traçado para impor seu nome no mundo da música.

Einstein on the beach foi um novo início. Já havia composto música para teatro, obras para piano e música de câmara, mas foi aqui sua primeira ópera, e não pararia mais tornando-se um prolífico compositor de óperas. A obra tem 4 atos com interlúdios que Glass chamou de Knee play, traduzindo seria algo como joelho, que faria a ligação entre os atos, a introdução e a conclusão. Os “Knee play” são extremamente necessários para as trocas de cenário e modificações no palco,  pois apesar de ter quatro atos e durar em torno de quatro horas e meia, a obra não possui intervalos. Por esse motivo o público é incentivado a movimentar-se livremente, deixando o espetáculo para pausas por conta própria.

Ensemble

Os instrumentos não são convencionais. Pensado para ser executada pela Philip Glass Ensemble, Coro e Violino solo ( a personagem Einstein), a utilização de sintetizadores traz um som diferente para os acostumados com orquestras tradicionais. A música transita em estruturas repetitivas, como é habitual na obra de Glass, e o coro canta na maior parte do tempo solfejos e Números, como uma contagem de tempo, Glass brinca com os números e com o tempo, com mudanças e variações que criam efeitos hipnóticos e rápidos, que contrastam com a movimentação dos atores e dançarinos que se movem lentamente no palco, cria uma ambientação por vezes contemplativa, e por vezes confusa.

Os trechos com letra, fragmentos de poesias, são recitadas, não cantados, como é o hábitual em óperas. Glass e Wilson assinam o Libreto, que conta com poemas  e escritos do poeta americano Christopher Knowles e da coreógrafa Lucinda Childs que compôs, a pedido de Bob Wilson o cultuado trecho “Air-conditioned supermarket” algo como Super mercado com ar-condicionado em português.[v]

Montagens

A montagem original é de 1976. Estreou no Festival de Avignon na França, fez uma pequena turnê pela Europa e terminaram com duas noites no Metropolitan Opera House em Nova York em novembro desse ano. Desde então houve algumas encenações da obra, algumas delas com a presença dos idealizadores, outras sem. Em 1984 a Brooklyn Academy of Music fez uma montagem juntamente com o documentário “Einstein on the Beach: The Changing Image of Opera” sem tradução oficial, mas seria algo como “Einstein na praia: a mudança na imagem da Ópera”, foi a primeira vez que trechos da obra foram filmados [vi]. Em 1992 houve uma remontagem que contou com a presença dos três idealizadores.

Inclusive, a produção estreou na universidade de Princetown. Em seguida, fez uma turnê mundial que passou por cidades da Europa, Austrália e Japão, além dos Estados Unidos. Durante os anos 2000 houve uma montagem em formato de instalação que teve algumas apresentações na Alemanha, foi apresentada também em forma de concerto no Carnegie Hall em 2007.

Fracasso

Em 2012, depois de algumas tentativas fracassadas, finalmente o trio criador reuniu-se novamente para uma nova montagem. A primeira execução da obra, da forma que foi idealizada em vinte anos aconteceu em 20 de janeiro de 2012 na Universidade de Michigan. Em março do mesmo ano a produção entrou em uma turnê mundial que passou por diversos lugares e finalmente se encerrou em outubro de 2015 com apresentações na Coréia do Sul.

Durante essa turnê houve a primeira filmagem oficial da ópera na íntegra, que aconteceu em  janeiro de 2013 e ficou disponível em Streaming gratuitamente por 6 meses. Por acaso foi a primeira vez que tive a oportunidade de assistir. Posteriormente foi lançada em Blu-ray, mas hoje conseguimos vê-la no YouTube. Posteriormente houve montagem na Alemanha (2017) e Suíça(2019) foram as primeiras vezes que foi encenada, em formato de ópera, sem a participação nem de Glass nem de Wilson.

Na parte 2 comentarei um pouco sobre as duas óperas restantes que fecham a trilogia. Ademais, tentarei explicar a importância delas em conjunto para a carreira de Phillip Glass e da ópera do século XX. Quem se interessou tem a chance de assistir a obra completa no vídeo abaixo. Além dessa opção tem algumas gravações em áudio disponíveis nas principais plataformas de streaming.

Afinal, assista:

Imagem de capa: Philip Glass by Luis Alvarez Roure. 2016. Oil on board. Collection of the National Portrait Gallery of the Smithsonian Institution Washington, D.C. Fonte: https://commons.wikimedia.org/

[i] https://www.ancient.eu/Akhenaten/ para maiores informações e detalhes.

[ii] David Cunningham, “Einstein on the Beach” in Writings on Glass: Essays Interviews and Criticism. Edited by Richard Kostelanetz. (New York: Schirmer Books, 1997)

[iii] https://www.youtube.com/watch?v=e8Cx7XOYj_w Palestra de Philip Glass e Lucinda Childs em Berkley outubro de 2012

[iv] https://www.youtube.com/watch?v=k8iLOGPm7AY Palestra de Robert Wilson, Philip Glass e Lucinda Childs na universidade de Berkley em  novembro de 2012.

[v]https://static1.squarespace.com/static/5a96c9ee0dbda34913bde7f6/t/5a9881be652deaf710ef82fd/1519944126552/einstein_beach_libretto.pdf  libreto

[vi] O documentário já esteve na íntegra no YouTube, infelizmente hoje só se encontra trechos.

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