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Felipe Nunes explica o país no Provoca e livro Brasil no Espelho ajuda a entender quem somos

Cientista político e fundador da Quaest discute comportamento do eleitor, polarização e os desafios das pesquisas; obra publicada pela Globo Livros amplia a análise sobre as transformações da sociedade brasileira

Por Alvaro Tallarico
Última Atualização 28 de agosto de 2026
14 Min Leitura
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O Brasil que aparece nas pesquisas eleitorais é apenas uma parte de uma transformação muito maior. Para compreender o comportamento do eleitor, é preciso olhar também para os valores, medos, desejos, contradições e mudanças sociais que atravessam a população. É justamente esse exercício que o cientista político Felipe Nunes, fundador do instituto Quaest, propõe em Brasil no Espelho, livro publicado pela Globo Livros, que, inclusive, me enviou um exemplar.

A obra ganha ainda mais interesse diante da participação de Nunes no Provoca, programa da TV Cultura apresentado por Marcelo Tas. A edição inédita vai ao ar na terça-feira, 1º de setembro, às 22h30, e coloca em discussão temas que estão diretamente relacionados ao livro: política, comportamento eleitoral, polarização e a maneira como os brasileiros enxergam o próprio país.

Nunes apresenta no programa uma reflexão sobre um eleitorado que, segundo ele, está cada vez mais interessado em política, mas também mais identificado com suas próprias posições. Essa mudança ajuda a explicar algumas das dificuldades atuais para estabelecer um debate público menos marcado pela confrontação.

“As pessoas estão mais politizadas, mas também estão mais enviesadas, porque agora elas olham pro mundo a partir dessa identidade que elas carregam na cabeça”, afirma o cientista político.

A observação resume uma das questões centrais de Brasil no Espelho: compreender o brasileiro contemporâneo exige observar não apenas suas escolhas políticas, mas também as transformações sociais e culturais que modificaram a maneira como diferentes grupos percebem a realidade.

O que o livro revela sobre o brasileiro?

Em Brasil no Espelho, Felipe Nunes parte de uma ampla pesquisa para investigar como os cidadãos brasileiros se veem, o que pensam, o que temem e o que desejam.

O livro procura construir um retrato do país em transformação. A análise considera especialmente as mudanças ocorridas desde a onda de protestos de 2013, período que marcou uma nova etapa de intensas transformações sociais, políticas e culturais no Brasil.

A proposta não é simplesmente apresentar números ou produzir um diagnóstico eleitoral. A obra busca identificar crenças, valores e contradições que ajudam a formar a identidade coletiva brasileira.

É justamente aí que está uma das principais utilidades do livro. Ao observar o comportamento da sociedade para além das eleições, Brasil no Espelho pode ser interessante para quem trabalha com comunicação, marketing, política, pesquisa, gestão e desenvolvimento de políticas públicas.

O livro também procura estabelecer uma relação entre comportamento social e desenvolvimento nacional. A compreensão de como os brasileiros pensam e se comportam pode ajudar a identificar desafios e oportunidades para o país.

A própria apresentação da obra destaca que esse conhecimento pode contribuir para políticas públicas, negócios e decisões relacionadas ao futuro do Brasil.

A participação de Felipe Nunes no Provoca ajuda a contextualizar uma das questões que mais aparecem quando seu trabalho é discutido: afinal, qual é o papel de uma pesquisa eleitoral?

Para o fundador da Quaest, a função das pesquisas não é simplesmente prever quem vencerá uma eleição.

“O papel das pesquisas eleitorais não é acertar resultado”, afirma Nunes.

Ele explica que uma pesquisa não deve ser compreendida como uma aposta sobre o futuro. “Eu não tenho bola de cristal, não faço futurologia”, diz.

A ideia está diretamente relacionada à proposta de seu trabalho como cientista político: interpretar o comportamento do eleitor e acompanhar as mudanças de atitude durante o processo eleitoral.

Nesse sentido, Brasil no Espelho oferece uma perspectiva mais ampla do que aquela normalmente associada às pesquisas eleitorais. Em vez de olhar apenas para a disputa entre candidatos, a obra procura entender as pessoas que formam esse eleitorado.

Isso torna a leitura particularmente relevante em um período de transformações rápidas na sociedade brasileira, em que opiniões políticas também passaram a fazer parte da identidade de muitos cidadãos.

Inclusive, o livro aborda o crescimento dos evangélicos e sua força cada vez maior na política, algo que se alinha com outro livro recebido por mim, da Editora Planeta: O Brasil dos Evangélicos, do antropólogo Juliano Spyer.

A leitura de Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, ganha uma dimensão ainda mais interessante quando colocada em diálogo com O Brasil dos Evangélicos, de Juliano Spyer. Embora os autores adotem perspectivas diferentes, os dois procuram compreender um país que passou por profundas transformações sociais, culturais e políticas. Nunes apresenta um retrato amplo do brasileiro contemporâneo, investigando seus valores, comportamentos, medos e desejos, enquanto Spyer concentra sua análise no crescimento evangélico e no impacto desse fenômeno sobre a sociedade brasileira.

O paralelo é especialmente relevante porque a expansão das igrejas evangélicas não representa apenas uma mudança religiosa. Ela também está relacionada a novas formas de pertencimento, organização comunitária, comportamento e participação política. Nesse sentido, O Brasil dos Evangélicos ajuda a aprofundar uma dimensão importante do Brasil que aparece de maneira mais abrangente em Brasil no Espelho: a influência das identidades na maneira como as pessoas interpretam o mundo. Assim como Nunes questiona a ideia de um eleitor brasileiro homogêneo, Spyer chama atenção para a diversidade existente dentro do próprio universo evangélico, evitando reduzi-lo a uma única posição política ou social.

Colocados lado a lado, os dois livros oferecem perspectivas complementares para quem deseja entender o Brasil atual. Brasil no Espelho funciona como um retrato mais amplo das transformações da sociedade, enquanto O Brasil dos Evangélicos aproxima a lente de um dos fenômenos demográficos e culturais mais importantes das últimas décadas.

A leitura conjunta mostra que compreender o brasileiro exige olhar além das eleições e das pesquisas de intenção de voto, considerando também comunidades, valores, identidades e experiências que ajudam a explicar por que o país mudou e por que seus cidadãos passaram a enxergar a realidade de maneiras cada vez mais diversas.

“As ideias têm que brigar, não as pessoas”

Aliás, outro ponto abordado por Felipe Nunes no Provoca é a dificuldade de separar divergência política de violência.

Para o cientista político, o Brasil precisa recuperar a capacidade de conviver com opiniões diferentes. A democracia pressupõe conflito de ideias, mas esse conflito não deveria necessariamente transformar adversários políticos em inimigos pessoais.

“A gente está confundindo debate político com violência”, afirma.

Nunes resume sua posição em uma frase: “as ideias têm que brigar, não as pessoas”.

A reflexão dialoga com o próprio propósito de Brasil no Espelho. Ao colocar diferentes características do brasileiro diante do leitor, o livro também permite observar como crenças e identidades podem influenciar a forma como cada pessoa interpreta acontecimentos políticos e sociais.

Por que Felipe Nunes não vota?

Durante a entrevista, o cientista político também revela uma decisão pessoal pouco comum: segundo ele, não vota desde que fundou a Quaest.

A escolha estaria relacionada à preocupação com a isenção de seu trabalho. Nunes afirma que busca evitar até mesmo o esforço mental relacionado à escolha de um candidato.

“A melhor maneira de você praticar aquilo que eu defendo, que é isenção, independência e neutralidade, é não fazendo o esforço mental de ir votar”, explica.

A declaração acrescenta uma dimensão pessoal à discussão sobre pesquisa eleitoral e neutralidade. Ao mesmo tempo, reforça a preocupação apresentada por Nunes em separar sua atuação profissional da preferência política individual.

Quem é Felipe Nunes?

Felipe Nunes é Ph.D. em ciência política e mestre em estatística pela UCLA, além de professor da Escola de Economia da FGV-SP.

É sócio-fundador da Quaest e coordenou centenas de pesquisas eleitorais, além de estudos voltados para mercado, reputação, consumo e comportamento.

O pesquisador também é especialista no monitoramento de redes sociais e inventor do Índice de Popularidade Digital (IPD), utilizado por empresas para acompanhar imagem e reputação digital.

Segundo as informações disponibilizadas sobre o autor, Nunes também entrou para a lista da revista Washington COMPOL como um dos 100 consultores políticos mais influentes do mundo.

Ele é ainda coautor do best-seller Biografia do Abismo e atua como consultor de governos, bancos, empresas de mídia e varejo.

A principal força de Brasil no Espelho está justamente em não limitar sua discussão ao ambiente político.

O livro pode ser lido como uma tentativa de compreender o brasileiro a partir de seus comportamentos e das mudanças que ocorreram no país nas últimas décadas. Para profissionais de comunicação, por exemplo, compreender essas transformações pode ajudar a interpretar melhor públicos, discursos e mudanças de comportamento.

Para quem trabalha com política, a obra oferece uma perspectiva sobre o eleitor que vai além das intenções de voto. Para empreendedores e profissionais de marketing, a análise ajuda a observar mudanças nos hábitos, valores e expectativas dos consumidores.

E para o leitor interessado em entender o próprio país, existe uma questão ainda mais básica: o que revela o espelho quando o Brasil olha para si mesmo?

O título parte justamente dessa provocação.

A cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida resume a proposta ao afirmar que Felipe Nunes coloca o país diante de um espelho que não apresenta uma imagem única, mas múltiplas imagens, como em um caleidoscópio.

Já o economista Eduardo Giannetti destaca que a obra revela, por meio de números, uma questão fundamental: ao olhar para o espelho, muitas vezes o brasileiro não se reconhece.

A jornalista Flávia Oliveira considera o livro uma espécie de bússola para um Brasil marcado por desinformação e ameaças de retrocesso. O ex-presidente do Banco Central e ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles também destaca a importância da obra para compreender onde o país está, seu potencial, seus desafios e onde pode chegar.

Brasil no Espelho é útil para quem quer entender o Brasil atual

Na minha concepção, mais do que um livro sobre eleições, Brasil no Espelho procura explicar quem é o brasileiro contemporâneo.

Essa abordagem faz com que a obra seja útil para diferentes públicos. Estudantes e pesquisadores encontram uma análise baseada em pesquisa. Profissionais de comunicação e marketing podem utilizar as informações para compreender transformações de comportamento. Empreendedores podem encontrar elementos para pensar consumidores e mercados. E leitores interessados em política e sociedade podem ter acesso a uma interpretação mais ampla das mudanças pelas quais o Brasil passou.

A publicação também ganha força por aproximar pesquisa acadêmica e questões presentes no cotidiano. Afinal, temas como polarização, identidade política, comportamento nas redes sociais, desinformação e mudanças sociais não estão restritos às universidades ou aos institutos de pesquisa.

Eles aparecem diariamente nas relações pessoais, no trabalho, na comunicação e nas escolhas dos brasileiros.

Nesse sentido, o programa Provoca e o livro Brasil no Espelho se complementam. Enquanto a entrevista apresenta Felipe Nunes discutindo algumas dessas questões de maneira direta com Marcelo Tas, a obra permite aprofundar a investigação sobre o país e sua população.

Serviço

Programa: Provoca
Entrevistado: Felipe Nunes
Apresentação: Marcelo Tas
Exibição: terça-feira, 1º de setembro
Horário: 22h30
Emissora: TV Cultura

Livro: Brasil no Espelho
Autor: Felipe Nunes
Editora: Globo Livros
Gênero: Não ficção
Páginas: 224
Formato: 16 cm x 23 cm
ISBN: 9786559873081
Preço do livro impresso: R$ 69,90
E-book: R$ 54,90
E-ISBN: 9786559872923

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Jornalista especializado em Jornalismo Cultural pela UERJ com experiência em Jornalismo Esportivo. Autor dos livros "O que é Arte? Com a palavra, o artista", "A Paulistana de Ganesha", e outros.

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