A chegada de Filhos de Sangue e Osso aos cinemas em 2027 acontecerá sem uma espectadora bastante particular: Tomi Adeyemi, autora do livro que deu origem ao filme. Em entrevista ao The Guardian, a escritora voltou a falar sobre o processo de adaptação e afirmou que não pretende assistir à produção.
Adeyemi foi direta ao explicar por que decidiu se afastar desse tipo de projeto. Para ela, existe uma diferença fundamental entre escrever um livro e transformá-lo em filme. Na literatura, a autora mantém o controle sobre praticamente todas as decisões criativas.
“Com meu livro, posso falar sobre cada escolha, até as vírgulas, porque isso está realmente nas minhas mãos”, afirmou.
No cinema, segundo Adeyemi, a dinâmica é outra. “Com um filme, o diretor toma todas as decisões”, disse a autora, destacando que isso inclui a escolha dos atores.
A escritora também fez questão de esclarecer que os intérpretes escolhidos para o longa não foram suas escolhas. “Não tenho nada a acrescentar, além da clareza de que essas não são minhas escolhas”, afirmou.
A declaração ganha peso porque Filhos de Sangue e Osso é uma obra particularmente importante na trajetória de Adeyemi. Publicado em 2018, o romance foi seu primeiro livro e rapidamente chegou ao topo da lista de mais vendidos do New York Times.
A história acompanha Zélie Adebola, uma jovem que vive em Orïsha, reino onde a magia foi eliminada. Sua jornada envolve a tentativa de recuperar os poderes de seu povo e enfrentar as estruturas que contribuíram para a destruição dessa tradição.
O sucesso deu origem a outros dois livros: Filhos de Virtude e Vingança e Filhos de Angústia e Anarquia, que completaram a trilogia Legacy of Orïsha. Os dois também alcançaram as listas de mais vendidos.
A experiência com a versão cinematográfica foi suficiente para Adeyemi estabelecer um limite para seus próximos trabalhos.
“Nunca adaptarei um dos meus livros novamente”, declarou.
A autora também afirmou que não pretende assistir a Filhos de Sangue e Osso quando o filme chegar aos cinemas. “Ainda não planejo assistir, mas não cabe realmente a mim assistir”, disse.
O posicionamento é resultado de um processo que começou anos atrás e passou por diferentes estúdios. Disney e Lucasfilm chegaram a estar envolvidos no desenvolvimento da adaptação.
Adeyemi tentou participar de maneira mais ativa da produção, inclusive trabalhando no roteiro. O processo, porém, não avançou da maneira esperada pela escritora. Ela também se mostrou frustrada com a demora no desenvolvimento do projeto.
Posteriormente, a Disney deixou os direitos da adaptação, e a Paramount Pictures assumiu o filme. Adeyemi recebeu a oportunidade de atuar como produtora executiva e trabalhar no roteiro, que depois foi refinado pela diretora Gina Prince-Bythewood.
A pressão de ser uma autora negra de sucesso
As dificuldades com o filme aconteceram em meio a uma pressão maior que Adeyemi carregava desde o sucesso do primeiro livro.
A escritora contou que sentia a expectativa de ser uma espécie de modelo perfeito para outras mulheres negras de pele escura que buscavam espaço na literatura.
“Eu sentia a pressão para ser a garota negra de pele escura perfeita, para ser ‘boa o suficiente para a Oprah’”, afirmou.
Adeyemi explicou que o tamanho do sucesso de Filhos de Sangue e Osso tornou essa responsabilidade ainda maior. Segundo ela, o livro representava uma oportunidade rara em uma indústria que historicamente oferece poucas oportunidades para autores negros.
“Este foi o maior acordo de livros para jovens adultos da história, não apenas para uma mulher ou uma autora negra”, disse.

A autora também relatou que passou anos trabalhando intensamente e sentindo que ainda havia muito a fazer.
“Por 12 anos houve essa sensação de carregar todo mundo”, afirmou. “Eu nunca realmente me ajustei, porque ainda havia muito trabalho a fazer.”
Foi nesse contexto que Tomi Adeyemi decidiu se manifestar publicamente sobre o processo de adaptação.
“Entendi que, se não falasse, não conseguiria seguir em frente”, explicou.
Ela reconheceu que sabia que sua posição poderia provocar diferentes reações, mas decidiu priorizar o próprio bem-estar.
“Não preciso viver com a forma como as pessoas respondem a mim. Preciso viver comigo mesma todos os dias”, afirmou.
Adeyemi não revelou todos os detalhes que levaram ao rompimento com a produção. Segundo a autora, toda a trajetória da trilogia e da adaptação acabou assumindo uma dimensão extremamente desgastante.
“Toda a jornada da trilogia e da adaptação pareceu bíblica. Isso tomou tudo de mim”, declarou.
A adaptação de Filhos de Sangue e Osso tem Amandla Stenberg no elenco e reúne outros nomes conhecidos do cinema e da televisão.
Viola Davis, Chiwetel Ejiofor, Regina King, Idris Elba, Damson Idris, Cynthia Erivo e Thuso Mbedu também participam do filme.
O elenco inclui ainda Tosin Cole, Lashana Lynch, Zackary Momoh e Richard Mofe-Damijo.
Gina Prince-Bythewood dirige a produção e também trabalhou no roteiro desenvolvido a partir da obra de Adeyemi. Entre os produtores estão Wyck Godfrey, Marty Bowen, Karen Rosenfelt e Matt Jackson.
A relação entre Adeyemi e Amandla Stenberg também se tornou pública durante o processo. A autora chegou a divulgar mensagens privadas enviadas à atriz, questionando a maneira como seu nome havia sido utilizado em discussões relacionadas ao projeto.
Apesar das controvérsias, o filme segue seu cronograma de lançamento. Filhos de Sangue e Osso chega aos cinemas em 15 de janeiro de 2027 e promete muito. As expectativas são altas.
Para Tomi Adeyemi, porém, a estreia será acompanhada à distância. A autora já deixou claro que não pretende assistir à adaptação de sua própria história.
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