A Nike atravessa uma das fases mais delicadas de sua história. A gigante americana deixou o índice S&P 100 após 18 anos, viu suas ações chegarem a níveis próximos aos registrados em 2013 e anunciou uma nova rodada de mudanças estruturais para tentar recuperar crescimento.
O momento chama atenção também no futebol brasileiro. Desde 2026, a Nike é a fornecedora de material esportivo do Vasco, em um contrato que vai até 2032 e possui uma estrutura diferente dos acordos tradicionais: não há valor fixo de patrocínio, e uma parcela importante da remuneração do clube está vinculada às vendas de produtos.
Isso não significa, porém, que a crise da Nike represente atualmente uma ameaça contratual ao Vasco. Não há informação de mudança ou rompimento do acordo. O ponto relevante é outro: enquanto a empresa tenta recuperar sua força global, o desempenho comercial dos produtos também faz parte da equação financeira da parceria com o clube.
A situação se agravou nesta semana. Em 1º de outubro, a Nike anunciou uma nova reorganização de sua estrutura global, batizada de Pace, que prevê mudanças na cadeia de fornecimento, reorganização geográfica e redução do número de funções na companhia. As decisões relacionadas aos postos afetados devem começar em 2027.
A empresa pretende organizar sua operação em três grandes regiões: Américas, Ásia-Pacífico e Grande China (APGC) e Europa, Oriente Médio e África (EMEA). A Nike também anunciou um novo campus em Bengaluru, na Índia, como parte da estratégia.
A reestruturação faz parte de um plano que pretende gerar US$ 2,5 bilhões em economias até 2031. Para executar as mudanças, porém, a companhia estima custos superiores a US$ 1 bilhão.
O anúncio veio acompanhado de números preocupantes. A receita do primeiro trimestre fiscal caiu 4%, para US$ 11,21 bilhões, enquanto as vendas na China despencaram 26% na comparação em moeda constante. Foi o nono trimestre consecutivo de queda no mercado chinês.
A previsão para o ano fiscal de 2027 também piorou. A empresa agora trabalha com uma queda de receita na casa de um dígito alto, segundo informações divulgadas após os resultados.
Do S&P 100 para uma nova realidade em Wall Street
Um dos símbolos da mudança de cenário foi a saída da Nike do S&P 100 em setembro. A companhia permaneceu por 18 anos no índice que reúne algumas das maiores empresas americanas.
A Reuters apontou que a retirada ocorreu depois de uma queda de aproximadamente 80% no valor de mercado da empresa nos cinco anos anteriores. A publicação também destacou problemas relacionados à desaceleração das vendas, dificuldades de inovação e avanço de concorrentes.
A ação chegou a ser negociada em torno de US$ 36 em setembro e atingiu seu menor nível em aproximadamente 12 anos. No acumulado de 2026, a queda chegou a quase metade do valor em determinados momentos.
Em termos de valor de mercado, a distância para o auge também impressiona. A Nike chegou a valer mais de US$ 260 bilhões no fim de 2021. Atualmente, a companhia está na casa dos US$ 52 bilhões, dependendo da cotação considerada.
A empresa, portanto, perdeu centenas de bilhões de dólares em valor de mercado desde o pico.
A crise da Nike vai além de Wall Street. Um dos principais problemas apontados por analistas é a dificuldade da companhia para criar produtos capazes de gerar novamente o mesmo impacto de modelos que dominaram o mercado durante anos.
A marca também passou a depender mais de promoções e descontos em determinados segmentos, enquanto concorrentes ganharam espaço.
Na China, o cenário é particularmente difícil. O Financial Times apontou que a receita da Nike no país caiu 29% desde 2021, enquanto sua participação de mercado teria recuado de 27% para 16%. Adidas, Hoka e marcas chinesas como Anta, Xtep e 361 Degrees avançaram no período.
A própria Nike reconhece que precisa se aproximar novamente dos atletas e consumidores. O plano Pace prevê justamente redirecionar recursos para inovação de produtos, esporte, conexão com consumidores e fortalecimento da marca.
O CEO Elliott Hill, que voltou à empresa em 2024, terá um momento importante pela frente. A Nike marcou seu Investor Day para 16 e 17 de novembro, quando pretende apresentar detalhes da próxima fase da estratégia e do plano financeiro.
E onde o Vasco entra nessa história?
É justamente aqui que a situação ganha interesse para o torcedor vascaíno.
O contrato firmado entre Vasco e Nike vale de 2026 a 2032. Diferentemente de contratos baseados em uma remuneração fixa, o acordo prevê royalties progressivos conforme a quantidade de produtos licenciados vendidos.
A tabela é a seguinte:
- Até 200 mil unidades vendidas por ano: 12% de royalties;
- De 200.001 a 500 mil unidades: 15%;
- Acima de 500 mil unidades: 18%.
O clube também tem uma verba mínima de R$ 2 milhões anuais para marketing, além do fornecimento de material esportivo para o futebol. A Fisia, distribuidora oficial da Nike no Brasil, fornece gratuitamente ao Vasco produtos para o futebol avaliados em R$ 7,218 milhões por ano, valor corrigido pelo IPCA.
O contrato ainda prevê bônus por conquistas. Um título da Libertadores, por exemplo, rende R$ 600 mil ao Vasco, enquanto o Campeonato Brasileiro vale R$ 400 mil. A conquista da Copa do Brasil rende R$ 325 mil e o Mundial de Clubes, R$ 1,5 milhão.
Há ainda uma cláusula relacionada ao desempenho esportivo. Se o time permanecer fora da Série A por dois anos consecutivos ou mais, o contrato prevê redução de 30% no valor mínimo de marketing e nos royalties a partir do terceiro ano nessa condição. Uma permanência de três anos consecutivos ou mais na Série B permite que Vasco ou Nike solicitem a rescisão, seguindo as regras previstas no contrato.
O desenho da parceria deixa claro que a venda de produtos é importante para o resultado financeiro do Vasco.
O ge calculou que, em um cenário hipotético de 400 mil produtos vendidos em um ano, considerando preço médio de R$ 200 por unidade para efeito do cálculo dos royalties, o clube receberia aproximadamente R$ 10,8 milhões em royalties.
Esse número não representa uma receita garantida. É uma simulação baseada no volume de vendas e no preço médio utilizado pelo jornal.

A diferença para o contrato anterior também ajuda a explicar a aposta. Com a Kappa, o Vasco tinha um valor fixo anual de R$ 600 mil mais 13% de royalties. A estimativa divulgada quando o acordo com a Nike foi anunciado apontava para pelo menos R$ 250 milhões ao longo dos sete anos, embora o contrato posteriormente revelado tenha detalhado uma estrutura sem pagamento fixo.
A crise da Nike muda algo para o Vasco?
Por enquanto, não há indicação de que a crise global da Nike tenha alterado o contrato com o Vasco. O acordo continua válido até 2032 e prevê suas próprias regras de remuneração, fornecimento, marketing, desempenho esportivo e eventual rescisão.
Mas a situação merece atenção porque a parceria está diretamente relacionada à capacidade de vender produtos do Vasco.
Quanto maior a procura pelas camisas e demais itens licenciados, maior pode ser a remuneração do clube dentro da tabela de royalties. Ao mesmo tempo, uma Nike que esteja reduzindo custos globalmente e revendo mercados terá de equilibrar sua estratégia mundial com o desempenho de cada parceria.
No caso do Vasco, a aposta feita na assinatura do contrato foi justamente no potencial comercial da marca cruz-maltina. O clube passou a vestir Nike em 2026 depois de seis temporadas com a Kappa, e a fornecedora americana assumiu os uniformes das equipes profissionais masculina e feminina, categorias de base e comissão técnica.
A questão agora é saber como essa parceria vai evoluir enquanto a própria Nike tenta reencontrar o caminho que a transformou em uma das maiores marcas esportivas do planeta.
E, para o Vasco, existe uma curiosidade adicional: o sucesso comercial da parceria depende também do quanto a torcida abraçar os produtos da Nike nos próximos anos.
Sendo que a marca VG tem caprichado muito mais…
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