Barra de Camaratuba é um lugar ainda pouco falado, e ótimo por isso mesmo. Não grita para ser notado — apenas espera que você chegue. Localizada no extremo norte da Paraíba, na divisa com o Rio Grande do Norte, é um ponto onde o tempo desacelera, o corpo descansa e o espírito respira. Ali, entre o rio e o mar, me vi diante de um pôr do sol que parecia uma pintura viva. A luz dourada espalhava-se pelas águas do rio Camaratuba, refletindo o silêncio das árvores e o som contido do vento. Atrás de mim, o mar.
Cheguei por lá nessa hora, aproveitei, e depois conheci a Pousada Vila Camará, charmosa, silenciosa e com jardim bem cuidado, rodeado de plantas e de sossego. O café da manhã é servido com carinho, e a atenção da anfitriã Fabiana torna tudo mais leve. Em cada conversa, em cada troca, é possível sentir a hospitalidade autêntica que só quem ama o lugar sabe oferecer. Cada quarto tem uma temática especial e escolhi aquele dedicado a Tarsila do Amaral.

Contudo, a fome bateu. Lugar pequeno e não havia opções. Porém, é claro que Barra de Camaratuba tem seus sabores. Tem gosto de tapioca. Sendo assim, a Tapioca da Maria é parada obrigatória à noite. É na casa da Maria mesmo, em frente ao posto de saúde. A comida é feita cheia de afeto e o local oferece delícias preparadas com cuidado e generosidade, além das boas conversas. Severino me serviu a passos lentos e tranquilos, um senhor com anos de história, e contou algumas.
Fiquei por lá conversando após tomar um genuinamente delicioso suco de cajá e comer uma grande e acolhedora tapioca. Comer ali é mais do que se alimentar. Maria, como muitos dos moradores, recebe bem. Enquanto conta sobre as agruras da vida e elogia o local. Em Camaratuba, o afeto é o principal tempero da terra.
No dia seguinte, atravessei o rio em direção ao restaurante do Ronaldo e o começo da área indígena, onde comi um dindin de mangaba simplesmente sensacional. Ele indicou a trilha e fui até a Praia das Cardosas. A travessia pode ser feita a pé quando o rio baixa, ou com o carro em uma balsa específica. R$ 5 reais para passageiras, R$ 20 para o carro. E carrega simbolismo: é como mudar de mundo.

Primeiramente fui de balsa e na volta atravessei a pé. Mais tarde, fui com o carro, para outra aventura, atravessar para outro município e ver um pouco da Baía da Traição, um grande reduto indígena. Entretanto, antes disso aproveitei a praia deserta. A Praia de Cardosas é quase intocada. Convida à caminhada, ao mergulho e à contemplação. É difícil voltar de um lugar que não exige nada além depresença.
Na volta, ao lado do Ronaldo, ainda tive o prazer de conhecer o artesanato indígena potiguara. Produzido com fibras naturais, sementes e barro, cada peça carrega histórias, saberes e resistência. Por ali ainda tem a Lagoa Encantada, para o outro lado a Lagoa da Pavuna, e outros atrativos.
Barra de Camaratuba é território ancestral, onde a presença indígena não é só lembrança: é vivência e força.
A viagem seguiu pela estrada até a Baía da Traição, mas foi em Barra de Camaratuba que deixei um pedaço do coração. O lugar não se vende como roteiro turístico — e talvez por isso seja tão encantador. É preciso ir devagar, ouvir, sentir. O Brasil profundo ainda pulsa ali, entre o brilho do rio, a fé do povo e a tapioca quentinha servida sob as estrelas.
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