Dez anos após sua morte, Elke Maravilha continua sendo uma das figuras mais singulares da cultura brasileira. Atriz, modelo, apresentadora, jurada de televisão, ativista e ícone da comunidade LGBTQIAPN+, ela fez da própria existência uma forma de romper padrões em uma época em que a diversidade ainda era amplamente reprimida. Agora, sua história inspira o monólogo Quero ser Elke Maravilha, que estreia no Teatro Candido Mendes, em Ipanema, no dia 14 de agosto, propondo uma reflexão sobre identidade, pertencimento e liberdade.
Com temporada até 30 de agosto, sempre de sexta a domingo, às 20h, o espetáculo não pretende reproduzir uma biografia convencional. Em vez disso, utiliza a vida de Elke como ponto de partida para discutir o impacto que sua trajetória continua exercendo sobre novas gerações.
Idealizado, escrito e protagonizado por Igor Castilho, em dramaturgia assinada ao lado de Rodrigo Murat, o monólogo acompanha um jovem que, depois de ser chamado de “Elke Maravilha” pelos colegas da escola, passa a investigar o significado daquele apelido.
Trancado em seu quarto, ele mergulha em lembranças, imaginação e delírios para reconstruir momentos marcantes da vida da artista. Entre episódios conhecidos e passagens simbólicas, surgem a primeira roupa extravagante, a criação da maquiagem que se tornaria sua marca registrada e a coragem de transformar a própria imagem em manifesto.
Ao longo da narrativa, porém, o protagonista percebe que está contando não apenas a história de Elke, mas também a sua.
A direção artística é de Jhoão Scarpa, que aposta em uma encenação intimista para aproximar a trajetória da artista das experiências de quem ainda enfrenta preconceitos por simplesmente existir.
Segundo Igor Castilho, a montagem nasceu da identificação pessoal com Elke.
“A voz de Elke, mesmo depois de 10 anos de ter ido ‘brincar de outra coisa’, como dizia, continua ecoando como um convite à autenticidade. Foi por ter aceitado esse convite, na adolescência, que passei a enxergar Elke como uma inspiração para acolher as minhas singularidades.”
Embora tenha se tornado conhecida nacionalmente pelo visual exuberante e pela participação como jurada nos programas de Chacrinha e Silvio Santos, Elke Maravilha construiu uma trajetória muito mais complexa do que a imagem irreverente que marcou a televisão brasileira.
Nascida em Leningrado, atual São Petersburgo, em 1945, como Elke Georgievna Grünupp, ela chegou ao Brasil ainda criança, refugiada com a família após perseguições políticas relacionadas à Segunda Guerra Mundial.
Antes de conquistar fama nacional, estudou idiomas, tornou-se professora de francês, trabalhou como tradutora e intérprete e frequentou cursos universitários nas áreas de Filosofia, Letras e Medicina.
Sua entrada no universo da moda aconteceu no fim da década de 1960, quando passou a desfilar para estilistas como Clodovil, Dener, Guilherme Guimarães e Zuzu Angel. Sua personalidade irreverente rapidamente rompeu os padrões das passarelas.
Esse espírito contestador também teve consequências políticas.
Em 1972, Elke foi presa pela ditadura militar ao protestar contra a prisão de Stuart Angel Jones, filho de Zuzu Angel. Como consequência, perdeu sua cidadania brasileira e permaneceu durante anos na condição de apátrida, episódio que se tornou um dos símbolos de sua resistência às arbitrariedades do regime.
A carreira artística de Elke também inclui trabalhos marcantes no cinema e no teatro.
Entre seus papéis mais lembrados estão as participações em Xica da Silva, de Cacá Diegues, performance que lhe rendeu o prêmio Coruja de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante, além de Pixote, de Héctor Babenco, e da peça Orfeu da Conceição.
Na televisão, tornou-se presença constante em programas de auditório e consolidou uma imagem que ultrapassava o entretenimento. Sua liberdade para vestir-se, falar e existir transformou Elke em uma referência para diferentes gerações, especialmente para pessoas LGBTQIAPN+, que passaram a enxergar nela um símbolo de autenticidade e resistência.
É justamente essa dimensão humana — muito além da figura folclórica frequentemente lembrada pela televisão — que Quero ser Elke Maravilha procura recuperar.
Ao aproximar a história da artista da vivência de um jovem contemporâneo, o espetáculo mostra como temas como identidade, preconceito e pertencimento permanecem atuais, reforçando que a maior herança deixada por Elke talvez tenha sido ensinar que ser diferente nunca deveria ser motivo de vergonha.
Serviço – Quero ser Elke Maravilha
Temporada: 14 a 30 de agosto
Dias: sextas, sábados e domingos
Horário: 20h
Local: Teatro Candido Mendes
Endereço: Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema, Rio de Janeiro
Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia)
Duração: 70 minutos
Classificação: 14 anos
O espetáculo disponibiliza ainda cortesias Trans Free (duas por sessão) e Drag Free (uma por sessão), destinadas a pessoas autodeclaradas transgênero e drag queens.
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