Entrevista exclusiva | Davi Porto comenta tentativa de censura à peça ‘Precisamos Matar o Presidente’ e fala sobre ataques sofridos nas redes

A peça teatral “Precisamos Matar o Presidente”, realizada pela Companhia Blabonga, estreará amanhã, dia 6 de março. No entanto, apenas a divulgação do título já fez com que o grupo carioca sofresse inúmeros ataques nas redes sociais por pessoas que não assistiram à montagem e tampouco buscaram entender sobre os temas discutidos no texto. No início desta semana, o deputado federal Otoni de Paula (PSC-RJ) acionou a PGR (Procuradoria Geral da República) com o intuito de impedir a apresentação online do espetáculo.

O pedido foi feito a fim de que houvesse uma investigação contra a cia. para apurar um suposto crime de incitação à violência contra o presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido). Com tantas polêmicas envolvendo a peça, convidamos o diretor Davi Porto para comentar os assuntos que movimentaram as redes nos últimos dias. Leia a entrevista completa:

Lana Janoti: Faz pouco mais de uma semana que a peça “Precisamos Matar o Presidente” foi divulgada e já foi alvo de muitas críticas nas redes sociais vindas principalmente de grupos da direita brasileira devido ao título empregado. Há quanto tempo vocês estão idealizando a peça, sobre quais temas são tratados no espetáculo e porquê escolheu este nome?

Davi Porto: Começamos a ensaiar o espetáculo em dezembro de 2020. Procuramos falar sobre bastante coisa. Sobre os artistas, sobre o teatro, sobre o momento atual, sobre a polarização política, sobre um grande mestre que viveu entre nós o Cico Caseira. O titulo é baseado no desejo de uma das personagens, fazendo uma alusão a um sentimento cada dia maior na sociedade, seja qual lado você estiver. Ele existe pra tipificar o ódio, assim como deflagrar diversos problemas na nossa sociedade. Imagina você, quase duas mil mortes por dia e o problema do Brasil é um título de uma ficção.  

LJ: Você trabalha com arte há alguns anos e sabemos que todo e qualquer artista precisa ultrapassar barreiras e resistir para conseguir apresentar o seu trabalho. Você já havia passado por algo parecido antes? Se sente ameaçado hoje?

DP: Não estou a tanto tempo no mercado, a própria cia tem 3 anos, mas nunca antes havia sofrido algo parecido com isso. Depende da ameaça. A das redes sociais, assusta pelo lado humano da coisa. Alguém vociferar tanto ódio por causa de uma ideia, que nem verdade é. A da censura é a que preocupa mais, porque hoje sou eu, amanhã é você e a classe artística ainda não percebeu isso. 

LJ: No texto de divulgação de “Precisamos Matar o Presidente” diz que o teatro nasce de uma necessidade. Quais foram as principais necessidades que nortearam a realização da peça?

DP: Não só o teatro como toda arte. Eu separei em três contextos, o financeiro, o romântico e o existencial. Acho que no nosso caso é mais o romântico. A gente precisa fazer alguma coisa antes que seja tarde demais.

LJ: Após o deputado Otoni de Paula acionar a PGR (Procuradoria Geral da República) para abrir uma queixa-crime contra a peça, nomes que obtém o poder no setor cultural como o Secretário Especial da Cultura, Mário Frias, e o Secretário Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura, André Porciúncula, também se manifestaram. Mário Frias disse em uma publicação no Twitter que vocês “Não são artistas, são bandidos”. Já André Porciúncula escreveu na mesma rede social que esse é “O tipo de peça que uma elite militante e doentia agora desesperada com dinheiro público promove nas últimas décadas”. Como você e a companhia Blabonga recebeu a queixa-crime e essas declarações?

DP: Na verdade a ordem, acredito eu, está trocada.  Primeiro houve o burburinho da internet, depois o Deputado, supostamente, entrou com o pedido, mas se for o inverso também não muda muita coisa. Olha, sobre os comentários é triste saber que quem deveria defender a classe é o primeiro a tacar ela na fogueira, mas o que é realmente preocupante, é que é um cargo público. Eles teoricamente deveriam representar toda a nação e não a seus interesses obscuros ou a um determinado grupo. Qualquer país sério exigiria no mínimo uma postura digna e respeitosa de seus representantes, mas pra mim o real agravante é que chegamos em um ponto em que esses absurdos são ditos e ninguém com voz ativa surge em nossa defesa, é isso mesmo, o secretário de cultura pode xingar quem quiser que tá tudo certo.

Em relação a queixa-crime, que eu prefiro chamar de tentativa de censura prévia, pra mim é no mínimo surreal, com tanto problema na vida real, gente morrendo, passando fome, inflação, desemprego, desigualdade social e o problema é a ficção, um título, de uma peça de teatro, que ninguém sabe do que se trata ainda, porque ninguém viu.  Mas é o representante que o povo escolheu, então pelo visto é isso que o povo quer.   

LJ: Não é a primeira vez que uma peça sofre uma tentativa de censura. Em 2019 o espetáculo “Caranguejo Overdrive”, feito pela Aquela Cia de Teatro, foi cancelado no Rio de Janeiro por supostamente discutir “conteúdo político-ideológico”. No mesmo ano, o grupo Clowns de Shakespeare também teve o espetáculo infantil “Abrazo” impedido de subir aos palcos em Recife por tratar de temas relacionados à repressão, ditadura e censura. De que forma você absorve e entende isso? O que acredita que precisa acontecer para que esse cenário mude?

DP: Primeiro a classe tem que se unir, eu to aqui tentando evidenciar um problema e até agora só quem parou pra escutar foram os causadores do problema, os que estão sofrendo simplesmente estão contentados de não serem eles as vítimas, ou não querem tomar partido. Eu sinceramente acho que meu caso é pior do que os precedentes, se não me engano, eles eram fomentados pelo dinheiro público, não descaracteriza a censura, mas no nosso caso, é o dinheiro da cia mesmo. É tudo muito preocupante, porque a censura é o fim do conflito de ideias, é o fim do diálogo. Pra mudar esse cenário tem que mudar tudo, não é só trocar o presidente, é entender, que eu posso pensar diferente de você e isso não me tornar o seu inimigo.     

LJ: O ator e professor de teatro, Cico Caseira, é homenageado em “Precisamos Matar o Presidente”. Você consegue imaginar qual seria a opinião dele sobre tudo o que está acontecendo agora?

DP: Olha, não ouso dizer pelos outros o que eles fariam, mas prefiro acreditar que ele estaria montado em seu cavalo imaginário, usando sua armadura imaginária, pronto para a guerra imaginária em defesa de toda e qualquer forma de arte. Porque era isso que ele era. Arte. 

LJ: Para você, existe limite na liberdade de expressão?

DP: Na vida real sim. Ela não pode nunca ferir o próximo. Esse negócio de pleitear liberdade de expressão pra perpetuar comportamentos ultrapassados é triste demais. Agora na ficção, não há limites. Não pode haver limites para a ficção, pois é ali que podemos discutir, entender, dialogar. Você pode até não gostar do que a ficção retrata, ficar incomodado, mas no final do dia precisa entender que não é verdade.  

LJ: O que o público pode aguardar a partir do próximo sábado, dia 6 de março?

DP: Teatro. 

Serviço:

Temporada: De 06 a 28 de março de 2021.
Sessões: Sábados, às 20:00h, e domingos, às 19:00h.
Ingressos: A partir de 20 reais.
Site: www.doity.com.br/precisamos
Duração aproximada: 75 minutos.
Classificação indicativa: 16 anos.

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