O universo de Nelson Rodrigues volta aos palcos cariocas com uma nova montagem de Boca de Ouro, protagonizada por Tuca Andrada. Com direção e idealização de Sergio Módena, o espetáculo estreia nesta quinta-feira, 29 de outubro, na Arena do Sesc Copacabana. A temporada segue até 22 de novembro, com sessões de quinta a domingo.
Escrita em 1959, a peça acompanha a trajetória de um poderoso bicheiro de Madureira, conhecido como “Drácula de Madureira”. Sua fama mistura violência, carisma e histórias que alimentam o imaginário popular. Após ser assassinado, Boca de Ouro se torna o centro de uma investigação jornalística que revela versões contraditórias sobre sua vida.
A montagem reúne Gustavo Wabner, Maria Clara Aquino, Ana Velloso, Jessé Scarpellini, Antonio Gonzalez e Cássia Sanches ao lado de Tuca Andrada. O elenco dá vida a uma trama que combina crime, relações amorosas, ambição e disputas de poder.
A peça também marca mais uma etapa da pesquisa de Sergio Módena sobre a dramaturgia rodriguiana. O diretor já havia conduzido A Falecida, com Camila Morgado no papel de Zulmira, entre 2023 e 2025. O crítico teatral Sábato Magaldi classificou as duas obras como “tragédias cariocas”, categoria que destaca personagens e conflitos ligados à realidade urbana do Rio de Janeiro.
Três versões de uma mesma história
A trama começa após Boca de Ouro ser encontrado morto na sarjeta, sem os dentes de ouro que se tornaram sua marca. O jornal O Sol envia o repórter Caveirinha para investigar o caso e buscar uma história capaz de ocupar a primeira página.
A principal fonte do jornalista é Dona Guigui, ex-amante do bicheiro. Ao reconstituir episódios do passado, ela apresenta três versões diferentes sobre um crime envolvendo Boca de Ouro, Leleco e Celeste. As narrativas mudam conforme os sentimentos da personagem e as circunstâncias em que ela recorda os acontecimentos.
Na primeira versão, Dona Guigui ainda não sabe da morte do antigo amante. Dominada pelo ressentimento por ter sido abandonada, ela descreve Boca como um homem cruel e violento. A história muda quando ela descobre que ele foi assassinado. Abalada, passa a tratá-lo como um amante extraordinário, capaz de gestos generosos.
A terceira versão acrescenta novas contradições. Ciúmes, traições e inseguranças alteram novamente a percepção dos personagens. Dona Guigui também tenta preservar seu casamento com Agenor, homem que a acolheu depois do rompimento com Boca.
As mudanças não funcionam apenas como recurso narrativo. Elas colocam em dúvida a possibilidade de reconstruir os fatos a partir de uma única perspectiva. A memória se mistura aos sentimentos, enquanto cada relato revela tanto os acontecimentos quanto os interesses de quem os conta.
A imprensa sensacionalista ocupa um lugar central nessa discussão. Caveirinha procura um episódio capaz de atrair leitores, enquanto as versões de Dona Guigui mostram como a busca por uma boa manchete pode transformar a interpretação de um crime.
O dinheiro e o poder por trás do mito
Boca de Ouro é apresentado como uma figura quase mitológica do submundo carioca. Sua origem ajuda a explicar a construção dessa imagem. Segundo a história, ele nasceu em um reservado de gafieira e foi abandonado pela mãe em uma pia de banheiro, sob uma torneira aberta.
Já adulto, o bicheiro manda arrancar os próprios dentes e substituí-los por peças de ouro. O gesto alimenta sua fama e reforça a ideia de que pretende transformar a riqueza em símbolo de poder até depois da morte. Seu sonho é ser enterrado em um caixão inteiramente dourado.
O personagem também acumula histórias de violência e envolvimento com mulheres casadas. A imprensa ajuda a consolidar sua reputação, oscilando entre o fascínio pela figura poderosa e a exposição de seus crimes.
Para Sergio Módena, o dinheiro e o poder organizam as relações apresentadas na peça. “Em Boca de Ouro, Nelson Rodrigues constrói ainda um personagem que representa, em última instância, a divinização do dinheiro e do poder, em torno dos quais todos os demais personagens gravitam”, afirma o diretor.
A possibilidade de ascensão social altera os princípios e as convicções dos personagens. A obra mostra como a promessa de riqueza pode enfraquecer valores morais e modificar a maneira como as pessoas avaliam umas às outras.
Uma encenação atemporal para um conflito ainda atual
A nova montagem não pretende reproduzir de maneira realista a Madureira do fim dos anos 1950. A direção propõe uma estética atemporal, que desloca a narrativa para um ambiente marcado pela morte, pela violência e pela reconstrução dos acontecimentos.
O cenário de Aurora dos Campos e a iluminação de Tomás Ribas criam um espaço asséptico, descrito como uma espécie de antessala da morte. Nesse ambiente, os diferentes planos da ação se cruzam, enquanto os personagens tentam organizar versões de um passado instável.
Os figurinos de Karen Brusttolin também evitam a reconstituição histórica precisa. Em vez de reproduzir fielmente a moda da época, evocam um tempo distante e impreciso. A trilha sonora de Guilherme Gila acompanha os conflitos e as mudanças de temperatura emocional da narrativa.
A escolha estética reforça a dimensão simbólica do texto. O subúrbio aparece menos como uma paisagem específica e mais como uma condição marcada por pobreza, exclusão, violência e frustração. Esses elementos atravessam a vida dos personagens e ajudam a compreender suas decisões.
Tuca Andrada destaca a atualidade da discussão sobre a verdade. Para o ator, a peça questiona quais interesses orientam a versão dos fatos que chega ao público, tanto nas relações pessoais quanto no noticiário.
O protagonista também considera o papel desafiador. O texto não oferece uma descrição definitiva de Boca de Ouro. O personagem ganha contornos diferentes conforme os relatos de Dona Guigui, o que exige do intérprete atenção às mudanças de perspectiva ao longo da trama.
Nelson Rodrigues e a modernização do teatro brasileiro
Nascido no Recife, em 1912, Nelson Rodrigues mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro. Sua experiência como jornalista, inclusive na cobertura policial, contribuiu para a construção de histórias que exploram violência, hipocrisia, conflitos familiares e contradições sociais.
O dramaturgo ganhou destaque com Vestido de Noiva, peça que revolucionou a linguagem teatral brasileira ao trabalhar simultaneamente com planos de realidade, memória e alucinação. Ao longo da carreira, construiu uma obra que continua inspirando diretores e atores.
Em Boca de Ouro, o autor volta o olhar para a contravenção, a desigualdade e a moralidade social. A figura do bicheiro permite discutir tanto a sedução exercida pelo poder quanto os mecanismos usados para transformar uma pessoa em mito.
A montagem do Sesc Copacabana retoma essas questões por meio de uma encenação que aproxima o clássico de debates contemporâneos. Ao questionar a memória, o sensacionalismo e a ideia de verdade absoluta, o espetáculo convida o público a observar como reputações são construídas e modificadas.
Serviço
Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, com direção de Sergio Módena
- Temporada: 29 de outubro a 22 de novembro de 2026
- Dias e horários: quintas e sextas, às 20h; sábados e domingos, às 18h
- Local: Arena do Sesc Copacabana
- Endereço informado no material de divulgação: Rua Dias Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro
- Ingressos: bilheteria do teatro ou Ingresso.com
- Preços: R$ 40 (inteira), R$ 36 (conveniados), R$ 31 (conveniados empresários), R$ 28 (credencial plena Sesc), R$ 20 (meia-entrada) e gratuito para o público PCG
- Classificação indicativa: 16 anos
- Duração: 90 minutos
- Acessibilidade: Libras, audiodescrição e plateia acessível para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida
- Informações: (21) 3180-5226
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