Dirigido por Guga Sander, Asa Branca – A Voz da Arena segue a clássica jornada do herói para retratar uma história que é bem mais complexa do que aquela que retrata
Se há algo que a audiência aprendeu a apreciar, é a história de sucesso do azarão, alguém que, contra todas as expectativas, se levanta, se supera e alcança o estrelato. Não à toa, o cinema, principalmente o norte-americano, utiliza essa estrutura há décadas em diferentes gêneros narrativos, tendo como base principal o modelo da jornada do herói estruturado por Joseph Campbell.
Os 12 passos dessa jornada já fazem parte do inconsciente coletivo do espectador, permitindo prever facilmente o próximo movimento do protagonista. Porém, justamente por esse “livro de regras” estar aberto para qualquer um, as produções precisam de algo a mais para se destacar, caso contrário, acabam em um mar de filmes competentes, porém esquecíveis a longo prazo, como é o caso de Asa Branca – A Voz da Arena.

Felipe Simas em “Asa Branca- A Voz da Arena”- Divulgação Paris Filmes
Servindo como cinebiografia de uma das maiores vozes do rodeio nacional, responsável por reformular a relação do público com o rodeio e por reinventar esse espetáculo como um todo, Asa Branca – A Voz da Arena retrata desde o início como peão de boiadeiro, passando pelo acidente, decadência, ascensão como locutor, estrelato, nova queda e, por fim, um desfecho esperançoso e otimista, encerrando em glória, mesmo que o público saiba que sua vida real foi muito mais sofrida do que essa fábula apresentada por Guga Sander.
O recorte escolhido pelo filme vai do acidente ao reconhecimento como locutor de rodeio, incluindo também sua relação amorosa com Sandra, seu grande amor após a arena. Ao longo da narrativa, acompanhamos as amizades que Asa constrói, como Jibóia e Wandão, seu mentor, além de sua batalha contra vícios e o próprio ego, elementos clássicos em jornadas do herói e cinebiografias de todos os tipos, e previsíveis dentro de sua própria estrutura narrativa.
Asa Branca – A Voz da Arena apresenta diversos elementos já vistos em produções anteriores, incluindo arquétipos hoje ultrapassados, como a personagem feminina símbolo de pureza e inspiração para o herói, ou personagens que surgem apenas para reforçar o carisma e a virilidade do protagonista, sem nenhuma importância narrativa para a história como um todo. Somado a isso, a jornada de decadência e redenção é conduzida de forma conveniente demais, com conflitos introduzidos e resolvidos de maneira fácil e confortável, de forma quase irreal.
No aspecto técnico, o filme utiliza mudanças de frames, imagens sobrepostas, e tudo o que a edição dá direito para construir uma narrativa fluida, regada por uma paleta alaranjada e uma forte luz solar na primeira parte, substituída mais tarde pelos holofotes da arena, igualmente intensos e simbólicos. Após toda a jornada, a produção encerra em um momento de auge, catarse e, de certa forma, falsidade para quem conhece a verdadeira trajetória de Asa Branca, que foi muito menos “conto de fadas” do que essa fantasia em que tudo se resolve magicamente.

Felipe Simas e Lara Tremouroux em “Asa Branca- A Voz da Arena”- Divulgação Paris Filmes
Apesar da atuação de destaque de Felipe Simas, o filme entrega uma história apenas satisfatória, seguindo à risca todas as regras para se fazer um “bom” longa, se inspirando técnica e narrativamente em produções norte-americanas, e esquecendo o peso e a importância da brasilidade em uma história tão nossa quanto a de Asa Branca, resultando em algo plástico e esquecível, sendo um espetáculo sem o charme e a personalidade que tornaram o locutor tão eterno.
Distribuído pela Paris Filmes, Asa Branca – A Voz da Arena estreia nos cinemas em 18 de dezembro.
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