Dirigido por Tom Gormican, Anaconda entretém por meio da sátira e da subversão de expectativas, abandonando o horror e abraçando o caos.
Em meio a uma grande onda de remakes e reimaginações de propriedades intelectuais consagradas, fruto de uma época que Quentin Tarantino defende como uma das piores da história do cinema, justamente pela ausência de ousadia criativa e pela produção em massa, é interessante observar a subversão escolhida pelo remake de Anaconda. O filme parte de uma produção de horror trash que é compreendida, dentro da própria narrativa, como algo já existente e, por meio da metalinguagem, estrutura uma obra que é, acima de tudo, divertida e perfeita para ser assistida em grupo.
A escalação de Jack Black e Paul Rudd para os papéis principais já indicava que o filme passaria longe do terror do filme original, que, apesar do baixo orçamento e da qualidade questionável, ainda apresentava cenas e interações que se tornaram memoráveis para os amantes do gênero.

Selton Mello e Paul Rudd em cena de Anaconda- Divulgação Sony Pictures Brasil
Assim como em O Peso do Talento (2022, Tom Gormican), Anaconda constrói grande parte de seu humor a partir da consciência tanto do público quanto de seus personagens de que se trata de mais um filme dentro da estrutura hollywoodiana, assim, brincando com este processo ao inserir, dentro de um remake de Anaconda, uma equipe de filmagens da Sony, que é responsável por entregar frases como “eu sei, não existem mais ideias originais”, antes de ser destruída pela cobra que tentavam registrar.
No campo dramático, o arco de seus personagens poderia ter sido melhor trabalhado, principalmente a partir do segundo ato, quando a produção se perde. A Anaconda que dá nome ao filme aparece apenas em momentos-chave, somando cerca de 20 minutos de tempo de tela ao longo de toda a duração. Em seu lugar, acompanhamos o humor característico de Paul Rudd e, principalmente, de Jack Black, com piadas que vão desde urinar em feridas até o medo de urinar em público, além de falsas mortes que estruturam um caos crescente e levam a sala inteira a rir em uníssono.
O roteiro apresenta mais de um plot twist que altera de modo eficiente as dinâmicas entre seus personagens, além de fan services bem recebidos pelos fãs do original. No entanto, assim como em uma arena de gladiadores, o êxtase se sustenta durante o espetáculo, mas, à medida que o tempo passa, a produção se esvai e se torna cada vez mais frágil quando analisada com mais cuidado. Tratando-se ao final de uma grande homenagem à Anaconda (1997, Luis Llosa), mas, mesmo com um elenco de destaque e um roteiro de humor afiado, não é tão marcante quanto o filme que homenageia.

Paul Rudd, Thandiwe Newton e Steve Zahn em cena de “Anaconda”- Divulgação Sony Pictures Brasil
O cinema funciona a partir de conflito e drama e, apesar da tentativa de inserir uma rixa entre amigos de longa data e objetos de importância simbólica, como um “Oscar” que representa a ligação entre pai e filho, o filme não consegue se mostrar dramaticamente estável, entregando exatamente o que promete: uma subversão cômica de um longa icônico, observada pelo olhar metalinguístico de uma indústria que se encontra cada vez mais em crise diante da escassez de produções originais, mas que ainda consegue entreter dentro dessa própria condição.
Obs: Para os fãs brasileiros, é com muito orgulho que presenciamos como Selton Mello se sente confortável dentro de sua primeira produção internacional, sendo responsável por alguns dos momentos mais marcantes e memoráveis da produção.
Distribuído pela Sony Pictures, Anaconda estreia nos cinemas no dia 25 de dezembro.
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