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Carolina Dieckmann em cena de (Des)Controle- Divulgação
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: (Des)Controle – o álcool, o duplo e um grande filme

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 15 de janeiro de 2026
6 Min Leitura
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Carolina Dieckmann em cena de (Des)Controle- Divulgação
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Dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm, (Des)Controle se inspira em histórias reais para contar uma jornada de superação que flerta com o absurdo, mas nunca se afasta da realidade nem da relevância de seu tema.

Apesar de o cinema nacional viver um momento grandioso, impulsionado por sucessos recentes como Ainda Estou Aqui (2024, Walter Salles), e O Agente Secreto (2025, Kleber Mendonça Filho), ainda existe uma dificuldade histórica de comunicação com parte do público brasileiro, que muitas vezes não privilegia a própria produção audiovisual. Esse preconceito silencioso faz com que obras relevantes passem despercebidas, e (Des)Controle é um desses filmes grandiosos que correm o risco de ficar fora do radar, quando deveria ser aclamado na mesma escala que os filmes de Salles e Filho.

Inspirado em histórias reais, (Des)Controle pode ser definido, antes de tudo, como uma dramédia eficiente. O longa equilibra drama e comédia com precisão, concedendo o tempo necessário aos momentos de maior tensão e leveza às interações cômicas. O resultado é uma experiência que mantém o espectador em constante estado de alerta emocional. Essa sensação é potencializada tanto pelo dinamismo da narrativa, que transita entre o real e o absurdo de forma orgânica, quanto pela cinematografia, que aposta em certa oniricidade e ludismo, remetendo a histórias morais clássicas, como O Médico e o Monstro (1886, Robert Louis Stevenson).

Este estudo do duplo, aliás, atravessa a literatura e o audiovisual há séculos, sendo explorado sob diferentes perspectivas psicanalíticas e filosóficas, desde o conceito Jungiano de luz e sombra até suas inúmeras variações culturais, algo que (Des)Controle se apropria para abordar alegoricamente o perigo do alcoolismo, tendo como rumo um argumento de Iafa Britz que se inspirou em histórias reais para a construção de toda a produção.

Carolina Dieckmann e Júlia Rabello em cena de (Des)Controle- Divulgação

Carolina Dieckmann e Júlia Rabello em cena de (Des)Controle- Divulgação

Como fio condutor da narrativa, temos uma forte Carolina Dieckmann interpretando duas facetas da mesma mulher: Kat, a luz, uma escritora com bloqueio criativo que está sóbria há 15 anos; e Vânia, a sombra, figura que representa a libertação das amarras morais e sociais que contêm Kat. Essa dualidade não apenas estrutura o roteiro, como também sustenta a tensão psicológica do filme, e permite alguns dos momentos mais marcantes e empáticos da produção.

Logo no início, uma montagem rápida e caótica transmite ao espectador a ansiedade de uma mulher à beira do colapso. O alívio surge junto com Kat quando ela é tentada por um copo de vinho, momento em que até a atmosfera ao seu redor parece se transformar. Inicialmente, sua vida melhora, mas, aos poucos, a sombra assume o controle, revelando a decadência de alguém que nunca esteve verdadeiramente firme desde o começo, e ativando um instinto de “lutar ou correr” na audiência, que observa um trem desgovernado vindo a toda velocidade, porém, nada pode fazer para impedir, ocasionando um aumento da tensão.

Sem passar a mão na cabeça de ninguém, (Des)Controle é um filme cru sobre os impactos do alcoolismo. A obra deixa claro que não existe cura simples, mas sim uma luta diária e contínua. Essa mensagem é transmitida de forma honesta e direta, longe de discursos fáceis ou moralizantes, sustentada por diálogos francos e atuações comprometidas com a complexidade da doença, levando a um final esperançoso e um abraço apertado ao seu final, sem cair no pedantismo.

Carolina Dieckmann, Stéfano Agostini e Rafael Fuchs Müllerem cena de (Des)Controle- Divulgação

Carolina Dieckmann, Stéfano Agostini e Rafael Fuchs Müllerem cena de (Des)Controle- Divulgação

No aspecto estético, (Des)Controle apresenta uma fotografia limpa, com cores saturadas que intensificam a imersão no universo proposto, lembrando o trabalho visto em #SalveRosa (2025), de Susanna Lira. O visual beira o artificial, mas nunca se desconecta da realidade, equilíbrio essencial para a proposta do filme. A direção de arte também se destaca, tanto nos detalhes quanto no figurino, especialmente na dicotomia entre o preto e o branco associados a Kat e no vestido prateado que eleva Vânia a um novo patamar de perigo.

Ao final, (Des)Controle reúne muitos dos melhores atributos do cinema brasileiro contemporâneo: um elenco afiado, roteiro consistente, capacidade de entretenimento, um arco dramático potente e uma mensagem relevante sobre a luta diária que atravessa nossas vidas, reforçando a importância de apoio mútuo e afeto como ferramentas essenciais para seguir em frente, mesmo quando tudo parece sair do controle.

Produzido pela Midgal Filmes e distribuído pela Sony Pictures, em parceria com a Elo Studios, (Des)Controle estreia nos cinemas em 5 de fevereiro de 2026.

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Tags:(Des)ControleCinemacinema brasileirocinema nacionalcríticaCrítica (Des)ControleO Médico e o Monstrosony pictures
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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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