Está em cartaz nos cinemas, “Zico – o samurai de Quintino”, de João Wainer. O filme teve uma estreia a altura do tamanho do legado do ex-jogador, ao ocupar o maior número de salas de um documentário brasileiro.
O filme traça um panorama sobre a carreira do galinho de Quintino mais focado em sua trajetória pessoal. Se para o público, em geral, sua carreira esportiva é repleta de títulos, prêmios, marcas e recordes, para ele é um percurso, uma história de vida, repleta de momentos de decisões, euforia, tensão, decepções e tudo mais que faz parte de uma plena vivência.

Zico, o mito. Arthur, o homem
O nome Zico é amplamente reconhecido por qualquer entusiasta do futebol, e, também, mesmo por aqueles que não ligam muito ou não acompanham o esporte. No entanto, o filme tenta trazer mais para o centro de sua narrativa, a presença de Arthur Antunes Coimbra, o homem por trás da lenda esportiva.
Montado como uma colagem de lembranças, o documentário é mais uma análise sobre a personalidade e a construção de uma identidade esportiva que continua a ser celebrada por muitos, inclusive, entre diferentes países, como Japão e Itália, além do Brasil. Com muitos depoimentos do próprio Zico, a narrativa faz uma série de conexões entre fatos, momentos e pessoas às memórias narradas por ele, em vista a traçar seu perfil.

Um filme sobre Zico, o samurai
O filme evita ser o clássico documentário sobre futebol que ocupa grande parte de tela com os mais belos gols. Certamente, eles estão lá, mas não são o elemento principal, e sim momentos que ilustram a saga de Zico. Eles são a consequência de todo o trabalho e dedicação que ele seguiu por toda sua carreira.
Esse é o grande acerto da produção. Mostrar que uma figura tão importante para o futebol como Zico, não surgiu por acaso, mas é fruto de muito esforço da pessoa, Arthur. Histórias vão surgindo, sendo contadas por ele, ou para ele. Algumas conhecidas como sua vontade incansável de treinar cobranças de faltas. O “espírito de Zico”, termo que surgiu em sua passagem pelo futebol japonês.

Zico no Japão
Esse é outro fator interessante do filme. A atenção que é dada ao seu período no Japão, sendo inclusive a abertura do documentário. Normalmente, filmes sobre Zico tendem a abordar muito superficialmente sua passagem por lá. Aqui há toda uma análise da decisão ousada dele de ir jogar em um país, que tinha um campeonato semi-amador.
Zico acreditou no projeto. Na possibilidade de plantar algo. Uma semente. A semente da paixão pelo futebol. Eles já tinham o que Zico sempre prezou. Organização, seriedade, coletividade, compromisso. Para ele, a estrutura física e o profissionalismo poderiam vir naturalmente, com o tempo. E, realmente, veio. Trinta anos depois, o Japão desponta como uma potência no futebol asiático, tendo estado presente em todas edições desde 1998. Fruto da dedicação do samurai de Quintino.

A paixão pelo futebol em imagens e sons
A ênfase na relação de Zico com o Japão mostra a paixão dele pelo futebol. Algo que aparece, de forma mais discreta, na criação do Centro de Futebol Zico (CFZ). Embora a contextualização fique um pouco no ar, percebe-se que para Zico, estar ali era uma missão de vida, como um samurai. Algo que transcendia sua carreira futebolística.
O tratamento dado às imagens de arquivo também é outro trunfo. Com uma remasterização que deixa vídeos da juventude de Zico, antes de sua profissionalização com alta definição, apropriada para a grande tela do cinema. O trabalho com o áudio é, também, primoroso, pois recria e proporciona uma imersão no ambiente de euforia e entusiasmo entre torcedores nas arquibancadas. É como se estivéssemos ali, reverenciando os feitos do samurai Zico.

Assuntos pouco aprofundados
Porém, alguns elementos parecem que poderiam ser mais bem explorados, como o contexto da ditadura civil-militar, instaurada no brasil, e que afetou diretamente a família de Zico, com um de seus irmãos, Nando, sendo preso e (aparentemente) tendo prejudicado as chances do próprio Zico em um torneio olímpico e de seu irmão Edu na Copa do Mundo. Seus irmãos falam brevemente sobre o tema, mas o retratado no filme, não.
Outro momento controverso da carreira de Zico é o pênalti perdido na Copa do Mundo de 1986 em partida contra a França. Na época, ele vinha de grave contusão que quase o tirou dos gramados e não jogou muito durante o torneio. Zico reflete sobre o que fez perder a cobrança, já que ele teve em sua carreira um aproveitamento de 90% de acerto nesse tipo de penalidade. Mas, o momento, também, acaba sendo visto de forma muito breve.

Entrevistas ou bate-papos?
As entrevistas do filme são bem boladas, pois não são exatamente entrevistas, no sentido clássico da palavra. São bate-papos entre amigos e colegas. Mas, fica uma sensação que mais pessoas poderiam aparecer e participar. Sente-se, claramente, uma ausência de personagens como Leandro, Raul, Nunes, Andrade, entre outros que poderiam participar. Há uma participação, a meu ver, desacertada de Ronaldo Fenômeno.
Apesar de Zico ter sido coordenador técnico da Seleção Brasileira na copa de 1998, a primeira onde Ronaldo atuou como titular, é difícil não pensar em outras pessoas que tenham tido uma ligação mais forte com o galinho, que poderiam estar ali, com um resultado melhor.

O espírito de Zico. O espírito de um samurai
Em resumo, o filme constrói de forma consistente uma narrativa que nos apresenta que por trás de todo grande atleta, há uma pessoa que está, incansavelmente perseguindo seus sonhos. Algo que parece estar, atualmente, cada vez mais distante dos potenciais jogadores da Seleção Brasileira, o que pode estar contribuindo cada vez mais com o distanciamento de sua torcida. O individualismo e o culto à personalidade vão crescendo e sufocando progressivamente os ideais de espírito de equipe que Zico sempre buscou.
Com depoimentos de familiares e momentos delicados, como a amizade de Zico com Geraldo Assoviador e Roberto Dinamite acertam o tom, ao colocar a humanidade de Arthur em jogo. Outro momento memorável é uma cena em que o samurai de Quintino joga uma partida de futebol de botão com narração ao vivo do célebre locutor, José Carlos Araújo, o verdadeiro Garotinho.

Onde assistir
Embora tenha um apelo óbvio aos flamenguistas, “Zico – O samurai de Quintino” pode, e deve, agradar qualquer entusiasta (ou não) de futebol. Afinal, o próprio diretor do filme é santista, e demonstrou que a admiração por Zico transcende gerações e torcidas. Se alguém ainda tinha dúvida da grandiosidade da figura de Zico, esse filme tira qualquer resquício dela.
O filme é distribuído pela Downtown Filmes e está em cartaz. Para assistir, consulte a rede de cinemas de sua cidade para encontrar sessões disponíveis. Por fim, no Rio de Janeiro, a RioCard está vendendo cartões de vale-transporte com a arte do filme de Zico.



