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Márcio Vito em cena de "Eu não te Ouço"- Divulgação Amaia
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Eu não te ouço’ – uma sátira política de nicho

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 9 de maio de 2026
5 Min Leitura
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Márcio Vito em cena de "Eu não te Ouço"- Divulgação Amaia
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Dirigido por Caco Ciocler, Eu Não Te Ouço entrega road movie inusitado que se propõe a discutir o abismo político vivido pelo Brasil contemporâneo.

Em um ano de eleição presidencial, e uma disputa que promete ser ainda mais intensa do que a de 2022, produções como Eu Não Te Ouço surgem como reflexo de um país fragmentado, incapaz de estabelecer diálogo entre lados opostos. É justamente nesse ponto que o filme encontra sua principal força, mas também sua maior limitação: ao apostar em uma estrutura excessivamente alegórica e teatral, a obra se fecha em um nicho muito específico de público.

Abrir o filme com uma citação de Esperando Godot é talvez a decisão mais reveladora de toda a produção. Assim como Vladimir e Estragon vagam sem rumo na clássica peça de Samuel Beckett, aqui acompanhamos um caminhoneiro e o chamado “patriota do caminhão”, ambos interpretados por Márcio Vito, atravessando estradas que parecem não ter começo nem fim, em busca de algo que eles próprios não sabem definir, mas sem conseguir escapar um do outro.

Cena de "Eu não te Ouço"- Divulgação Amaia

Cena de “Eu não te Ouço”- Divulgação Amaia

Se existe uma palavra capaz de definir Eu Não Te Ouço, ela é “direto”. O próprio título já resume a proposta do longa: uma representação ao mesmo tempo política, cômica e desconfortável de um país que desaprendeu a ouvir. Ou se está do lado “certo”, ou o outro automaticamente se torna inimigo. Essa ideia é reforçada pela estética de mockumentary adotada por Ciocler, que posiciona a equipe de filmagem tanto dentro da cabine do caminhão quanto ao lado de fora, acompanhando o homem agarrado ao veículo.

A partir daí, o filme mergulha em monólogos e discussões que exageram comportamentos familiares ao espectador brasileiro: discursos inflamados, teorias absurdas, ressentimentos políticos e a completa incapacidade de estabelecer comunicação. O problema é que a produção insiste demais no mesmo ponto. Mesmo quando o público já compreendeu perfeitamente a metáfora proposta, o roteiro continua girando em círculos, repetindo situações e diálogos sem apresentar novas camadas dramáticas.

Tal qual a obra de Beckett que inspira sua estrutura, Eu Não Te Ouço transforma o absurdo em reflexão. Porém, enquanto Esperando Godot encontra potência filosófica em sua repetição, o longa de Ciocler apenas esgota o espectador. A sensação de estagnação parece intencional, mas nem sempre isso se traduz em experiência cinematográfica envolvente.

Questões de tempo e espaço tornam-se irrelevantes dentro da narrativa. O motorista afirma diversas vezes que está prestes a parar, mas continua dirigindo indefinidamente, enquanto o patriota permanece preso ao caminhão como se sua sobrevivência dependesse daquilo. A alegoria é clara, mas simplificada demais para sustentar um longa-metragem inteiro. Em muitos momentos, Eu Não Te Ouço parece funcionar melhor como curta, esquete cômico ou até peça teatral experimental.

Márcio Vito em cena de "Eu não te Ouço"- Divulgação Amaia

Márcio Vito em cena de “Eu não te Ouço”- Divulgação Amaia

O humor existe, e ocasionalmente funciona, mas raramente surpreende. As situações se repetem excessivamente e, com isso, o impacto vai diminuindo progressivamente. Quando o caminhão finalmente para, momento que deveria representar algum tipo de explosão emocional ou narrativa, o filme permanece preso ao mesmo tom contemplativo e circular.

Ainda assim, a sequência final encontra um de seus melhores momentos ao utilizar o hino nacional brasileiro de forma melancólica e irônica. É uma escolha eficiente, capaz de sintetizar o desencanto político retratado ao longo da obra. Porém, mesmo essa boa sacada não basta para transformar Eu Não Te Ouço em uma experiência verdadeiramente memorável.

Como acontece com parte significativa do cinema brasileiro contemporâneo, o filme corre o risco de encontrar dificuldades fora de um circuito muito específico de espectadores, especialmente aqueles mais conectados ao debate político e à linguagem teatral proposta pela narrativa. Em tempos de polarização crescente, essa barreira tende apenas a se tornar mais evidente.

Distribuído pela Amaia Distribuidora, Eu Não Te Ouço estreia nos cinemas brasileiros em 14 de maio.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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