Dirigido por Andy Serkis, A Revolução dos Bichos adapta livremente o clássico de George Orwell e transforma uma crítica ao totalitarismo em um grito contra o capitalismo e as corporações.
Existe muito a ser dito sobre A Revolução dos Bichos. A forma como Orwell despeja, nesta fábula, todo o seu amargor em relação ao governo de Stalin e aos abusos de poder. As alegorias diretas, a potente crítica social, a coragem de retratar tudo isso através de uma estética tradicionalmente infantil e, principalmente, o final sombrio que nos lembra dos perigos dos regimes totalitários.
Em 1954, a CIA encomendou uma adaptação animada dirigida por John Halas e Joy Batchelor, como forma de uma mensagem anticomunista. Na ocasião, o final poético e aterrorizante concebido por Orwell foi alterado em favor de uma mensagem de revolta contra regimes autoritários.
Quando a nova versão de Serkis entrou no meu radar, especialmente ao descobrir que se tratava de uma produção da Angel Studios, minha primeira preocupação foi justamente a possibilidade de mais uma “passada de pano” sobre o desfecho original. No entanto, o problema crítico da adaptação vai muito além disso.

Cena de “A Revolução dos Bichos”- Divulgação Paris Filmes
Projeto dos sonhos de Serkis, A Revolução dos Bichos foi anunciado ainda em 2011 e, após anos preso no limbo do desenvolvimento, finalmente chega aos cinemas. Para facilitar a análise, é importante destacar o triângulo que estrutura esta nova adaptação: elenco, animação e a própria releitura da obra.
Começando pelo elenco, a escolha de Seth Rogen como Napoleão é, no mínimo, curiosa. Afinal, o personagem criado por Orwell era uma representação direta de Stalin. Porém, quando percebemos que esta versão do porco está muito mais próxima de figuras como Jeff Bezos e Elon Musk do que de Stalin ou Hitler, o sentimento resultante é simplesmente bizarro.
Apesar de contar com um elenco recheado de celebridades, como Glenn Close, Gaten Matarazzo, Jim Parsons e Kieran Culkin em seu primeiro papel cinematográfico após o Oscar, grande parte do elenco é subaproveitada, entregando pouca emoção em suas interpretações vocais. Ainda assim, um nome literalmente carrega o filme nas costas.
Woody Harrelson entrega em Sansão uma sinceridade emocional que sustenta boa parte da produção. Para os leitores de Orwell, a importância do cavalo na narrativa, especialmente sua morte, representa um dos momentos mais devastadores da obra original. Harrelson compreende isso perfeitamente e transforma Sansão no principal veículo da mensagem de união e liberdade que o filme tenta transmitir.
Visualmente, existe uma clara tentativa de “Disneyficação”, incluindo a exclusão de momentos mais densos e a introdução de Lucky, personagem criado para trazer um olhar mais lúdico e infantil à trama. É interessante perceber como o céu acompanha o estado emocional dos personagens, alternando entre o brilho intenso do sol, tons rubros e uma escuridão quase obsidiana. Ainda assim, a animação em 3D parece inacabada em diversos momentos. Isso não seria necessariamente um problema caso o roteiro conseguisse compensar essas limitações, algo que infelizmente não acontece.

Cena de “A Revolução dos Bichos”- Divulgação Paris Filmes
“Livremente inspirado em A Revolução dos Bichos” talvez seja a definição mais apropriada para descrever o filme de Serkis. Sim, os personagens principais continuam presentes, e algumas atualizações fortalecem aspectos da análise de Orwell, como o arco de Carl, a ovelha, ou mesmo a adaptação da trajetória de Sansão. No entanto, ao substituir a discussão sobre totalitarismo por uma crítica voltada à ganância corporativa e ao capitalismo moderno, o longa perde grande parte da força política e simbólica de seu material de origem.
Com piadas pouco inspiradas, além de um uso desperdiçado da ironia presente no texto original, A Revolução dos Bichos constantemente parece incapaz de compreender o peso da obra que adapta. Isso fica evidente já na introdução de Napoleão e Bola de Neve. O terceiro ato, por sua vez, mergulha em um espetáculo grandioso e caótico que acaba destruindo tudo o que havia sido construído até então. Onde poderia existir ironia, desconforto e homenagem, surge uma produção excessivamente voltada ao público infantil, algo que nunca foi o objetivo de Orwell.
Ao final, A Revolução dos Bichos acaba funcionando melhor como curiosidade do que como adaptação. O cuidado e o carinho de Serkis pelo material são evidentes, mas toda a estrutura do projeto, e o peso inevitável de adaptar uma das obras mais importantes da literatura mundial, fazem com que a comparação com o original seja inevitável. E, nesse aspecto, o filme sempre sairá perdendo, independentemente do critério utilizado.
Distribuído pela Paris Filmes, A Revolução dos Bichos estreia nos cinemas brasileiros no dia 28 de maio.
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