Sete anos após o final de Game of Thrones dividir fãs no mundo inteiro, a HBO volta a enfrentar acusações de estar cometendo exatamente os mesmos erros que transformaram a despedida da série em uma das mais controversas da história da televisão.
A estreia da terceira temporada de A Casa do Dragão trouxe duas decisões explosivas: uma morte inesperada e a confirmação de uma mudança significativa em relação aos livros de George R. R. Martin. Juntas, elas alimentaram uma discussão que tomou conta das redes sociais e dos fóruns especializados: Rhaenyra Targaryen está prestes a seguir o mesmo caminho de Daenerys?
E a polêmica ganha ainda mais força porque o próprio George R. R. Martin já criticou publicamente algumas mudanças feitas pela série.
Ao longo das duas primeiras temporadas, A Casa do Dragão trabalhou para construir uma versão mais humana e heroica de Rhaenyra Targaryen.
Mesmo após perder Lucerys Velaryon, a rainha tentou manter certo equilíbrio. A personagem interpretada por Emma D’Arcy frequentemente apareceu como a figura mais racional dentro do conflito entre negros e verdes.
Mas tudo mudou na estreia da terceira temporada.
SPOILER A SEGUIR
Enquanto a guerra parecia se aproximar do fim e a conquista do Trono de Ferro estava mais próxima do que nunca, Jacaerys Velaryon acabou morto durante a Batalha da Goela. O herdeiro e principal aliado político da rainha foi atingido nos instantes finais do episódio, deixando a tragédia para ser explorada nos capítulos seguintes.
A perda acontece justamente quando Rhaenyra acreditava estar perto da vitória definitiva.
Para muitos fãs, a situação lembra de maneira preocupante a trajetória de Daenerys Targaryen em Game of Thrones.
A HBO pode estar criando outra “Rainha Louca”
Em 2019, a destruição de Porto Real por Daenerys dividiu a audiência. O problema nunca foi a possibilidade da personagem se tornar uma governante cruel, mas sim a velocidade com que isso aconteceu.
Durante quase toda a série, Daenerys foi retratada como uma heroína libertadora. A mudança abrupta nos episódios finais gerou críticas que permanecem até hoje.
Agora, A Casa do Dragão parece seguir uma fórmula parecida.

Emma D’Arcy já havia antecipado, em entrevistas, que Rhaenyra desenvolveria uma espécie de “fanatismo religioso” que passaria a radicalizar suas decisões.
Nos livros Fogo & Sangue, isso faz parte da trajetória da personagem. O problema, segundo muitos fãs, é que a série passou duas temporadas suavizando aspectos mais sombrios da rainha.
Na obra de George R. R. Martin, Rhaenyra sempre demonstrou tendências mais temperamentais, paranoicas e impulsivas. Já a adaptação televisiva optou por apresentar uma versão mais simpática e equilibrada.
Por isso, parte do público teme que a transformação em uma figura cruel aconteça de forma acelerada, repetindo um dos aspectos mais criticados de Game of Thrones.
As tensões entre o autor e a adaptação da HBO não são novidade.

George R. R. Martin chegou a afirmar que pequenas alterações podem gerar um “efeito borboleta” capaz de modificar profundamente a narrativa.
E a terceira temporada parece confirmar exatamente isso.
Uma das maiores mudanças promovidas pela série foi a eliminação de Nettles, personagem importante de Fogo & Sangue.
O desaparecimento de Nettles é uma das decisões mais controversas da série
Nos livros, Nettles é uma das chamadas “sementes de dragão”, bastarda que consegue domar o dragão selvagem Sheepstealer e participa ativamente da Dança dos Dragões.
Mais tarde, ela desenvolve uma relação próxima com Daemon Targaryen, despertando o ciúme de Rhaenyra.
A rainha passa a acreditar que Nettles utilizou feitiçaria para conquistar Sheepstealer e ordena sua morte. Daemon, porém, ajuda a jovem a fugir, provocando um rompimento entre ele e Rhaenyra.
Nada disso parece existir na adaptação da HBO.
A série decidiu transferir toda a trama de Nettles para Rhaena Targaryen, filha de Daemon.
Na estreia da terceira temporada, Rhaena finalmente monta Sheepstealer e participa da Batalha da Goela.
Só que a mudança veio acompanhada de uma consequência devastadora.
Diferentemente dos livros, a falta de controle sobre o dragão acaba contribuindo diretamente para a morte de Jacaerys Velaryon e de Vermax.
A alteração cria um novo problema para a família Targaryen.
Se Rhaenyra descobrir que Rhaena teve participação na tragédia, a relação entre a rainha e Daemon pode entrar em colapso.
Ao contrário do material original, em que o conflito nasce de um suposto romance entre Daemon e Nettles, a série constrói algo ainda mais doloroso: uma mãe devastada culpando a filha do próprio marido pela morte do herdeiro.
A mudança torna Daemon mais simpático e Rhaenyra mais trágica
Curiosamente, a alteração também modifica profundamente a imagem dos personagens.
Nos livros, Daemon é acusado de manter um relacionamento com Nettles, o que leva Rhaenyra a reagir de maneira extrema.
Já em A Casa do Dragão, o cenário é muito mais complexo.
Daemon provavelmente se verá obrigado a proteger sua filha, enquanto Rhaenyra lidará com o luto e a sensação de traição dentro da própria família.
O conflito se torna menos uma questão de ciúmes e mais uma tragédia familiar.
Mas há quem considere que a série esteja forçando acontecimentos para justificar a futura deterioração psicológica da rainha.
A Casa do Dragão está tornando Rhaenyra mais parecida com Daenerys?
Uma crítica frequente é que a HBO parece atribuir a loucura dos Targaryen a uma espécie de “gene da insanidade”.
Nos livros de George R. R. Martin, a degradação de personagens como Rhaenyra ou até mesmo Daenerys é muito mais associada ao peso do poder, à guerra e às perdas acumuladas.
A famosa frase “cada vez que nasce um Targaryen, os deuses jogam uma moeda” nunca foi apresentada pelo autor como uma regra absoluta.

Por isso, parte dos leitores teme que a série simplifique novamente personagens complexos em favor da ideia da “Rainha Louca”.
Enquanto isso, o universo de Westeros continua crescendo
Apesar das polêmicas, a franquia segue em expansão.
A Warner Bros. confirmou oficialmente o desenvolvimento de Game of Thrones: Dragonfire, jogo gratuito para celulares inspirado no universo de Westeros.
No game, os jogadores assumem o papel de um descendente de Valíria, criam dragões, formam alianças e disputam o controle de Porto Real.
Além disso, a segunda temporada de O Cavaleiro dos Sete Reinos (A Knight of the Seven Kingdoms) continua sendo preparado pela HBO e promete ampliar ainda mais o universo criado por George R. R. Martin.
Com A Casa do Dragão alcançando seu terceiro ano, a franquia demonstra que continua sendo uma das propriedades mais importantes da televisão.
Mas, ironicamente, o fantasma que mais assombra a série não é Vhagar, Aemond ou a guerra civil dos Targaryen.
É o final de Game of Thrones.
E muitos fãs esperam que a HBO tenha aprendido com as críticas de 2019.
Porque, se Rhaenyra realmente se tornar uma nova Daenerys sem a construção adequada, a história pode acabar repetindo a mesma tragédia — desta vez, diante de uma audiência que já conhece esse caminho.
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