A eliminação da Seleção Brasileira reacendeu o debate sobre a formação de atletas e craques. Hoje, apenas 72 dos mais de 1.200 clubes do país possuem o Certificado de Clube Formador da CBF. Especialistas explicam por que investir na base é decisivo para o futuro do futebol brasileiro.
A eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026 voltou a provocar uma discussão que vai muito além dos 90 minutos em campo. Se dentro das quatro linhas o país ainda convive com o peso de resultados frustrantes nas últimas edições do Mundial, fora delas cresce a percepção de que o problema começa muito antes da convocação da equipe principal. Especialistas, dirigentes e profissionais da formação de atletas apontam para uma mesma direção: o futebol brasileiro precisa voltar a investir seriamente nas categorias de base.
Os números ajudam a explicar a preocupação. Atualmente, apenas 72 dos mais de 1.200 clubes em atividade no Brasil possuem o Certificado de Clube Formador (CCF), concedido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Na prática, isso significa que somente cerca de 6% das equipes brasileiras atendem aos critérios considerados ideais para desenvolver jovens atletas em um ambiente estruturado, com acompanhamento esportivo, educacional, médico e psicológico.
Embora o Brasil continue exportando jogadores para os principais campeonatos do mundo, especialistas alertam que a revelação de talentos deixou de depender apenas do improviso e passou a exigir investimentos robustos em infraestrutura e desenvolvimento humano.
“O futuro da Seleção começa nas categorias de base, não na convocação”, resume o CEO do Villa Nova SAF, Sergio Pinheiro. Segundo ele, a formação de atletas representa muito mais do que preparar jogadores para o elenco profissional. “É nela que os clubes constroem identidade, desenvolvem talentos e criam oportunidades para milhares de jovens.”
O Certificado de Clube Formador é considerado hoje uma das principais credenciais do futebol brasileiro quando o assunto é formação de atletas. Para obtê-lo, o clube precisa comprovar uma série de requisitos que vão muito além dos treinamentos.
Entre as exigências estão estrutura física adequada, alojamento, alimentação, acompanhamento escolar, suporte médico, assistência psicológica, equipe multidisciplinar e garantia dos direitos dos jovens atletas.
Na avaliação de Sergio Pinheiro, é justamente esse conjunto de fatores que explica por que tão poucos clubes conseguem alcançar a certificação.
“Manter um clube formador exige investimento permanente em infraestrutura, profissionais especializados, alimentação, educação e acompanhamento social. Muitas equipes simplesmente não conseguem sustentar esse modelo”, afirma.
Sem essa estrutura, o processo de formação fica comprometido não apenas tecnicamente, mas também no desenvolvimento físico, emocional e educacional dos jogadores.
Enquanto boa parte do futebol brasileiro ainda enfrenta dificuldades para estruturar suas categorias inferiores, o Villa Nova SAF, de Nova Lima (MG), decidiu transformar a formação de atletas em prioridade estratégica.
O clube reativou neste ano as categorias Sub-15, Sub-17 e Sub-20, que estavam descontinuadas havia quase uma década, e agora amplia o projeto com a criação da equipe Sub-13.
Neste domingo (12), o Leão do Bonfim realiza uma seletiva para jovens nascidos em 2013 e 2014. A avaliação acontece no Centro de Treinamento do clube, em Nova Lima, entre 9h e 12h, com credenciamento previsto para as 7h30.
A expectativa é repetir o sucesso das peneiras realizadas em abril, quando mais de 300 atletas participaram das avaliações para as categorias Sub-15 e Sub-17.
O investimento faz parte de um projeto mais amplo de reconstrução da base, impulsionado pela SAF comandada pelo Boston City Group.
Modelo internacional
Inspirado em metodologias adotadas no exterior, o projeto busca integrar todas as categorias do clube ao elenco profissional, permitindo que os atletas tenham uma formação contínua desde as divisões iniciais até o futebol principal.
A estrutura disponível hoje inclui quatro campos em padrão FIFA, alojamento para até 100 atletas, cinco refeições diárias, acompanhamento pedagógico, assistência psicológica, nutricional e fisioterápica, além de suporte médico realizado em parceria com a Rede Mater Dei.
Ao todo, cerca de 150 jovens participam atualmente do programa, acompanhados por aproximadamente 100 profissionais entre treinadores, médicos, psicólogos, pedagogos, fisioterapeutas e assistentes sociais.
Segundo o clube, o objetivo é formar cidadãos antes mesmo de formar jogadores.
Além dos treinamentos, os atletas recebem orientação sobre comportamento profissional, educação financeira, gestão da imagem e preparação emocional para a carreira.
O trabalho desenvolvido pelo Boston City Group já apresenta resultados práticos.
Jogadores formados dentro do ecossistema do grupo atuam atualmente em clubes da Estônia, Portugal, Turquia e também no futebol brasileiro. Um dos casos é o atacante Paulo Vitor Monteiro, hoje vinculado ao Atlético Mineiro e emprestado ao Avaí.
Para o Villa Nova, esses exemplos reforçam que investir na formação não significa apenas abastecer o elenco profissional, mas criar patrimônio esportivo, fortalecer financeiramente os clubes e ampliar oportunidades para jovens atletas.
Apesar do cenário preocupante no futebol brasileiro, alguns clubes seguem sendo referência na formação de talentos. O Vasco da Gama é um dos principais exemplos desse trabalho de longo prazo com foco em craques.
Historicamente reconhecido por revelar jogadores que marcaram época, como Roberto Dinamite, Romário, Philippe Coutinho e Rayan, o Cruz-Maltino mantém uma das categorias de base mais tradicionais do país, apesar das últimas crises e erros de gestão.
O trabalho desenvolvido em São Januário e no Centro de Treinamento Moacyr Barbosa continua sendo responsável pela lapidação de jovens atletas, reforçando a importância de investir em estrutura, acompanhamento multidisciplinar e oportunidades para que novos talentos cheguem ao futebol profissional e, futuramente, à Seleção Brasileira.
Há outras questões que atrapalham o futuro do Brasil no futebol, como a europeização do nosso estilo de jogo e a venda rápida de jovens para o exterior.

O futebol também virou instrumento político
Se a formação de atletas representa um desafio para países tradicionalmente produtores de talentos, o cenário internacional mostra que o futebol ganhou uma dimensão ainda mais ampla.
Segundo o cientista político Rafael Pons Reis, professor da Uninter e doutor em Sociologia Política pela UFSC, o esporte deixou de ser apenas entretenimento e passou a ocupar um papel estratégico na política internacional.
O conceito conhecido como sportswashing descreve justamente o uso de grandes eventos esportivos e de estrelas do futebol para fortalecer a imagem de governos e ampliar sua influência global.
A contratação de Cristiano Ronaldo pelo Al-Nassr, seguida pelas chegadas de Neymar, Karim Benzema e outros astros à Arábia Saudita, representa um dos exemplos mais evidentes dessa estratégia.

Na avaliação do pesquisador, a presença desses jogadores ajudou a transformar a liga saudita em uma vitrine internacional, reforçando um projeto político e econômico que culminará com a realização da Copa do Mundo de 2034 no país.
O mesmo fenômeno pode ser observado em outros mercados. Lionel Messi ampliou a visibilidade internacional da Major League Soccer (MLS), enquanto David Beckham teve papel decisivo na internacionalização do futebol norte-americano e, posteriormente, na criação do Inter Miami.
Para Rafael Pons Reis, o futebol passou a funcionar como uma poderosa ferramenta diplomática, capaz de atrair investimentos, fortalecer marcas nacionais e reposicionar países no cenário internacional.
Enquanto ligas emergentes investem bilhões para aumentar sua influência global, especialistas defendem que o principal investimento do Brasil continua sendo a formação de atletas.
A tradição de revelar alguns dos maiores jogadores da história permanece como um diferencial competitivo, mas exige uma estrutura cada vez mais profissional para ser mantida.
A eliminação na Copa de 2026 reforçou que o futuro da Seleção Brasileira começa muito antes das convocações. Ele depende da capacidade dos clubes de descobrir talentos, oferecer condições adequadas de desenvolvimento e construir um ambiente que forme não apenas jogadores de alto rendimento, mas também cidadãos preparados para uma carreira cada vez mais exigente dentro e fora dos gramados.
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!
Leia mais
- Crítica: ‘A Divina Sarah Bernhardt’ entrega humanidade demais para alguém que deveria ser sagrada
- Crítica: ‘Um Triste e Belo Mundo’ emociona com romance e esperança, mas falta algo importante
- Crítica: ‘A Morte do Demônio: Em Chamas’ traz inovação, mas não se separa do próprio passado
- Crítica: ‘Moana’ é bonito, mas deixa eu te falar…



