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Vasco da Gama x Márica pelo Campeonato Carioca realizado no Estádio de São Januário em 15 de Janeiro de 2026. Fotos: Matheus Lima/Vasco.
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Por que o Brasil parou de revelar tantos craques? Números da base preocupam após nova queda na Copa

Por Alvaro Tallarico
Última Atualização 11 de julho de 2026
10 Min Leitura
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Vasco da Gama x Márica pelo Campeonato Carioca realizado no Estádio de São Januário em 15 de Janeiro de 2026. Fotos: Matheus Lima/Vasco.
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A eliminação da Seleção Brasileira reacendeu o debate sobre a formação de atletas e craques. Hoje, apenas 72 dos mais de 1.200 clubes do país possuem o Certificado de Clube Formador da CBF. Especialistas explicam por que investir na base é decisivo para o futuro do futebol brasileiro.

A eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026 voltou a provocar uma discussão que vai muito além dos 90 minutos em campo. Se dentro das quatro linhas o país ainda convive com o peso de resultados frustrantes nas últimas edições do Mundial, fora delas cresce a percepção de que o problema começa muito antes da convocação da equipe principal. Especialistas, dirigentes e profissionais da formação de atletas apontam para uma mesma direção: o futebol brasileiro precisa voltar a investir seriamente nas categorias de base.

Os números ajudam a explicar a preocupação. Atualmente, apenas 72 dos mais de 1.200 clubes em atividade no Brasil possuem o Certificado de Clube Formador (CCF), concedido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Na prática, isso significa que somente cerca de 6% das equipes brasileiras atendem aos critérios considerados ideais para desenvolver jovens atletas em um ambiente estruturado, com acompanhamento esportivo, educacional, médico e psicológico.

Embora o Brasil continue exportando jogadores para os principais campeonatos do mundo, especialistas alertam que a revelação de talentos deixou de depender apenas do improviso e passou a exigir investimentos robustos em infraestrutura e desenvolvimento humano.

“O futuro da Seleção começa nas categorias de base, não na convocação”, resume o CEO do Villa Nova SAF, Sergio Pinheiro. Segundo ele, a formação de atletas representa muito mais do que preparar jogadores para o elenco profissional. “É nela que os clubes constroem identidade, desenvolvem talentos e criam oportunidades para milhares de jovens.”

O Certificado de Clube Formador é considerado hoje uma das principais credenciais do futebol brasileiro quando o assunto é formação de atletas. Para obtê-lo, o clube precisa comprovar uma série de requisitos que vão muito além dos treinamentos.

Entre as exigências estão estrutura física adequada, alojamento, alimentação, acompanhamento escolar, suporte médico, assistência psicológica, equipe multidisciplinar e garantia dos direitos dos jovens atletas.

Na avaliação de Sergio Pinheiro, é justamente esse conjunto de fatores que explica por que tão poucos clubes conseguem alcançar a certificação.

“Manter um clube formador exige investimento permanente em infraestrutura, profissionais especializados, alimentação, educação e acompanhamento social. Muitas equipes simplesmente não conseguem sustentar esse modelo”, afirma.

Sem essa estrutura, o processo de formação fica comprometido não apenas tecnicamente, mas também no desenvolvimento físico, emocional e educacional dos jogadores.

Enquanto boa parte do futebol brasileiro ainda enfrenta dificuldades para estruturar suas categorias inferiores, o Villa Nova SAF, de Nova Lima (MG), decidiu transformar a formação de atletas em prioridade estratégica.

O clube reativou neste ano as categorias Sub-15, Sub-17 e Sub-20, que estavam descontinuadas havia quase uma década, e agora amplia o projeto com a criação da equipe Sub-13.

Neste domingo (12), o Leão do Bonfim realiza uma seletiva para jovens nascidos em 2013 e 2014. A avaliação acontece no Centro de Treinamento do clube, em Nova Lima, entre 9h e 12h, com credenciamento previsto para as 7h30.

A expectativa é repetir o sucesso das peneiras realizadas em abril, quando mais de 300 atletas participaram das avaliações para as categorias Sub-15 e Sub-17.

O investimento faz parte de um projeto mais amplo de reconstrução da base, impulsionado pela SAF comandada pelo Boston City Group.

Modelo internacional

Inspirado em metodologias adotadas no exterior, o projeto busca integrar todas as categorias do clube ao elenco profissional, permitindo que os atletas tenham uma formação contínua desde as divisões iniciais até o futebol principal.

A estrutura disponível hoje inclui quatro campos em padrão FIFA, alojamento para até 100 atletas, cinco refeições diárias, acompanhamento pedagógico, assistência psicológica, nutricional e fisioterápica, além de suporte médico realizado em parceria com a Rede Mater Dei.

Ao todo, cerca de 150 jovens participam atualmente do programa, acompanhados por aproximadamente 100 profissionais entre treinadores, médicos, psicólogos, pedagogos, fisioterapeutas e assistentes sociais.

Segundo o clube, o objetivo é formar cidadãos antes mesmo de formar jogadores.

Além dos treinamentos, os atletas recebem orientação sobre comportamento profissional, educação financeira, gestão da imagem e preparação emocional para a carreira.

O trabalho desenvolvido pelo Boston City Group já apresenta resultados práticos.

Jogadores formados dentro do ecossistema do grupo atuam atualmente em clubes da Estônia, Portugal, Turquia e também no futebol brasileiro. Um dos casos é o atacante Paulo Vitor Monteiro, hoje vinculado ao Atlético Mineiro e emprestado ao Avaí.

Para o Villa Nova, esses exemplos reforçam que investir na formação não significa apenas abastecer o elenco profissional, mas criar patrimônio esportivo, fortalecer financeiramente os clubes e ampliar oportunidades para jovens atletas.

Apesar do cenário preocupante no futebol brasileiro, alguns clubes seguem sendo referência na formação de talentos. O Vasco da Gama é um dos principais exemplos desse trabalho de longo prazo com foco em craques.

Historicamente reconhecido por revelar jogadores que marcaram época, como Roberto Dinamite, Romário, Philippe Coutinho e Rayan, o Cruz-Maltino mantém uma das categorias de base mais tradicionais do país, apesar das últimas crises e erros de gestão.

O trabalho desenvolvido em São Januário e no Centro de Treinamento Moacyr Barbosa continua sendo responsável pela lapidação de jovens atletas, reforçando a importância de investir em estrutura, acompanhamento multidisciplinar e oportunidades para que novos talentos cheguem ao futebol profissional e, futuramente, à Seleção Brasileira.

Há outras questões que atrapalham o futuro do Brasil no futebol, como a europeização do nosso estilo de jogo e a venda rápida de jovens para o exterior.

O futebol também virou instrumento político

Se a formação de atletas representa um desafio para países tradicionalmente produtores de talentos, o cenário internacional mostra que o futebol ganhou uma dimensão ainda mais ampla.

Segundo o cientista político Rafael Pons Reis, professor da Uninter e doutor em Sociologia Política pela UFSC, o esporte deixou de ser apenas entretenimento e passou a ocupar um papel estratégico na política internacional.

O conceito conhecido como sportswashing descreve justamente o uso de grandes eventos esportivos e de estrelas do futebol para fortalecer a imagem de governos e ampliar sua influência global.

A contratação de Cristiano Ronaldo pelo Al-Nassr, seguida pelas chegadas de Neymar, Karim Benzema e outros astros à Arábia Saudita, representa um dos exemplos mais evidentes dessa estratégia.

seleção brasileira futebol convocados Brasil x Croácia em Liverpool. Neymar. Lucas Figueiredo/CBF
Brasil x Croácia em Liverpool. Neymar. Lucas Figueiredo/CBF

Na avaliação do pesquisador, a presença desses jogadores ajudou a transformar a liga saudita em uma vitrine internacional, reforçando um projeto político e econômico que culminará com a realização da Copa do Mundo de 2034 no país.

O mesmo fenômeno pode ser observado em outros mercados. Lionel Messi ampliou a visibilidade internacional da Major League Soccer (MLS), enquanto David Beckham teve papel decisivo na internacionalização do futebol norte-americano e, posteriormente, na criação do Inter Miami.

Para Rafael Pons Reis, o futebol passou a funcionar como uma poderosa ferramenta diplomática, capaz de atrair investimentos, fortalecer marcas nacionais e reposicionar países no cenário internacional.

Enquanto ligas emergentes investem bilhões para aumentar sua influência global, especialistas defendem que o principal investimento do Brasil continua sendo a formação de atletas.

A tradição de revelar alguns dos maiores jogadores da história permanece como um diferencial competitivo, mas exige uma estrutura cada vez mais profissional para ser mantida.

A eliminação na Copa de 2026 reforçou que o futuro da Seleção Brasileira começa muito antes das convocações. Ele depende da capacidade dos clubes de descobrir talentos, oferecer condições adequadas de desenvolvimento e construir um ambiente que forme não apenas jogadores de alto rendimento, mas também cidadãos preparados para uma carreira cada vez mais exigente dentro e fora dos gramados.

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PorAlvaro Tallarico
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Jornalista especializado em Jornalismo Cultural pela UERJ.

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