Dirigido por Christopher Nolan, A Odisseia entrega um épico digno de Homero, unindo guerra, espetáculo e poesia em uma produção que dificilmente poderia ter sido realizada por outro cineasta.
Christopher Nolan consolidou sua carreira conciliando espetáculos grandiosos com uma abordagem surpreendentemente realista. Seja acompanhando super-heróis, explorando sonhos ou brincando com viagens no tempo, seus filmes sempre buscam fundamentar o extraordinário em uma lógica humana.
Depois de finalmente conquistar o Oscar por Oppenheimer (2023), o diretor escolheu como novo desafio adaptar A Odisseia, de Homero. A princípio, a escolha parecia improvável, mas justamente sua preocupação em privilegiar o lado humano da narrativa faz desta uma das adaptações mais interessantes do clássico.
Gravado inteiramente com câmeras IMAX, A Odisseia proporciona uma experiência visual monumental. Nolan opta por iniciar a história acompanhando Telêmaco e Penélope, filho e esposa de Odisseu, respectivamente, enquanto o protagonista permanece ausente por mais de meia hora. A escolha transforma sua figura em uma espécie de lenda, construída pelos relatos daqueles que cruzaram seu caminho antes mesmo de surgir em cena.

Cena de “A Odisseia”- Divulgação Universal Pictures
Como em boa parte de sua filmografia, Nolan utiliza o tempo como principal ferramenta narrativa. A história avança por diferentes linhas temporais sem perder a clareza, costurando episódios clássicos da obra de Homero, como os encontros com Polifemo e Circe, em uma estrutura fragmentada. Em determinados momentos, essa construção episódica pode comprometer o ritmo, tornando o primeiro ato mais lento do que o necessário. Ainda assim, todas essas passagens convergem para uma mesma ideia: a longa jornada de um homem tentando encontrar novamente o caminho de casa.
É justamente nessa leitura que reside o maior acerto do filme.
Homero descreve Odisseu como um homem extremamente inteligente, mas igualmente orgulhoso. Nolan amplia essa característica ao dialogar com uma interpretação proposta por Joseph Campbell em DEUSAS: O Mistério do Sagrado Feminino (2013). Segundo o autor, A Ilíada representa o afastamento do homem do sagrado feminino; após anos vivendo apenas da guerra, da violência e do Pathos, Odisseu só seria capaz de retornar ao lar quando recuperasse sua identidade como pai, marido e ser humano.
A culpa torna-se, então, o verdadeiro motor da narrativa. Odisseu carrega o peso da destruição de Troia, da morte de seus companheiros e da própria arrogância ao desafiar os deuses. Sua maior batalha nunca é contra monstros ou criaturas fantásticas, mas contra o próprio orgulho, responsável por afastá-lo de tudo aquilo que desejava proteger.

Samantha Morton em cena de “A Odisseia”- Divulgação Universal Pictures
Nolan reforça essa leitura ao utilizar outros personagens como espelhos do protagonista. Menelau, Antínoo e Agamêmnon representam diferentes formas de masculinidade incapazes de abandonar a lógica da guerra. Enquanto permanecem presos ao orgulho, Odisseu é o único que encontra paz ao reconhecer suas falhas e reconstruir sua própria identidade.
Essa abordagem também orienta todas as escolhas técnicas do filme.
A fotografia de Hoyte van Hoytema utiliza o formato IMAX para destacar a grandiosidade do mundo que cerca seus personagens, diminuindo visualmente Odisseu diante da natureza, dos deuses e do próprio destino. Muito além do espetáculo visual, cada enquadramento reforça a sensação de que o protagonista é apenas um homem tentando sobreviver em um universo infinitamente maior do que ele.
A direção de Nolan demonstra grande precisão ao selecionar quais episódios da obra original merecem espaço na adaptação. A decisão de reduzir a participação direta dos deuses e concentrar-se principalmente em Atena evita excessos e fortalece o drama humano. Da mesma forma, a Guerra de Troia surge de maneira fragmentada, revelada aos poucos por diferentes perspectivas, transformando um acontecimento conhecido em um eficiente mistério narrativo.
A trilha sonora de Ludwig Göransson complementa essa proposta ao privilegiar instrumentos inspirados na tradição da Grécia Antiga, como flautas, percussões e xilofones. O resultado é uma atmosfera que amplia tanto os momentos contemplativos quanto as sequências de maior tensão, sustentando emocionalmente passagens em que a narrativa perde parte de seu dinamismo.

Anne Hathaway em cena de “A Odisseia”- Divulgação Universal Pictures
Principalmente em seu terceiro ato, que demonstra finalmente o retorno de Odisseu para Ítaca, A Odisseia inicia uma longa sequência de ação que poderia ter sido melhor coreografada e iluminada, porém, o sentimento de catarse ao vermos Odisseu finalmente vencendo, é um dos pontos auges da produção, ocasionando um evidente paralelo com O Retorno (2025, Uberto Pasolini), mas do modo mais Nolan possível.
Ainda que a estrutura episódica ocasionalmente prejudique o ritmo e alguns trechos se alonguem além do necessário, A Odisseia nunca perde de vista aquilo que realmente importa. Christopher Nolan compreende que a força do poema de Homero nunca esteve apenas em seus monstros, deuses ou batalhas, mas na transformação de um homem incapaz de voltar para casa antes de enfrentar a própria culpa. Ao privilegiar os sentimentos humanos acima do espetáculo fantástico, o diretor entrega uma adaptação monumental, emocionalmente poderosa e, sem dúvida, um dos grandes filmes do ano.
Distribuído pela Universal Pictures, A Odisseia chega aos cinemas no dia 16 de Julho.
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