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Cena de "Futuro Futuro"- Divulgação Cajuína Filmes
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Futuro Futuro’ é sopa com muitos ingredientes mas sem tempero

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 16 de julho de 2026
6 Min Leitura
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Cena de "Futuro Futuro"- Divulgação Cajuína Filmes
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Dirigido por Davi Pretto, Futuro Futuro propõe uma reflexão sobre inteligência artificial e a superficialidade de um mundo à beira do colapso, mas tropeça justamente na incapacidade de construir uma narrativa consistente.

Em um mundo marcado pela pós-verdade, pela crescente presença da inteligência artificial e pela superficialidade das relações, discutir esses temas por meio do cinema tornou-se praticamente inevitável. De cineastas como Gore Verbinski a realizadores brasileiros como Davi Pretto, diferentes obras contemporâneas procuram interpretar esse novo cenário, cada uma à sua maneira.

No caso de Pretto, porém, existe um contexto adicional que influencia diretamente o resultado final. Futuro Futuro foi profundamente afetado pelas enchentes que atingiram Porto Alegre em 2024, obrigando o diretor a reformular seu roteiro durante a produção. Ainda assim, o principal problema do longa não está na utilização de IA para concluir determinadas etapas do projeto, mas no fato de que seu roteiro permanece excessivamente raso, incapaz de oferecer uma base dramática sólida para sustentar as muitas ideias que apresenta.

Ao longo de seus 90 minutos, acompanhamos K, vivido pelo estreante Zé Maria Pescador. Em um futuro próximo, o protagonista, um homem de cerca de quarenta anos que sofre com perda de memória, vive na região mais empobrecida de uma cidade brasileira permanentemente chuvosa. Após utilizar um dispositivo de inteligência artificial capaz de mergulhar seus usuários em sonhos durante um curso voltado a pessoas com uma misteriosa síndrome neurológica, ele embarca em uma jornada ao mesmo tempo trágica e absurda em busca de um lugar no mundo.

Cena de "Futuro Futuro"- Divulgação Cajuína Filmes

Cena de “Futuro Futuro”- Divulgação Cajuína Filmes

O problema é que o filme tenta condensar uma quantidade enorme de conceitos sem lhes dar o desenvolvimento necessário. O dispositivo de IA, a síndrome neurológica, a divisão social entre ricos e pobres e até mesmo o iminente fim do mundo parecem ideias suficientemente robustas para sustentar obras próprias, mas surgem aqui apenas como informações lançadas ao espectador. Em vez de enriquecer a experiência, essa sobreposição de elementos gera confusão e um crescente distanciamento emocional, já que acompanhamos as descobertas de K sem jamais compreender verdadeiramente o universo ao seu redor.

O próprio protagonista sofre com uma construção excessivamente passiva. K passa boa parte da narrativa sendo conduzido pelos acontecimentos, raramente tomando decisões por conta própria. Sua perda de memória é apresentada como uma condição que simplesmente deve ser aceita, sem que o roteiro demonstre interesse em explicar minimamente sua origem ou funcionamento. Surge então uma dúvida inevitável: se o próprio filme não se preocupa em estabelecer as regras básicas de seu universo, por que o espectador deveria se envolver com ele?

As sequências produzidas com auxílio de inteligência artificial são perceptíveis, mas acabam se integrando a uma estética que já parece propositalmente fragmentada. Cenários inteiramente banhados por tons vermelhos, mudanças constantes na proporção da imagem e uma fotografia que frequentemente rompe sua própria identidade conferem escala e personalidade visual à obra. Entretanto, trata-se de uma sofisticação estética que pouco acrescenta ao desenvolvimento dramático.

Cena de "Futuro Futuro"- Divulgação Cajuína Filmes

Cena de “Futuro Futuro”- Divulgação Cajuína Filmes

A montagem também contribui para essa sensação de estagnação. O ritmo permanece uniforme durante praticamente toda a projeção, sem grandes variações de intensidade, o que faz com que o interesse diminua progressivamente. Nesse aspecto, Futuro Futuro lembra Enterrem Seus Mortos (2024), de Marco Dutra, outra produção que aposta em um universo futurista sem estabelecer claramente suas regras, esperando que o público simplesmente acompanhe as descobertas ao longo do percurso. Quando essa construção não acontece, a sensação é de que o espectador precisa preencher lacunas que deveriam pertencer ao próprio roteiro.

Essa ausência de conexão entre as diversas camadas de Futuro Futuro acaba sintetizando uma tendência presente em parte do cinema brasileiro contemporâneo: a ideia de que basta apresentar acontecimentos para que o público construa sozinho seus significados. Em alguns casos, essa estratégia produz resultados fascinantes; aqui, porém, ela conduz a uma sucessão de cenas que raramente encontram um propósito dramático maior.

Interpretações ainda inexperientes, diálogos frequentemente redundantes e sequências que parecem existir sem uma função narrativa definida fazem com que Futuro Futuro perca sua direção e jamais consiga recuperá-la. Depois do sólido Continente (2023), Davi Pretto entrega um trabalho que soa como um retrocesso tanto na construção dramática quanto na execução estética.

A ambição temática permanece evidente, mas o resultado final acaba restrito a um nicho muito específico, incapaz de transformar suas inúmeras ideias em uma experiência verdadeiramente envolvente, ou memorável.

Distribuído pela Cajuína Filmes, Futuro Futuro estreia nos cinemas brasileiros em 23 de julho.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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